Poucas vezes na história uma música levantou tanta discussão sobre as questões políticas e sociais do afro-americano. Aliás, poucas vezes uma música foi tão debatida. No caso de um rap, a última vez que eu me lembro de um falatório tão grande foi em 99 Problems, de Jay-Z (2003), e isso porque ele descreveu graficamente uma abordagem policial supostamente irregular que ele sofreu em 1994, ao mesmo tempo em que ele confessou estar irregular naquela abordagem (a música virou tese em universidade).

This Is America entra para a história não apenas por conquistar prêmios importantes no Grammy Awards 2019, mas por fazer justiça para aquela que foi a música mais importante de 2018. Nenhuma peça musical acertou tão em cheio os seus objetivos, e todos nós falamos sobre essa música em algum momento no ano passado. E se você não falou sobre essa música, ou é porque você é um alienado completo, ou é porque as questões que a canção levanta não atingem a sua pessoa de nenhuma forma.

Não é apenas uma denúncia escancarada ao “american way of life” do racismo, do preconceito, do repúdio às minorias, da liberação das armas e da marginalização da violência como uma filosofia de vida estabelecida. Toda essa denúncia é feita de forma metodicamente inteligente e racional. Tudo ali é muito bem pensado, para que as mentes inteligentes possam racionalizar na quantidade de barbáries que norte-americano médio abraça como estilo de vida, e em como isso afeta a aqueles que são qualificados como inferiores por serem diferentes.

A quantidade de referências históricas que o videoclipe de This Is America apresenta é algo impressionante. Referências que narram uma história em paralelo daquela apresentada pela canção. Uma história que mostra o quanto o negro é repudiado, oprimido e perseguido ao longo de séculos.

Childish Gambino (ou Donald Glover) sequer compareceu ao Grammy Awards 2019 para receber os seus prêmios. Talvez porque ele não acreditava que poderia vencer de verdade. Ou talvez porque ele entendeu que não era relevante a sua presença no evento.

Aliás, um Grammy Awards 2019 que decidiu ter uma boa dose de boa vontade em tentar ser diferente. Alicia Keys foi a primeira mulher (e primeira mulher negra) a apresentar a premiação. This Is America foi o primeiro rap a vencer nas categorias de Canção do Ano e Gravação do Ano.

Mas o mais importante de tudo isso é o recado que a indústria fonográfica dá ao mundo. Não apenas do reconhecimento que essa foi sim a melhor canção do ano (para desespero dos racistas), mas também que não aceita mais o discurso de exclusão e a cultura de ódio contra os negros que ficou estabelecida nos últimos anos.

E eu espero, de coração, que o recado chegue no Brasil também. Não há explicação racional para que algumas pessoas acreditarem de verdade que o negro é uma raça inferior.

E agradeço ao Childish Gambino por ser a voz de empoderamento de um grupo de pessoas que, aos poucos, vai conhecendo o seu verdadeiro poder, e mostrando ao mundo do que realmente é capaz.