Dez anos depois, e temos Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo!. Normalmente eu me empolgaria com a continuação de um dos filmes mais legais que vi em toda a minha vida. Porém, como a regra histórica diz que as continuações de musicais são problemáticas, eu segurei a empolgação.

Empolgação que desapareceu, depois que que um detalhe do enredo foi anunciado: a morte de Donna (Meryl Streep).

Desnecessário, meu povo!

Porém, eu compreendo o que eles tentaram fazer.

Para começar, eles tentaram devolver o protagonismo da narrativa para Sophie (Amanda Seyfred), algo já planejado para o primeiro filme mas, convenhamos… quem pode competir com o carisma de Meryl Streep? Pois bem, isso foi feito… na teoria. Ninguém contava com o fato que Lily James, atriz que interpretou a versão mais jovem de Donna, iria roubar a cena, incorporando a essência do personagem, tanto nas interpretações como até nos trejeitos, que seriam efetivamente adotados por Meryl Streep na composição do personagem.

Aliás, um dos méritos de Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo! foi trazer atrizes para as versões jovens do trio das Dínamos com uma semelhança física e comportamental muito próximas de suas versões mais velhas (Streep, Julie Walters e Christine Baranski, representadas por James, Alexa Davies e Jessica Keenan). Esse trabalho de casting e preparação de elenco é visível, e coloco este como um dos pontos positivos do filme.

Por outro lado, sou obrigado a lembrar que toda a história de Donna ao chegar na ilha grega e os eventos que narraram como ela conheceu os três pais de Sophie foi contada pela própria Sophie em uma cena do primeiro filme. Tudo foi resolvido em cinco minutos, e sempre considerei desnecessária essa narrativa reprisada em detalhes. Por mais que Donna se mostre uma mulher à frente do seu tempo (o que é ótimo), sua história é presumidamente conhecida o suficiente para ser considerada chata.

 

 

É claro que eu entendo (de novo) o que o roteiro tenta entregar: o paralelo entre as vidas de Donna e Sophie, e como essas vidas estão conectadas em situações diferentes. A vida de Donna, que enfrentou tudo praticamente sozinha e sem ajuda, serve de estímulo para Sophie não desistir, já que conta com a ajuda de muita gente, e já está muito além do que a mãe estava quando ficou grávida.

Mas tudo isso poderia ser contado de outra forma. Mostrando uma dinâmica onde o efetivo “transferir o legado” acontecesse naturalmente, até mesmo inventando a desculpa de Donna deixar a ilha para viver uma nova vida com o então marido, Sam (Pierce Brosnan), que ficou efetivamente viúvo e conformado.

Qualquer coisa servia. Menos a morte de Donna.

Talvez essa morte serviu para entregar a ótima cena final de um filme que tem dificuldades em terminar, já que precisa resolver a vida de praticamente todos os personagens, e de forma bem preguiçosa e displicente. Algumas soluções são absurdamente desleixadas, como o encontro da avó de Sophie, Ruby (Cher) com o gerente do hotel de Sophie, FERNANDO (Andy Garcia) – e aqui, vocês já sabem qual foi a música que rolou.

É claro que Meryl Streep dá as caras no filme, e como tinha que ser. Na cena final, concluindo o ciclo da vida que a premissa do filme propõe. É um alento, porque é a melhor cena do filme: as atrizes corretas, na cena correta, na música perfeita, e com toda a carga emocional que a situação pede. Uma água bem gelada no meio do deserto de um roteiro didático e previsível.

 

 

Não me entendam mal. Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo! é um filme ‘legal’, e nada mais. Não tem o fator surpresa do primeiro filme (até hoje ninguém sabe quem é o pai biológico de Sophie, mas ninguém se importa mais com isso), não tem o discurso positivo de ter uma terceira idade ousada e sexualmente ativa (apenas pequenos toques, mas totalmente deslocados), e perde parte da sua empatia quando tenta se conectar com um público mais jovem com um elenco mais jovem e desconhecido, e sem poder utilizar as músicas mais populares do ABBA para convencer o público.

É um grande mérito do longa utilizar canções mais desconhecidas do ABBA, ou com menor expressão comercial. Por outro lado, os fãs do grupo certamente vão gostar de ouvir Waterloo, Fernando e, de novo, Mamma Mia e Dancing Queen, com outros contextos dentro das situações apresentadas. Uma prova do beco sem saída que os roteiristas estavam foi justamente reprisar Dancing Queen com uma grande cena de dança em grupo (com algumas piadas pontuais e bem sacadas).

Se por um lado o filme peca com um roteiro sem carisma e coerência em alguns momentos, o mesmo filme ganha em uma maior maturidade em produção, com cenas musicais melhor produzidas e com maior complexidade. Os arranjos musicais mantiveram a qualidade do primeiro filme, pois foram supervisionadas e aprovadas por Benny Andersson e Björn Ulvaeus.

Mas… é uma pena… o elenco maduro poderia ser melhor aproveitado, recebendo melhores soluções de suas tramas. Salvou para a história do passado de Donna pelo menos um evento que se conecta com o presente que, por outro lado, quase cai “do nada”, pois todo mundo aparece na festa de reinauguração do hotel pela força da telepatia, especialmente em função das dificuldades que Sophie viveu antes da reinauguração (todo mundo ficou sabendo da crise por telepatia?).

 

 

Enfim, Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo! é um filme que diverte para aqueles que simplesmente querem assistir a um musical de boa qualidade. Não é um filme ruim, mas fica muito abaixo do primeiro filme. Com certeza não será indicado ao Oscar 2019 de Melhor Filme, pois não tem a mesma química e carisma da primeira entrega. Mas pode ser um agradável programa de final de semana para os fãs do ABBA.

De qualquer forma, reforço o meu registro: Donna não precisava morrer. E Meryl Streep não pode morrer jamais!