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Era uma vez Anger Management, comédia do FX protagonizado pelo até então demitido/drogado/maluco/winning Charlie “Tiger Blood” Sheen. O FX apostava tanto nessa série, que fez uma “aposta” com Charlie: se a série obtivesse o devido sucesso nos dez primeiros episódios, o canal daria a encomenda de mais 90 episódios para a produção. Uma verdadeira loucura que, sabe-se lá Deus o motivo, foi cumprida, e já está em execução.

A aposta foi além. Se Anger Management alcançasse a tal encomenda de 90 episódios adicionais, o pai de Charlie, Martin Sheen (que é sempre bom lembrar, protagonizou a ultra consagrada The West Wing), entraria para a série como elenco fixo, sem questionar quais os rumos que a série tomaria ao longo das duas longas temporadas de 45 episódios cada. E isso aconteceu.

De qualquer forma, o tempo está passando, e mesmo com a “demissão” de Selma Blair do elenco da série (Charlie Sheen a demitiu da produção por “divergências criativas”), Anger Management segue lá, firme e forte, muitas vezes com dois episódios por sema. E, pelo visto, Charlie Sheen e o FX estão fazendo escola na TV norte-americana. Seja para chamar a atenção do público e de patrocinadores, ou sejam para forçar um aumento de qualidade nos roteiros, os canais de tv norte-americanos estão lidando com essa proposta de barganha para encomendas da série, na relação “10-90”.

Vou explicar:

– o projeto da série é enviado para o canal; o canal se interessa pelo projeto, e o aprova para dez episódios
– no lugar de oferecer uma renovação temporada após temporada (de 18 a 24 episódios cada), o canal “incentiva” os roteiristas e produtores, oferecendo uma renovação de 90 episódios, caso os dez primeiros alcancem o objetivo proposto pelo canal
– se tudo der errado, a série e cancelada, e não se fala mais nisso
– se tudo der certo, a encomenda de 90 episódios é feita, e sabe lá Deus o que a série vai virar depois

A ideia é ótima para os canais, que podem economizar alguma grana, prevendo um orçamento menor para um número maior de episódios. Porém, pode ser um problema a longo prazo: se a série cai de qualidade, quem tem que pagar a conta depois é o próprio canal. Aliás, vale lembrar que encomendar 90 episódios não quer dizer que todos serão exibidos. Mas em caso de cancelamento prematuro, as multas ficam por conta dos próprios canais.

O próprio caso de Anger Management é um bom exemplo do quão pode ser desastrosa essa estratégia. Na sua estreia, a comédia de Charlie Sheen como terapeuta de controle da raiva teve mais de cinco milhões de espectadores (é a maior audiência de todos os tempos para uma comédia na TV paga dos EUA). Hoje, a série tem uma audiência média inferior a 1 milhão de pobres coitados.

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Como disse antes, parece que Charlie Sheen e o FX fizeram escola entre os canais norte-americanos. A NBC repete a mesma estratégia do “10-90” com Roseanne Barr e o seu novo projeto de sitcom para o canal do pavão. Você até pode não conhecer essa senhora, mas nas décadas de 1980 e 1990, ela fez um sucesso absurdo com sua comédia Roseanne, e ao lado de John Goodman, protagonizou uma das comédias mais populares de todos os tempos.

Roseanne Barr está próxima de fechar um acordo com a NBC nos mesmos moldes de Anger Management. E esse não é um caso isolado. As duas novas comédias do FX (uma com George Lopez, e outra, com Martin Lawrence e Kelsey Grammer) usam a mesma tática do “10-90”. Como não sei do que se tratam os novos projetos, não dá nem para especular se serão sucessos ou fracassos de público e crítica. Mas subentende-se que precisam ser ideias no mínimo acima da média para os canais apostarem tão alto assim.

Entendo que a tendência é arriscada. Por outro lado, será divertido no futuro ver o que os canais vão fazer se essas séries não derem certo. Se tudo funcionar, podemos estar diante de uma nova fórmula de encomendas de séries de TV. Se tudo falhar, teremos vários episódios de uma série fracassada ofertados pela internet. Afinal de contas, sempre vai ter alguém que vai se divertir com série de gosto duvidoso, não é mesmo?