Louis C.K.

Nesse momento, eu me sinto muito a vontade para escrever esse texto. Eu nunca tive medo de dizer, com todas as letras, que sempre achei Louis C.K. um lixo como comediante, e um cara bem escroto.

Porém, lamento pelo tempo ter me mostrado que ele era bem pior do que eu imaginava.

Louis C.K. está acabado. HBO, Netflix, FX, TBS, Universal e a distribuidora do seu último filme, “I Love You, Daddy”, cortaram todas as relações com o “comediante”. O corte é tão definitivo, que qualquer coisa que ele aparece foi retirado do catálogo da HBO.

Louis C.K. deve pagar pelo o que fez. Suas palavras de arrependimento é o passo óbvio que ele deve dar nesse momento, mostrando o mínimo de consciência sobre a cagada que fez com a própria carreira. Pode até se redimir um dia, já que todo mundo merece uma segunda chance na vida.

Porém, o que mais me dá raiva em Louis C.K. é que ele mostrou para todo mundo o seu pior lado em Louie, e muita gente aplaudiu isso!

No episódio S02E08 (Come On, God), mostra uma das chaves do humor de Louis C.K. que sempre achei babaca. Agora, eu acho escroto porque era parte de sua personalidade doente. E muita gente pagou de inteligente aplaudindo essa bosta.

Afinal de contas, já era um personagem desagradável, que gostava de fazer piadas com aquilo que incomodava as pessoas. E piadas envolvendo Louis C.K., masturbação e pedofilia não serão mais vistas da mesma forma, sabendo do fundo de verdade dessa brincadeiras.

Louis C.K. foi vítima dele mesmo. Afinal de contas, Louie era escrita, dirigida e protagonizada por ele. Era uma obra autoral, apesar de ser uma série de ficção. Ali, ele abordou suas inquietudes, desejos e temas favoritos, usando a série como sua terapia pessoal. Incluindo é claro a sua relação com o sexo feminino.

Mas o que torna repugnante é que a piada mostrada por C.K. na série nada mais é do que a representação do que ele pensa (e age) no mundo real…

…que, no fundo, a vítima estava pedindo por isso.

Isso fica evidente em S04E10 (Pamela: Part 1).

 

 

O episódio começa até romântico, com cenas sobre o amor, um monólogo de conteúdo feminista, piadas com a democracia norte-americana (que impediam a mulher de votar na década de 1920) e questionamentos como “se Deus é um homem e nosso pai, onde está nossa mãe?”.

Tudo isso preparava para uma cena explícita de assédio sexual, surpreendentemente justificada pelo próprio Louis C.K.

No final do episodio, Louie chega em casa e encontra Pamela (Pamela Adlon) deitada em seu sofá, que se ofereceu de babá para as filhas dele enquanto ele trabalhava. E ela diz:

“Por favor, não comece a se masturbar. Estou acordada.”

Louie decide ir para cima de Pamela, agarrando e tentando beijá-la. Ela se recusa ao ato, e ele tenta arrastá-la ao quarto. Ela escapa e grita: “Isso seria um assédio se você não fosse tão estúpido, Deus, você não serve nem para estuprar alguém direito!”.

Pamela chega na porta de saída, mas Louie a alcança. Ele disse que sabe que ela está interessada e, apesar da resistência de Pamela, Louie consegue um beijo na boca, e a deixa ir.

Louie comemora. Conseguiu se impor.

Entendeu? Ou vou ter que desenhar?

O pior de tudo é que Louis C.K., além de ser um escroto machista misógino, consegue transformar a ficção em algo absurdo (é claro, já que a série é dele e ele faz com ela o que ela quiser): essa clara cena de assédio sexual resulta no início de uma relação sentimental entre Louie e Pamela.

Ou seja, C.K. RECOMPENSOU o seu personagem, deixando claro que Pamela queria transar com Louie, mas que não se atrevia a dar o passo, e que precisava ser forçada e humilhada para entender isso.

Duvido que na vida real Louis C.K. tenha realmente conseguido conquistar uma mulher violando a liberdade dela e se masturbando diante dela. Mas como é a ficção e a série é dele…

Para encerrar, eu peço encarecidamente aos fãs de Louis C.K. e de Louie que, antes de virem me xingar nos comentários (ou xingar a minha mãe, que não tem nada a ver com tudo isso), que façam uma profunda reflexão sobre tudo o que aconteceu nos últimos dias.

Vocês podem até querer pensar que “é apenas uma série de ficção, foi só uma piada, que o criador era melhor que o personagem” e todas as desculpas esfarrapadas para defender C.K. Eu entendo tudo isso.

Mas nesse caso, nenhuma defesa nesse mundo salva um réu confesso. A série era sim um reflexo muito fiel da realidade desse “comediante”. Mais fiel do que vocês desejavam.

E o que é pior: vocês passaram anos aplaudindo e enaltecendo isso.

Diferente de Rafinha Bastos, que vocês amaldiçoaram por causa de uma piada com bebê, Louis C.K. foi pego em um crime muito grave. Até onde me consta, Rafinha Bastos nunca foi pego transando com um bebê. Logo, o que ele fez foi apenas uma piada infeliz, e não a retratação de um comportamento doentio.

Louis C.K. foi descoberto. E confessou o crime.

A verdade veio à luz, e mais uma vez, superou a ficção.

Fim.