Todo o Dinheiro do Mundo, de Ridley Scott, segue à risca a regra de ter referências às grandes tragédias clássicas ou da grandeza do império romano. A diferença aqui é que a iconografia e dimensão tem uma justificativa simples entre a obsessão com a antiguidade do protagonista e as consequências de sua ambição sem limites.

O dinheiro como símbolo de mudança e condenação apareça nos primeiros segundo do filme, independente da posição econômica que cada personagem representa. Gail Harris (Michelle Williams), é casada com um dos filhos do homem mais rico do planeta, mas não tem uma vida fácil. Sem o apoio econômico do sogro, ela e o marido nada mais são do que mais um casal de classe média/baixa nos EUA, em um período complicado para a economia mundial.

O fato de Jean Paul Getty (Christopher Plummer) não ter contato com seus filhos e netos não é uma dramatização, mas sim um salto de um mundo para outro para um espectador que vê tudo através de uma Harris que acaba no mundo do seu sogro de uma forma totalmente incrédula.

 

 

Tudo acontece quando Paul Getty III é sequestrado, e a recusa do avô em pagar o resgate indica que, ao constatar tudo o que rodeia o magnata, nos faz perceber que tal recusa não surpreende a ninguém.

O império do magnata Getty é fascinante, e só é comparável com sua doentia obsessão pela arte como substituto do afeto ou da família. A história do sequestro a inspiração para Getty contar em pequenos interlúdios a história que quer, dando sentido à uma trama paralela funcional e bem construída.

 

 

É quase natural ver Scott mover a câmera para registrar com elegância sequências que passam um alto nível de verossimilidade, com a tensão plausível, impactando pela sua crueldade.

Não só isso. Ele consegue manter uma robustez expositiva surpreendente em cenas de maior ação que resultam em clímax de dois blocos. Um saldo de sucesso nas cenas essenciais da parte presumidamente mais previsível do conjunto, que vem acompanhada da sólida odisseia de uma estupenda Williams, contra o império de um homem que representa o pior do capitalismo, do sistema patriarcal e de todos os ismos do mundo atual.

 

 

Contudo, Todo o Dinheiro do Mundo é a dissecção do Getty crepuscular, através das cenas de diálogo com um Mark Wahlberg OK. Não apenas Christopher Plummer se apresenta crível, mas sua presença enche a tela com poucos efeitos de maquiagem, algo que apenas um grande ator consegue.

Ameaçante, vil, decadente e, finalmente, vulnerável. Plummer brilha em um dos finais mais telúricos e eloquentes da filmografia de Ridley Scott, que quase toca a maldição Getty com seu relato moral épico, de um único plano: o implacável.