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O ‘felizes para sempre’ não existe, e Shonda Rhimes mostrou isso em Grey’s Anatomy no final da 10ª temporada. Mesmo assim, Felizes Para Sempre? (isso mesmo, com ponto de interrogação no final) quer mostrar mais uma vez o quão complexa pode ser essa história de infidelidade e traição. De cara já temos uma proposta mais abrangente do que aquela vista em The Affair (Showtime), onde a trama se centra em poucas pessoas. Aqui, temos praticamente uma família inteira envolvida, e poucos episódios para mostrar onde tudo isso vai acabar.

A história gira em torno da família Drummond, onde cada um tem o seu motivo particular para trair. Seja pela necessidade de reascender a vida sexual do casal, seja pelo fato de não ter mais interesse no parceiro, seja pelo desejo de ter sexo fora do casamento, por reencontrar um amor do passado, ou porque a curiosidade de se envolver com um homem mais novo. É um leque de possibilidades tão grande que até pode confundir o telespectador menos atento. Mesmo assim, a trama não é tão complexa de se acompanhar.

Nesse cenário todo, apenas um casal decidiu se separar (e, mesmo assim, porque não se importam muito com a separação, pois já estão traindo um ao outro), e outro casal que está ‘relativamente estável’ quando a história começa, sem AINDA cometer a traição – os patriarcas da família, mas os 46 anos de casamento ficarão em risco rapidamente -. Os demais estão todos envolvidos em algum pequeno ou grande caso de infidelidade, pelos motivos já apresentados.

Talvez Felizes Para Sempre? peque um pouco no fato de tentar colocar a trama dentro de um ambiente com pegada política, colocando a série no período das manifestações que aconteceram no meio de 2013. Não falo pelo fato de não ser necessário lembrar ao povo brasileiro que eles foram lá gritar ‘não é pelos R$ 0.20’ a troco de nada, mas porque a ideia fica um pouco descolada da proposta geral da série. Talvez a ideia dos roteiristas foi mostrar uma espécie de ‘ciclo contínuo da vida’, uma vez que um dos jovens da família encontra o seu interesse amoroso da mesma forma que os seus avós se conheceram: em uma manifestação política que tinha como objetivo mudar os rumos do Brasil (sic).

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A Globo investiu bastante na produção da série. Fotografia bem cuidada, várias cenas de plano aberto, mostrando a bonita arquitetura de Brasília, e com cenas dentro das dependências políticas da cidade. Esteticamente falando, Felizes Para Sempre? é mais um trabalho de muita competência da O2 (co-produtora da série).

O que me deixa curioso sobre a trama é os rumos que ela pode tomar. Será que as histórias de traição (que, de novo, envolvem um único núcleo familiar) vão se cruzar em algum momento? Ou cada argumento vai tomar ‘vida própria’, se desenvolvendo de forma independente, apresentando vários desfechos? Seria muito bom se essas histórias se encontrassem lá na frente, mostrando um novo cenário dessa família, com o reflexo de suas consequências. Porém, será compreensível se os autores buscarem soluções isoladas e até mesmo mais surpreendentes, que igualmente devem resultar em uma família destruída.

O que podemos esperar de Felizes Para Sempre? Uma série que quer provocar. Instigar o telespectador a olhar para o seu interior e responder a grande questão da trama onde o plot principal é a traição: ‘vale a pena?’ Entendo que cada um vai ter que responder por si. Não somos ninguém para julgar as escolhas individuais, ainda mais em um tema tão polêmico. Cada ser humano é um universo complexo, onde cada um vive suas mazelas e dificuldades, lidando com elas de acordo com os cenários apresentados.

A traição é algo mais comum do que imaginamos. E não falo só da traição física. Falo da traição de conceitos, valores, de amizade, da cumplicidade. E o mais perigoso nisso tudo, é que nas idas e vindas da infidelidade, corremos o risco de trair a pessoa mais importante de nossas vidas: a nós mesmos.