O décimo oitavo filme da Marvel Cinematic Universe responde pelo nome Pantera Negra. Mas vai além de ser apenas um filme. Aliás, vai além de ser o melhor filme que a MCU já contou nos cinemas até agora. O longa cumpre com a missão de ser um evento inédito e sem precedentes, deixando vários recados claros para a sociedade, e destroçando barreiras culturas e sociais impostas na indústria de Hollywood.

Quando eu era pequeno, eu gostava do Superman. Queria ser como ele. Queria ter super poderes e salvar o mundo. Conforme fui crescendo, fui aprendendo com outros heróis qual é a relação do poder com a essência de cada um, e entendendo que o verdadeiro poder não está em uma roupa ou armadura, mas no que trazemos dentro de nós. Nos tornamos heróis quando nos salvamos de nós mesmos, e quando oferecemos o melhor de nós para salvar aqueles que não tem tanto poder assim.

Pantera Negra oferece um novo herói ao mundo que, mais uma vez, reforça essa ideia do ‘o que realmente importa é o que trazemos dentro de nós’. Apesar de modificar alguns acontecimentos na sua origem, os elementos básicos de sua mitologia estão lá, todos muito bem explicados para o grande público. Chama a atenção o cuidado e o respeito para uma cultura de origem africana (fictícia, eu sei, mas com tanta credibilidade, que é admirável o resultado final), com uma riqueza de detalhes que tora tudo muito crível e palpável. Até mesmo naquilo que poderia ser considerado um completo absurdo.

 

 

A trama gira mais em torno de T’Challa, e apresentar como efetivamente ele se tornou o rei de Wakanda que hoje todos conhecem. Não exatamente em como se tornou o Pantera Negra, pois isso explicado sabiamente nos primeiros cinco minutos do filme, mas apresentando ao público os seus medos e aspirações que implicavam ao posto, algo absolutamente normal para qualquer um na situação dele. A responsabilidade de assumir o poder e tomar as decisões corretas para não colocar o seu povo em risco dá espaço para os seus conflitos éticos e para questionamentos considerados pontuais e relevantes para os dias atuais. Até mesmo sobre o papel do país como super potência tecnológica que virou as costas para os demais países menos favorecidos.

Isso mesmo. Um fundinho de comunismo é dissertado nesse filme.

Outra sábia decisão do roteiro foi colocar um conflito pessoal para ser o principal problema de T’Challa no longa. Garra Sônica fica em segundo plano para apostar em um rival com aspirações pessoais em relação ao reino de Wakanda, o que reforça a solidez do roteiro, que mostra coerência nesse aspecto. Além disso, a trama amarra bem os plots desse filme com Capitão América: Guerra Civil, uma conexão direta e imediata com o filme que apresentou o Pantera Negra ao mundo.

Uma das coisas que eu realmente estou ansioso para ver (e isso pode acontecer) é o encontro entre Tony Stark e a irmã de T’Challa, Shuri. Por um motivo bem simples: a menina é genial no desenvolvimento de novas tecnologias, e é até difícil dimensionar o que ela e o gênio playboy milionário e filantropo criador do Homem de Ferro poderiam fazer juntos.

O elenco é simplesmente formidável. Chadwick Boseman foi feito para esse papel. Ele faz a gente querer esquecer qualquer ideia de um James Bond negro (mesmo que esse James Bond seja o Idris Elba). O filme naturalmente dá destaque para o seu elenco feminino principal, que tem uma importância e visibilidade enorme ao longo da trama. É uma das decisões mais inteligentes desse roteiro, pois sabe aproveitar recursos dos quilates de Lupita Nyong’o, Danai Gurira e Angela Bassett. Elas simplesmente dão um show em cena, cada uma dentro de suas respectivas propostas.

 

 

E por falar nas mulheres… não apenas são importantes, mas são poderosas, fortes e decididas, com opinião própria e muita personalidade. Ninguém poderá dizer que não temos mulheres guerreiras e em pé de igualdade com os homens nesse filme. O empoderamento feminino se apresenta de forma plena, em uma proposta orgânica e que convence. Não falo apenas por serem mulheres guerreiras, mas por serem corajosas e mentalmente fortes. Tão fortes quanto a Viúva Negra.

Pantera Negra é um filme que, de forma subliminar, aborda vários temas considerados importantes e relevantes nos tempos atuais. Talvez o que mais fica em evidência é justamente o mostrar uma raça negra forte e com potencial de dominância, tanto pela força como pelo talento criativo, mas principalmente pelo senso de justiça. Como já frisei, é um filme que também levanta a discussão sobre o papel das potências mais ricas em relação às mais pobres (isso acontece no continente africano nesse exato momento), a exploração dos recursos naturais e a nossa capacidade de colaborar com o nosso melhor potencial para estabelecer um mundo melhor e mais justo, sem necessariamente pegar em armas para isso.

O filme também mostra a importância de conhecermos o passado para compreender e corrigir o presente. Nenhuma falha é incorrigível, e a maioria de nós não usamos as fantasias de heróis e vilões por obra do mero acaso. Tudo tem uma razão de ser, e é fundamental ter o conhecimento de todos os fatos para corrigir posturas e atitudes do passado que se refletem no presente. O mais interessante nesse aspecto é que o principal conflito do filme não mostra apenas uma luta pelo poder de um reino inteiro, mas que essa disputa esconde aspirações pessoais profundas que, quando compreendidas, se tornam mais palatáveis e menos superficiais. O embate deixa de ser apenas físico, e se torna emocional.

Sem falar na máxima do compreender a dificuldade do seu adversário, e olhar para ele como tal, e não como um inimigo mortal. Aquele que nos fere hoje pode salvar a nossa vida amanhã. É um ciclo perfeito se fechando.

 

 

Pantera Negra deixa como recado final que ‘pessoas sábias constroem pontes, enquanto que idiotas constroem muros’. Auto explicativo e referencial (bem sabemos para quem foi o recado). Em um mundo tão dividido pelas opiniões contrastantes, depois de tantos conflitos, o longa lança a proposta de pensarmos juntos, dialogarmos, buscando um entendimento para que todos convivam em uma mesma tribo. A tribo do ser humano. Pode ser um recado claro também para os fãs xiitas haters, que entendem que um filme como esse não pode (ou deve) dar certo, por motivos torpes que prefiro nem citar nesse texto.

Pantera Negra é simplesmente espetacular. Pelo menos até o final de abril de 2018, será o melhor filme da história da Marvel Cinematic Universe (será superado por Vingadores: Guerra Infinita, mas até aí… já é algo esperado). Uma produção conceitualmente impecável, uma história que emociona na medida certa, e que com certeza deixa os seus recados claros para bons entendedores. É um dos melhores filmes que você vai assistir em 2018, sem medo de errar.

Como negro, saí do cinema achando esse personagem foda pra caralho. E acho que era exatamente esse o efeito moral que todos os envolvidos queriam causar naqueles que se identificaram com o rei de Wakanda.

 

P.S.: mesmo sem ter referências diretas à Vingadores: Guerra Infinita (nem mesmo nas duas cenas pós créditos), podemos dizer que, agora sim, estamos prontos para a chegada de Thanos na Terra.