Um dos filmes mais divertidos de 2019.

Muita gente torceu o nariz quando a Warner Bros./DC anunciou que faria um filme inspirado em Shazam!. Muita gente considerou o filme algo simplesmente desnecessário, ou uma prova clara que a DCEU estava completamente sem rumo ou foco. Algumas pessoas insistiam em defender a visão de Zack Snyder, apostando em narrativas sombrias e mais adultas para os personagens mais lendários da editora. Porém, as regras para os filmes de herói já estavam re-estabelecidas pela Marvel, e a DC precisava encontrar a sua forma de contar as suas histórias.

Mulher-Maravilha foi o primeiro sinal claro que Warner/DC era capaz de se reinventar sem precisar beber da mesma fonte da concorrência. Mesmo porque Esquadrão Suicida deixou bem claro para todo mundo que eles não eram capazes de reproduzir a mesma experiência de times de heróis da Marvel. E nem mesmo a proposta de universo compartilhado com os principais heróis da DC funcionou (Liga da Justiça é um fracasso comercial). Mas as coisas pareciam mudar na DC. E mudaram.

Aquaman foi o primeiro grande sucesso comercial da DC nos cinemas (desde O Homem de Aço), e mostrou claramente que consegue contar as histórias dos seus personagens do seu jeito, aproveitando sim o que a concorrência tem de melhor, mas dando personalidade própria para os seus filmes e personagens.

E Shazam! fez tudo isso, felizmente.

 

 

Antes de qualquer coisa, encare esse filme como diversão pura. Não leve nada muito a sério nessa história. Vá ao cinema apenas para conhecer a origem de um dos personagens mais poderosos da DC e, se depender de Zachary Levi (e do elenco jovem do filme), será um dos mais carismáticos daqui para frente. O filme aposta claramente na proposta de filme tipo “Sessão da Tarde”, com várias referências aos filmes clássicos da década de 1980, como Quero Ser Grande e Goonies. E faz isso sem medo de ser feliz, com um humor non-sense e até um pouco descolado da ideia de filme adolescente típico, mas com as conexões que farão com que o público mais jovem se identifique com os personagens e suas aspirações.

O elenco jovem manda muito bem no longa, com Asher Angel e Jack Dylan Grazer roubando e muito a cena, com uma interação que funciona. Espero ver esses dois em um eventual segundo filme da franquia. E o próprio Zachary Levi com Dylan Grazer deu aquela sensação boa de ver dois brothers descobrindo poderes juntos. O elenco foi algo fundamental para criar a empatia necessária com os personagens. Inclusive Mark Strong como Dr. Thaddeus Sivana, que até carrega os trejeitos clichês da maioria dos vilões que você conhece. Mas como o filme não se leva a sério…

Aliás, eu adorei o fato de Shazam! tirar sarro dele mesmo em várias situações. Aliás, não basta as referências aos filmes de comédia clássicos dos anos 80, mas também as próprias referências diretas ao universo DC. Piadas com Batman, Superman e Aquaman estão presentes, indicando claramente que aquele novo herói faz parte do mesmo universo dos demais. ou seja, se a Warner/DC decidir mudar de ideia e voltar a brincar com o universo compartilhado, pode colocar todo mundo no mesmo filme sem problemas.

 

 

O roteiro de Shazam! é redondo, mesmo sem ser perfeito. Algumas situações apresentadas acabam não sendo críveis porque sempre deixam a ponta do “porque ele fez isso sendo que ele poderia ter feito aquilo?”. Mas são pontos que podemos simplesmente ignorar, pois não comprometem o desenvolvimento da história. O filme flui bem, e as duas horas de longa passam sem maiores problemas.

A parte técnica do filme está boa, mesmo sabendo como é a qualidade do CGI da DC (eles não escorregam feio, mas você sabe que um monte de coisas foram adicionadas pelo computador, mas acaba não se incomodando, porque eles não fizeram muita força para esconder isso). A fotografia está bem feita (nada do universo escuro que o Zack Snyder tanto ama) e as piadas estão ótimas. Aparecem em momentos pontuais e coerentes, sem aquela tentativa insuportável de tentar fazer rir o tempo todo (não é mesmo, Thor: Ragnarok?). E essa é mais uma prova que o roteiro funciona bem.

Se Shazam! deixa algumas lições? É claro que sim.

 

 

Billy Batson passa boa parte do filme buscando as suas origens ou o caminho de volta para a sua casa. Mas percebe que ele já está no caminho certo, pois ele sabia que não ia se perder. Fugir tantas vezes poderia indicar um jovem um pouco perdido, mas uma vez que ele se encontrou no meio de diferentes ao qual ele foi inserido pelas consequências da vida, ele descobre que são aquelas pessoas que estão do nosso lado nos momentos bons e ruins são a nossa família de verdade.

Billy também compreende o que é a essência de um verdadeiro herói, que é efetivamente proteger aqueles que não tem poder nenhum. Que o melhor dentro dele é a sua capacidade de fazer a coisa certa, e que compartilhar o seu melhor pode ajudar a resolver todos os conflitos. Ah, sim, é claro, tem aqueles discursos implícitos que já vimos em outros filmes de herói: o vilão seduzido pelo poder através dos pecados, a auto-aceitação, a aceitação do discurso ao diferente, que ser herói não necessariamente significa ter poderes, entre outros.

Sem falar em todo o processo de amadurecimento do personagem, que acaba se tornando consciente dos seus poderes e responsabilidades. A metáfora do “aprender do que você é capaz” vale para os heróis como para a vida, pois ser consciente do que é possível fazer é basicamente meio caminho andado para vencer.

 

 

No final das contas, Shazam! é um dos filmes mais divertidos que você pode assistir em 2019. Nem parece que é a DC que a gente conheceu no começo da DCEU. E já podemos dizer que finalmente eles encontraram a sua forma de contar as suas histórias. É um filme para você sair do cinema de cabeça leve e bem humorado. E apresenta muito bem um herói que pode se tornar muito popular para as novas gerações.

Pode ir no cinema sem medo. Filme aprovadíssimo.