As tradicionais redes de cinema se opõe, à Netflix, e por motivos óbvios: o serviço de streaming prejudica o seu modelo de negócio. Porém, os dois formatos poderiam coexistir se os cinemas não cobrassem tão caro pelos ingressos, e se o serviço, em alguns casos, não fosse abaixo da média.

Ted Sarandos, chefão da Netflix, acusou as redes de cinema de ficarem presas ao passado, prejudicando a indústria com sua intransigência e se distanciando do público de filmes eles poderiam estar interessados em ver.

“Eles desconectaram as pessoas do cinema, de certo modo. Não creio que seja muito adaptado ao consumidor fazer que aqueles que não vivem próximos de uma sala de cinema, esperar seis ou oito meses para ver um filme.

Não nego que ir ao cinema para ver um filme seja uma experiência genial. Não creio que emocionalmente seja uma experiência diferente assistir esse filme na Netflix. É uma experiência física diferente, com certeza.”

 

 

Vale lembrar que o Festival de Cannes bateu de frente com a Netflix, tirando as produções do serviço de streaming da competição pela Palma de Ouro sem uma distribuição nos cinemas franceses. Na França, há uma lei que exige uma espera de três anos após a estreia de um longa no cinema para que depois ele desembarque no streaming. Resultado: Roma, de Alfonso Cuarón, ficou de fora da competição, mesmo com algumas súplicas por parte de Cannes.

Por outro lado, a Netflix não quer ficar de fora dos grandes prêmios, ao mesmo tempo que não quer perder cineastas de prestígio. Para isso, testa diferentes fórmulas para se aproximar do cinema, tentando se ajustar às regras do jogo.

Por isso, aceitou programar algumas estreias nas salas dos Estados Unidos antes dos filmes desembarcarem na plataforma de streaming: o próprio Roma, o novo filme dos irmãos Coen e A Balada de Buster Scruggs. O mesmo vai acontecer com The Irishman, novo filme de Martin Scorsese.

Sarandos entende que os diretores querem que seus filmes façam parte de uma cultura, e que as pessoas falem desse filme. Por outro lado, o executivo também entende que “provavelmente 80% das pessoas que vão aos cinemas também são assinantes da Netflix”, e por conta disso não deveria haver problemas em ter os filmes nos dois espaços.

Ao meu ver, os dois mundos poderiam coexistir sem problemas. Mas acho que o futuro está mesmo no streaming, e tudo o que o mercado de cinema tradicional está fazendo nesse momento não passa de uma grande forçada de barra, apenas para impor uma proposta arcaica de distribuição de conteúdo.

A má notícia para as redes tradicionais de cinema é que o usuário mudou os seus hábitos de forma definitiva. É um caminho sem volta. Não tem como o streaming deixar de ser utilizado pela grande massa consumidora de conteúdos.

E, se em algum momento aparecer estratégias “legais” para tentar o veto ao streaming, novas propostas e tecnologias vão aparecer.

Ou seja, é melhor o cinema como conhecemos se reinventar. E rápido. Caso contrário, as bilheterias vão continuar a cair de forma vertiginosa. Ser superado pelo mercado de videogames nem é tão grave assim, mas é um sinal claro de que algo está muito errado na visão de mercado que perdura por décadas, sem pontos de inflexão.

Parece que eles não aprenderam nada com o que aconteceu com o mundo da música, não é mesmo?