A maioria dos shows de talentos da atualidade tem em comum o fato do talento não se apresentar como algo mágico e espontâneo, mas sim algo que brota como uma flor na alma dos concorrentes. Mas, como todo mundo sabe (ou deveria saber), o talento não funciona assim.

Talento exige aprendizagem, esforço, constância e erros. Muitos erros. Muitíssimos. É preciso tentar muitas e muitas vezes antes de chegar a um ponto considerado excelente. E o talento consiste em se esquivar dos erros. Por isso, Nailed It! pode soar como algo brutalmente subversivo.

O reality de seis episódios de 30 minutos da Netflix manda o recado claro que o talento pode aparecer depois do desastre. E nada mais humano que celebrar o desastre como passos até o sucesso.

Em Nailed It!, que é baseado no meme da internet onde as pessoas exibem desastres na cozinha, vemos o apocalipse aparecer em forma de muffins sem consistência, massas instáveis, quantidades de corante insalubres e toneladas de autocrítica.

 

 

Cada programa apresentado pela comediante Nicole Byer é uma revelação, pois seu brutal sentido da comédia física e sua capacidade de responder de forma rápida são mais próximas de um desenho animado atual. O pasteleiro Jacques Torres e um juiz convidado especializado na confeitaria analisam o trabalho de três concorrentes, que precisam copiar bolos de primeira categoria.

Os resultados são horríveis porque os três concorrentes contam com conhecimentos de cozinha muito limitados, mas que compensam isso com o entusiasmo vital e absolutamente infeccioso. E as motivações são as mais próximas de todos, como cozinhar melhor para ser uma mãe melhor, ou montar um negócio de bolos, mas que só falta a parte de aprender a fazer bolos.

O entusiasmo contagia o programa. O ritmo é febril, como são os desastres na cozinha: um microondas que quase explode, ingredientes inusitados, concorrentes que se negam a seguir as receitas pois obedecem apenas as próprias regas… e tudo isso lembra mais o Jackass com candidatos que acreditam que são cozinheiros.

 

 

E tudo isso tem como adereço os comentários sarcásticos de Nicole e os demais jurados, que sempre passam a preocupação pela integridade físicas dos presentes. Pese ao fato deles rirem na cara dos concorrentes de dos seus pratos, em nenhum momento essa humilhação recria a experiência de um MasterChef.

Nailed It! não se leva a sério, e toda a experiência culmina em uma selfie, seguindo a regra clássica do “uma imagem vale mais do que mil palavras, mas sim as risas que ela produz… isso não tem preço”.

Além de toda a diversão quase infantil e contagiosa, a celebração do feio, do erro e dos desastres se convertem em algo valioso. Os bolos que saem dos fornos de Nailed It! não são apenas comestíveis, mas discretamente apetitosos, mesmo parecendo bolos mutante.

Nailed It! celebra o fato que o mais importante é o cozinhar, e as demais coisas necessárias para isso vão chegando com o passar do tempo. E, se isso não vier, nada de grave acontecerá. É uma lição muito valiosa, escondida em algum canto na Netflix, transpirando mais humanidade do que muitas temporadas de realitys musicais muito populares.