A 90a edição do Oscar fechou a ferida deixada por aquele final maluco do ano passado. O ‘envelopegate’ foi encerrado de uma vez por todos, apesar de muitos pensarem por alguns instantes que tudo poderia dar errado de novo, mesmo com envelopes com os nomes das categorias em letras garrafais do lado de fora.

Enfim, A Forma da Água, de Guillermo del Toro, venceu como Melhor Filme de 2017. Mas muitas outras coisas aconteceram na noite de ontem. E esse post tenta resumir tudo.

Jimmy Kimmel chegou a afirmar que não faria piadas sobre os escândalos sexuais. E, felizmente, NÃO CUMPRIU A PROMESSA (ou nos enganou). Fez as referências como se no seu programa estivesse, inclusive citando a polêmica do abismo salarial em Todo o Dinheiro do Mundo.

De novo rolou encontros entre celebridades e meros mortais. Não é nada original, mas ao menos teve um upgrade interessante. Aliás, Kimmel já está na história como um dos melhores apresentadores da história do Oscar, mesmo não sendo um humorista brilhante. Aprendeu com os erros do ano passado, e foi muito profissional, sempre com o controle da situação e dando as alfinetadas em Matt Damon, algo que tanto amamos.

Diferente do Globo de Ouro, os protestos no Oscar soaram mais naturais e integradas à cerimônia e em função dos filmes indicados. O segmento ‘novas vozes’, dedicado à diversidade na indústria, defendia com argumentos sólidos como o sucesso comercial ou a possibilidade de ampliar o impacto dos filmes era algo positivo, permitindo que mulheres e artistas de todas as etnias possam plasmar suas histórias, no lugar de um cinema dominado pelo homem branco.

É hora de mudas as coisas. Filmes como Lady Bird, Me Chame Pelo Seu Nome ou Corra! (com Jordan Peele ganhando o Oscar pelo Roteiro Original) mostram esse momento de mudança. Donald Trump foi menos criticado nesse ano, mas lembrado pelo tal muro da discórdia. Coincidência ou não, o Oscar 2018 teve um forte sotaque mexicano.

Viva – A Vida É Uma Festa levou dois prêmios (Melhor Filme de Animação e Melhor Canção), e Guillermo del Toro triunfou como diretor e produtor de A Forma da Água. Vale lembrar que em quatro dos últimos cinco anos, o prêmio de Melhor Direção foi para um cineasta mexicano (Del Roro, Alfonso Cuarón e Alejandro G. Iñárritu em duas oportunidades).

A vitória do Chile por Uma Mulher Fantástica como Melhor Filme em Língua Estrangeira também merece destaque. E Daniela Vega também fez história por ser a primeira transsexual a apresentar uma categoria no Oscar.

E Frances McDormand, com o seu quase ‘drop the mic’ no seu discurso de agradecimento ao vencer o prêmio de Melhor Atriz por Três Anúncios Para um Crime?

Frances fez com que todas as mulheres ficassem de pé, e reclamou dos homens que só observavam sentados. E pediu: “inclusion rider”. Uma cláusula para garantir que Hollywood realmente vai deixar esses tempos sombrios para trás.

Do mais, a Netflix levou para casa o seu primeiro Oscar com o documentário Ícaro. James Ivory levou em Roteiro Adaptado por Me Chame Pelo Seu Nome, se transformando no premiado mais velho da história do Oscar (89 anos). Roger Deakins finalmente levou um Oscar depois de 13 derrotas, pela fotografia de Blade Runner 2049.

Foi um Oscar sem surpresas nas categorias de interpretação. Todos atores brancos, nenhum importado. Todos favoritos por semanas, o que deixa tudo muito justo e correto. Oldman, Janney e Rockwell finalmente receberam o primeiro Oscar em suas carreiras.

Os grandes derrotados?

Trama Fantasma, indicado em seis categorias e só levou o Oscar de Melhor Figurino (também… se perdesse esse seria um grande fiasco…). Dunkirk, com 8 indicações, levou três estatuetas nas categorias técnicas (dois de som e montagem). E Lady Bird, um dos filmes que lideravam a mudança em Hollywood com Greta Gerwig, indicada como roteirista e diretora, não levou nenhum prêmio.

O Oscar 2018 foi bem previsível, mas alcançou quatro importantes objetivos:

1) Se reivindicou a diversidade no cinema
2) Apoiou as vítimas dos escândalos sexuais
3) A premiação não ficou pesada por conta dos discursos relacionados ao dois primeiros itens
4) Não tivemos problemas com os envelopes

O melhor do cinema em 2017 foi premiado? Essa é outra questão, e bem discutível.

É inegável que A Forma da Água é um belo filme. Impecável. Porém, inofensivo. Conta uma história de amor entre dois seres diferentes que, no final, se revelam iguais justamente pelas diferenças apresentadas.

Porém, como em 2017 venceu Moonlight: Sob a Luz do Luar, que já era uma história de difícil assimilação, os membros da Academia dificilmente premiariam Três Anúncios Para Um Crime, que tem uma história no mínimo tão difícil quanto. E não podemos pedir histórias sobre riscos e valentia levando prêmios todos os anos.

E assim foi o Oscar 2018. Para o bem, e para o mal.