A minha ressaca pós Oscar 2019 foi bem pior do que eu imaginava…

Algumas coisas merecem ficar no passado. Já outras precisam ficar no passado, para que o presente não arranhe a imagem do que era bom. Eu vivi para ver o humorístico Sai de Baixo desde a sua estreia até o seu fim, entre 1995 e 2002. Eu não perdia um episódio. Eu achava engraçado. Mas hoje, eu reconheço que faz mais sentido alguém como eu achar engraçado naquela época, e não agora. Mesmo que eventualmente eu assista a reprise do programa na Rede Globo e dê algumas risadas, eu entendo claramente que esse é o tipo de humor datado, que não funciona nos dias de hoje.

Mesmo assim… os argumentos que eu apresentei no parágrafo anterior não explicam o fato de Sai de Baixo – O Filme entrar, com muita facilidade, em uma das piores coisas que eu assisti em toda a minha vida.

Existem filmes ruins por causa de decisões equivocadas de roteiro, falhas na direção, baixa qualidade de efeitos visuais e técnicos e outros pormenores que são facilmente detectáveis quando assistimos a um filme com o olhar mais crítico. Mas nem é preciso ser especialista em cinema para concluir que esse filme é uma bosta mais que processada. Aliás, o melhor termômetro para uma comédia é justamente o consumidor final, o espectador comum, que só vai ao cinema para rir e se divertir.

Sai de Baixo – O Filme chega a ofender pessoas inteligentes que também vão ao cinema apenas para dar boas risadas. O roteiro entra no modo “vale qualquer coisa” com uma facilidade assustadora, com soluções totalmente absurdas no sentido lógico, e nem mesmo se a gente aceita o non-sense pelo viés humorístico consegue aceitar tal solução como recurso narrativo válido para rir.

 

 

Por exemplo: é óbvio que entregar uma mala cheia de diamantes para Magda (Marisa Orth) é sinônimo de dar tudo errado. É óbvio que dar a outra mala para Caco Antibes (Miguel Falabella), marido de Magda, é sinônimo de problemas. É óbvio que o filho de Caco Antibes é tão trambiqueiro quanto o pai. É óbvio que Ribamar (Tom Cavalcante) vai ter duas mulheres na mesma trama.

Não existe um ponto de inovação na história, nenhuma solução alternativa, nenhum plot twist surpreendente. Até o “desaparecimento” de Cassandra (Aracy Balabanian) é feito de qualquer jeito, em um roteiro fácil e previsível. E o final do filme é um absurdo de tão ruim.

Outro grave problema de Sai de Baixo – O Filme é um texto imbecil e limitado. Nem mesmo para o público que busca o humor descomplicado ou que vai ao cinema única e exclusivamente para dar risadas funciona. As piadas são as mesmas e, de novo, por serem datadas e nada inovadoras, não funcionam mais. Algumas das piadas feitas beiram à vergonha alheia, e até mesmo Marisa Orth, que era brilhante como Magda na série, acabou ofuscada por uma proposta geral que é uma porcaria.

E eu insisto que eu não estou falando isso por mim. Na sessão em que eu estava, ao longo de 83 minutos de projeção, não aconteceu UMA GARGALHADA SEQUER DO PÚBLICO. Em duas oportunidades uma piada pontual renderam risadas tímidas, mas em todo o filme não houve aquele momento em que a sala realmente se divertisse com o que era apresentado em cena (diferente de – por exemplo – Minha Vida em Marte, onde você ri em boa parte do tempo).

Logo, não foi surpresa ver duas pessoas deixando a sala do cinema na metade do filme. Para não voltar mais.

 

 

Sai de Baixo – O Filme pode ser uma enorme decepção para quem assistiu a série de TV e até mesmo os episódios especiais para o Viva. Eu entendo perfeitamente que escrever para a TV é bem diferente do que escrever para o cinema. São formatos e mecânicas diferentes. Mas não é possível que Miguel Falabella tenha sido tão infeliz em um roteiro tão lixo. A impressão que dá é que ele escreveu esse roteiro com a bunda.

O recado claro que esse filme deixa é que não podemos fazer nada nessa vida exclusivamente pelo dinheiro. Dava para imaginar que esse filme era ruim com a simples informação de ter apenas 83 minutos de duração. De novo: Minha Vida em Marte tem quase duas horas, e passa rápido de tão divertido que é. E não é apenas uma associação numérica: como o roteiro não tem o que contar e vai para qualquer lado contando qualquer coisa, o filme se resolve rapidamente por pura incompetência.

Estamos no final de fevereiro de 2019, e Sai de Baixo – O Filme já é o pior filme do ano. Acho muito difícil encontrar alguma outra obra cinematográfica que vai superar o baixo nível apresentado nessa obra. É uma pena. Sai de Baixo não precisava dessa marca tão negativa. Poderia ficar no passado, com aquele sentimento de missão cumprida por ter entregue um humor de qualidade para milhões de brasileiros.

Só não é pior que Cinderela Baiana. Acredite.