A história do mais poderoso vice presidente da história dos Estados Unidos.

Vice é um dos filmes que melhor justifica as indicações que recebeu ao Oscar 2019. Não apenas tem cara de documentário jornalístico, em uma estrutura de narrativa que lembra outros filmes que receberam destaque nessa e em outras premiações, mas também aposta no humor mais ácido e verborrágico para fazer os discursos que precisa fazer, acertando em cheio todos os alvos de crítica em uma história que não deixa pedra sobre pedra em relação aos acontecimentos narrados.

O filme basicamente mostra a vida de Dick Chenney (Christian Bale), desde o começo de sua vida adulta em 1963 até o momento em que passou por um transplante de coração para assim se manter vivo e com a mínima qualidade de vida. Ao longo dos anos, percebemos em como o irresponsável Chenney na verdade era um dos maiores estrategistas políticos da história, superando qualquer um que estivesse na frente dele.

Com a capacidade de argumentar de forma positiva, calma e racional qualquer proposta absurda que ele tivesse para as suas iniciativas, Chenney rapidamente entendeu que poderia utilizar os sistemas governamentais e de justiça para que tudo jogue a seu favor, prejudicando milhões de pessoas ao redor do mundo.

No final das contas, testemunhamos os altos e baixos de uma personalidade que, de fato, não se arrepende de nada do que fez, e que fez o possível para “proteger o norte-americano médio” que confiou as suas esperanças e sonhos no novo. E já tem algum tempo que eu percebi que até a administração Trump existe aquele ar das pessoas conformadas com as coisas em como ela estão, e tal sentimento não deve mudar tão cedo.

Vice tem uma série de denúncias ao longo de sua narrativa, o que enriquece ainda mais a trama que, apesar de contar com uma narrativa mais lenta, consegue prender o espectador por causa da surpreendente gama de detalhes que o diretor tentou adicionar à obra.

 

 

Alguns simbolismos pontuais são o tempero desse filme. Falas que remetem ao presente, alguns cenários servindo de locação das filmagens, e bem sabemos como esses detalhes enriquecem a obra final. Sem falar nos toques de bom humor que o roteiro propõe, com alguns personagens pontuais complementando a fala do narrador, mas dentro do cenário apresentado.

Logo, Vice não é um filme fácil de se acompanhar. A riqueza desses detalhes resultam também em uma trama onde a narrativa mais lenta permite a inclusão desses detalhes para complementar a história e a experiência narrativa como um todo. Ou seja, vá para o cinema bem acordado ou com uma Coca-Cola Zero na mão com pipoca, pois as chances de dormir nesse filme existem.

E eu nem encaro isso como algo que coloca o filme em um patamar menor. Pelo contrário: Vice é um filme simplesmente espetacular, colocando você como testemunha dos acontecimentos bem de perto, como se você fosse alguém importante ou capaz de mudar o rumo da história a qualquer momento. Mas não é isso o que acontece: você pode se frustrar com a possibilidade de apenas assistir Chenney chegar ao poder e não fazer nada.

Essa sensação se faz mais presente principalmente na segunda parte do filme, que é quando a sua principal história é contada. Na primeira parte, conhecemos a vida de Chenney pré vice-presidência, mostrando suas aspirações, sua personalidade e vida profissional, que já dava indícios de falta de escrúpulos e busca pelo poder a todo custo, mesmo que fosse um motor limitado e vigiado. Já no segundo ato Chenney mostra o que aprendeu de fato com todos esses anos, e se apresenta como o principal responsável por alguns dos movimentos mais estúpidos e cruéis vindos de um governante norte-americano.

Em troca da liberdade. Supostamente em defesa da democracia.

 

 

O filme é uma grande crítica ao modus operandi da chamada ‘elite dominante do governo norte-americano. Deixa um sinal bem claro que o mesmo que já testemunhamos em organizações Reagan e George W. Bush pode (e deve acontecer) pode acontecer de novo com a administração Donald Trump. E o principal motivo para tudo isso é ter o poder por perto. Tudo o que Dick Chenney fez foi pela concentração do poder no seu estado mais puro, em um formato quase ilimitado. Algo inimaginável para muita gente, mas muito possível nos dias de hoje. Até porque Chenney deixou um legado nefasto para as próximas gestões.

Eu nem preciso dizer que Vice é um filme que se encaixa perfeitamente no cenário atual da política brasileira. De novo: as práticas, mecânicas e discursos são os mesmos. Só não vê quem não quer. Ou quem é burro demais para compreender.

Vice é envolvente e instigante. Sua mecânica narrativa é atraente, com toques de sarcasmo em várias oportunidades. A produção é excelente, assim como a sua edição. E o elenco é simplesmente espetacular (Steve Carell, Amy Adamas e Sam Rockwell mais uma vez mostram o seu talento, e se Christian Bale perder o Oscar 2019 para Rami Malek, teremos uma das maiores injustiças da história da premiação).

 

 

Este é um dos meus filmes preferidos entre os indicados ao Oscar 2019. Por todo o conjunto apresentado. Mas a cena final, com uma quebra de quarta parede e a sua cena pós créditos que é perfeita para tudo o que estamos vivendo hoje são cerejas em um delicioso bolo. Vice é altamente recomendado para que o grande público compreenda como o jogo sujo da política funciona. Até mesmo para tentar corrigir alguma coisa no futuro.

Aliás, o Oscar 2019 deixou algo muito claro para todo mundo: filmes como Vice e Infiltrados na Klan fizeram a campanha presidencial dos Estados Unidos começar dois anos mais cedo.