O meu amigo… Erasmo Carlos!

Minha Fama de Mau é o melhor fan service nacional que você pode ver em 2019 até agora. Faz uma revisão da trajetória de Erasmo Carlos naquele que ele mesmo considera como o trecho mais importante de sua vida: do início de suas aspirações até o reencontro com a sua alma musical e com Roberto Carlos, o seu grande parceiro de composição e de trajetória de vida.

O filme é baseado na biografia assinada pelo próprio Erasmo Carlos. Apesar de muitas pessoas serem contrárias às biografias oficiais e assinadas pelas próprias celebridades, eu entendo que nesse caso, apesar de toda a romantização aplicada para deixar o filme mais leve e acessível para o grande público, o resultado final do trabalho de Lui Farias na direção é de um cuidado e respeito ao extremo, o que fez um bem danado à história apresentada na tela.

Levando tudo isso em consideração, Minha Fama de Mau mostra a trajetória de Erasmo, um rapaz sonhador, que queria fazer música e viver de música. Mas só aprendeu os três acordes que mudaram a sua vida com a ajuda de Tim Maia, e suas composições eram na prática versões das músicas que ele ouvia lá fora. O longa mostra que a trajetória de ascensão do cantor e compositor não foi das mais fáceis, ouvindo o NÃO por diversas vezes, e vindo de Carlos Imperial até a imprensa, que preferia a Bossa Nova.

Sem falar no NÃO de Elis Regina, que achava a Jovem Guarda um barulho desnecessário.

Minha Fama de Mau é um filme excelente dentro da sua proposta, e considerando os pontos de decisão criativa que eu já abordei nesse texto. Me arrisco a dizer que é mais honesto do que Bohemian Rhapsody (pelo amor de Deus, eu estou colocando cada conteúdo dentro das suas respectivas proporções; não é uma comparação direta) no que se refere a assumir uma escolha em como vai contar a sua história e apresentar o seu protagonista. Bom, bem sabemos que não foram contados todos os pontos polêmicos da vida de Erasmo Carlos e, repito, bem sabemos em como essa narrativa foi romantizada.

Mas em nenhum momento fica aquela impressão que tentam construir uma imagem de um protagonista que não é verossímil para o grande público. Uma das vantagens de Erasmo Carlos assumir a narrativa da própria história de vida (uma vez que o filme é baseado em uma biografia que ele mesmo assinou) é que ele mesmo assume as suas fraquezas e o grande erro da vida dele: não saber quando abandonar a Jovem Guarda, uma vez que ele foi considerado o principal expoente do movimento, que para ele era um sonho… que ele não imaginou que um dia poderia acabar.

 

 

Outro ponto muito positivo que Minha Fama de Mau faz é a correção da narrativa com as pessoas mais próximas de Erasmo Carlos nesse período. A forma como Roberto Carlos e Wanderléa são apresentados foi muito humana e respeitosa, demonstrando claramente que o vínculo deles era muito forte. Além disso, elementos novos como o comportamento de Carlos Imperial também foi algo muito bem vindo para a estrutura narrativa do filme.

Minha Fama de Mau é um filme bem produzido. Usa uma ambientação bem ajustada, além de referências diretas da década de 1960, reforçando a ideia de filme fan service que é basicamente o motivo da existência dessa história. OK, eu estou sendo injusto: acho que Erasmo Carlos merecia essa homenagem, pois sua história certamente é tão interessante ao do seu parceiro de trajetória musical e de vida.

Um destaque especial para Chay Suede, que não fez força para imitar Erasmo Carlos, mas desenvolveu alguns trejeitos que lembram o cantor. Principalmente a sua assinatura vocal, onde os mais atentos vão perceber e pensar “é, o Erasmo canta mais ou menos desse jeito…”. Sem falar no carisma do ator, que foi fundamental para criar uma empatia com o seu personagem.

Minha Fama de Mau é um ótimo filme, porque é um filme honesto. Conta a sua história de forma muito humana e aberta, mostra as fraquezas do protagonista e o seu reencontro com a sua essência. É o tipo de filme que aquele que viveu aquela época precisa assistir de qualquer maneira, e as novas gerações devem ir ao cinema com essa turma, não só para aprender um pouco mais sobre a história da nossa música, mas também para agradecer pelos serviços que eles prestaram.

Pode ir ao cinema sem medo. Sua avó vai adorar. E você também.