Quando o crime compensa. Ou não.

Poderia Me Perdoar? me despertou muita curiosidade por ser um filme onde mostraria uma Melissa McCarthy bem diferente de tudo o que já havíamos visto dela no cinema e na TV, e por ser uma história relativamente diferente das demais que foram contadas. Estamos diante de uma anti-herói literária em plena era das fake news. E provavelmente vamos torcer para ela se dar bem.

O filme é baseado no livro de Lee Israel, protagonista de toda a ação dessa história. Aqui, conhecemos uma escritora decadente e bem ferrada na vida (Melissa McCarthy), que encontra uma forma de pelo menos pagar as contas e sobreviver: escrever cartas falsas de personalidades famosas, reproduzindo as formas de escrita e narrativa desses autores, e vendendo as cartas para colecionadores.

Veremos como Lee se torna bem sucedida na empreitada, e ao lado do amigo Jack Hock (Richard E. Grant), ela assuma uma nova perspectiva de vida diante da notoriedade que o seu trabalho falsificado ganha, e do reconhecimento pela qualidade das cartas que ela nunca teve quando escreveu biografias de outras pessoas.

Porém, tudo o que sobe, tem que descer. E também vemos como Lee acaba se metendo em problemas por não saber quando parar, e por tentar enganar aqueles que são mais experientes nesse setor do que ela.

 

 

Poderia Me Perdoar? não é um filme ruim, mas ele é mais linear do que eu esperava. Não que eu estivesse esperando um filme cheio de ação e de viradas espetaculares, mas essa é uma narrativa onde pouco ou nada acontece de muito relevante ao longo dos 107 minutos da história.

É uma história bem contada, com os principais acontecimentos relevantes apresentados. Temos a oportunidade de conhecer em detalhes a personalidade de Lee Israel, e constatamos em como ela vai se suavizando com o avançar do filme. Também compreendemos que toda aquela jornada não é apenas pela sobrevivência dela, mas também para uma melhora de sua auto-estima e reforço de suas convicções sobre ser uma boa escritora, algo que ela efetivamente alcança com o reconhecimento da qualidade de suas cartas falsificadas.

Outro ponto de muito destaque oferecido pelo filme é a amizade entre Lee e Jack. Mesmo com altos e baixos, os dois se tornam cúmplices no esquema fraudulento. Bom, pelo menos na maior parte do tempo. Se bem que o ‘poderia me perdoar’ do título se faz efetivo em vários aspectos, inclusive nessa amizade inusitada.

Poderia Me Perdoar? tem uma boa ambientação e fotografia, e uma trilha sonora muito boa, que ajuda nessa ambientação e, principalmente, coloca o espectador no clima de boemia que os personagens de Lee e Jack vivem. Apesar de ser uma história arrastada, o filme se vale muito dessa dupla em cena, ilustrando esse relacionamento problemático, mas bem interessante.

E Melissa McCarthy… é mesmo a cereja do bolo desse filme.

 

 

Para a proposta que assumiu, ela está excelente. Não apenas interpretou, mas trabalhou muito com as expressões faciais, que são pesadas na maior parte do tempo. Acho que ela é o principal motivo para assistir Poderia Me Perdoar?, pois definitivamente é um dos seus melhores trabalhos na carreira.

Sobre o filme em si, apesar de gostar de um modo geral, eu esperava um pouco mais. A narrativa mais linear e obviamente focada na história de Lee pode ser o grande problema do longa. A história da escritora é sim interessante, mas faltou um pouco de ritmo para deixá-la mais atraente dentro de sua aspiração por reconhecimento e pagamento das contas.

De qualquer forma, a escolha aqui foi por contar o evento principal, que foram as cartas falsificadas e em como ela resolve isso. Nesse aspecto, Poderia Me Perdoar? é um bom filme. Conta a história que quer contar, de uma forma que qualquer pessoa poderá entender e acompanhar o filme com o mínimo de interesse.

 

 

Além disso, ajuda (e muito) ter uma dupla de protagonistas inspirados e carismáticos. É fácil criar empatia por Lee e Jack, e a tendência é que você torça para que os dois acabem se dando bem aos olhos da justiça. Ou pelo menos com um deles.

Poderia Me Perdoar? está aprovado. Não será o grande injustiçado do Oscar 2019, mas cumpre o seu papel em oferecer uma história interessante, com personagens que mostram suas camadas apesar das dificuldades.