Eu não assisto uma novela do começo ao fim desde Avenida Brasil (2012). Porém, naquele momento, eu percebia que a teledramaturgia da Rede Globo estava entrando em uma nova fase. Era a primeira produção que eu vi com estética e formato mais próximos de uma série de TV, com um tratamento diferenciado. E foi por isso que eu fiquei naquela novela.

Eu pouco escrevi sobre novelas no SpinOff.com.br, porque o tema nunca foi o foco do blog. E confesso que eu não acompanhei a maior parte da trama de O Outro Lado do Paraíso. O que sabia era o que as próprias pessoas comentavam nas redes sociais. Mas o pouco que vi me agradou.

E o capítulo final fez com que eu me arrependesse de não ter acompanhado essa história.

“Tudo o que você faz, um dia volta pra você”. A frase da música tema de abertura se encaixou perfeitamente no plot principal da história, que não apenas fala da redenção de Clara, que foi trapaceada e injustiçada das formas mais perversas possíveis. A trama fala da lei do retorno, ou sobre como a nossa existência é feita de ciclos, altos e baixos, idas e voltas e, principalmente, destinos que se cruzam.

As subtramas foram bem trabalhadas (apesar de contar com uma solução utilizada várias vezes ao longo da novela e, mesmo assim, de forma oportuna dessa vez), mas essas histórias não teriam o mesmo impacto se não fossem seus personagens bem construídos e definidos, interpretados por atores espetaculares.

Personagens com elevada empatia com o público, com fácil identificação de suas aspirações. Aliás, uma novela onde as mulheres assumem o protagonismo de forma singular, como poucas vezes vimos na história da telenovela brasileira. E interpretadas por atrizes que, em alguns casos, viveram os personagens de suas vidas. Falo mais especificamente nos casos de Marieta Severo, Laura Cardoso e Fernanda Montenegro.

O Outro Lado do Paraíso caiu sim no lugar comum em mostrar a ruína de uma vilã que teve um final até previsível, considerando o seu perfil psicológico. Mas apresentando uma solução muito bem amarrada em uma linha de coerência que, dentro da proposta de sua vilã, se resolve muito bem: a vilã que caiu na única vez que agiu com o coração e não com a razão (ou com o desejo cego e premeditado de não perder o poder).

É uma novela que construiu uma linha narrativa eficiente, sólida e coerente. Não fugiu de suas convicções, mesmo alternando seu protagonismo de tempos em tempos, entregando visibilidade para outras personagens, enquanto que as tramas de heroína e vilã se desenvolviam em paralelo. No final, as pontas se unem para o ato derradeiro com uma eficiência que convence.

O Outro Lado do Paraíso tem como mérito acumulado lidar com temas que hoje estão presentes na nossa sociedade, e que precisam ser discutidos para que se encontre uma solução. Violência doméstica, violência contra a mulher, preconceito racial, preconceito de gênero, respeito às diferenças, leis de adoção, entre outros tópicos foram abordados sem rodeios, até o último capítulo.

Foi uma novela de uma qualidade técnica diferenciada. Fotografia com película que valoriza o cenário central do Brasil, que variava de acordo com o núcleo abordado naquela cena ou momento, uma edição que valorizou a imersão do espectador nos eventos, inclusive com closes de câmera nas faces dos personages e nos seus olhos (inclusive criando o efeito retrato em algumas situações, para aumentar essa imersão), várias cenas com longos takes, sem cortes, valorizando também a capacidade de interpretação (e, por que não, de improvisação) do ator, entre outras ferramentas são facilmente identificáveis nesse trabalho.

O resultado final? O Outro Lado do Paraíso vai ser lembrada por muito tempo pela audiência.

Não me atrevo a dizer que é uma das melhores novelas que a Rede Globo exibiu. Já disse, eu não assisti essa novela na maior parte do tempo. Porém, sem medo de errar, posso dizer que é um trabalho que merece ser aplaudido de pé. Poucos conteúdos televisivos conseguiram se comunicar tão bem com o público como esse, conversando diretamente com os anseios dessa audiência, e propondo discussões sobre temas do cotidiano que são pertinentes para os tempos atuais.

E, o mais importante: contando a sua história, apostando nas suas convicções, e entregando o final desejado. Fez valer a lei do retorno até o final. Isso é coerência narrativa, e é algo louvável dentro do mundo do entretenimento.

Quem sabe a Rede Globo aprendeu de vez a como contar as suas histórias no seu produto de maior audiência. O processo iniciado com Avenida Brasil em 2012 finalmente rende frutos consistentes.

Entramos em uma nova fase, de uma vez por todas. Felizmente.