Uma obra prima.

Roma é a declaração de amor de Alfonso Cuarón para o cinema e, por que não dizer, para as suas origens. Para a sua própria vida. Muito foi dito que esta seria a obra mais pessoal do diretor de Gravidade (filme pelo qual ele venceu o Oscar de Melhor Direção), e quem assiste ao longa de 2h15 identifica isso com muita clareza. Mas ele consegue ir além, entregando uma obra que vai na contra-mão do cinema espetacular e fantástico, abraçando a história como o personagem principal, mas simbolizando toda a sua visão de mundo em uma única mulher.

Cleo (Yalitza Aparicio) é uma jovem pobre que trabalha em uma casa de família de classe média mexicana na década de 1970. Ela acompanha quase em silêncio todas as transformações que o seu país vive, enquanto precisa lidar com o pequeno universo ao seu redor se modificando, mas sem deixar de cumprir com as suas tarefas laborais.

Ao mesmo tempo, o infinito particular de Cleo também passa por transformações e mudanças sensíveis. Mudanças inesperadas, que obrigam a moça a tomar decisões que podem não ser as melhores para qualquer mulher moderna. Mas como estamos diante de uma sociedade iminentemente dominada pelos homens, ela busca aquilo que ela entende ser o melhor para ela, mesmo que isso a faça sofrer.

Porém, o destino é implacável com Cleo e, em partes, acaba decidindo por ela. Ao longo do filme, vemos como a sua trajetória é marcada por essas transformações, e em como ela acaba lidando com as desilusões e as perdas da vida.

Faltam palavras para descrever o que eu senti com Roma.

Para começar, eu quero deixar bem claro que esse não é um filme para todos. Para muita gente que apoia Bohemian Rhapsody e até Pantera Negra para vencer como Melhor Filme no Oscar 2019, vai simplesmente odiar o longa de Alfonso Cuarón. Ele vai na contra-mão do blockbuster, entregando uma obra intimista, autoral, quase pintada à mão. É um filme com narrativa propositalmente lenta, onde o espectador precisa dar a máxima atenção para a história central e para a subtrama que envolve a patroa de Cleo, Sofia (Marina de Tavira).

Dito isso, tenho em Roma uma das experiências mais edificantes da minha vida. Já que o filme é baseado nas memórias de infância de Alfonso Cuarón, dá até para imaginar que ele está representado no filho de Sofia que, do nada, fala de suas experiências com vidas passadas. Coincidentemente, esta é a criança mais próxima de Cleo ao longo do filme, e sua mente cheia de viagens narrativas se assemelha muito a de um cineasta.

É um filme feito para você sentir exatamente o que Cleo sente e, para isso, a sua narrativa lenta e intimista é fundamental. Os planos de câmera todos fixos, sem as tremedeiras comuns nos filmes blockbuster que estamos acostumados foi uma forma muito interessante de imergir o espectador no que realmente importa: a história que é contada, que é a grande protagonista de Roma. Você vira testemunha ocular dos fatos, como se tudo fosse exibido através de uma câmera de vigilância. E essa sensação de ser o observador dos acontecimentos, dá uma sensação de angústia, que faz parte da proposta do filme. Ele quer fazer com que você se importe com o que está assistindo, desejando interferir em alguma coisa, de alguma forma.

E sobre a sua fotografia… meus amigos… que fotografia!

 

 

Cuarón tem que vencer o Oscar 2019 nessa categoria. Foi algo simplesmente soberbo, impecável e impressionante. Ele mesmo afirmou que apenas as tecnologias da Netflix poderiam entregar os resultados que ele queria, e o trabalho final dessa fotografia justifica cada centavo investido nesse aspecto. Não apenas deixou tudo visualmente muito atraente, como aumentou ainda mais aquela sensação de imersão que eu citei lá atrás.

Yalitza Aparicio mereceu muito a indicação ao Oscar na categoria de Melhor Atriz. Não bastou ela carregar um filme desse porte nas costas, mas é fundamental relembrar que esta é o primeiro trabalho dela como atriz. No mundo real, antes de Alfonso Cuarón entra em sua vida, ela era (e ainda é) professora de educação infantil, e nunca fez sequer um curso de teatro. Mais: seu personagem tem várias semelhanças com a Cleo que ela interpreta: filha de pais com origem indígena, mas foi criada por uma mãe solteira que era empregada doméstica.

Mas… o que eu aprendi com esse espetacular filme chamado Roma?

Que a vida é feita de ganhos e perdas, e que é realmente muito difícil lidar com as perdas da vida. Ainda mais quando temos um perfil muito mais alinhado com a resignação do que com a luta. Por outro lado, que é fundamental ter a coragem de dar os passos em busca de uma resolução para os nossos problemas e conflitos internos, mesmo que isso resulte em uma grande decepção.

Roma é um filme protagonizado por mulheres, e mostra como é essa relação dos homens que simplesmente as abandonam em nome dos seus interesses pessoais. Não apenas por causa das diferenças entre marido e mulher, mas apenas porque um homem é egoísta e simplesmente decide abandonar a mulher quando ela mais precisa. O filme mostra como essas duas mulheres, com perfis e personalidades bem diferentes, precisam lidar com essas perdas, e até se unem em função das pequenas tragédias em suas vidas.

 

 

Há dois grandes plot twists no filme, que se conectam de forma até surpreendente, em um roteiro que dá foco total para a jornada de Cleo em busca de resolver a sua transformação. E esses dois plot twists rendem os momentos mais sensíveis desse filme cheio de sensibilidade e riqueza de detalhes.

Se você gosta de cinema de verdade (e não apenas dos filmes da Marvel) e consegue assimilar o melhor de uma obra prima quando se depara com uma, vá ver Roma correndo. É um dos melhores filmes que você pode encontrar. É filme para alma adulta (independente da idade). Filme difícil, que faz você pensar.

Mas é um filme tão maravilhoso, que fatalmente você terá vontade de chamar de seu quando ele terminar.

Aplaudo Alfonso Cuarón de pé!