Liga da Justiça

Acabo de sair da estreia nacional de Liga da Justiça, e procuro organizar as minhas ideias para ser o mais justo possível com um filme que gerou muita expectativa nos fãs, ao mesmo tempo que gerou muito medo nos executivos da Warner/DC. Afinal, a conta final é de US$ 300 milhões. Logo, esse filme tinha que dar certo de qualquer maneira.

Mas, deixando os números e o mundo frio dos executivos de Hollywood de lado, Liga da Justiça mostra os heróis em ação para proteger a Terra de uma mega ameaça alienígena. OK, já vimos isso antes algumas vezes (e vamos ver de novo nos próximos anos outras tantas), mas era interessante ver qual era a proposta da Warner para a sua aposta mais arriscada nos cinemas desde Homem de Aço.

A primeira coisa que você precisa ter em mente antes de assistir à Liga da Justiça é: abrace a causa.

Não é um filme complicado na sua concepção e ideia geral. Ele é um filme bem resolvido nesse aspecto, indo direto ao ponto e sem explicações mirabolantes para coisas que devem ser simples de serem resolvidas e explicadas.

E, nesse ponto, temos (talvez) o grande problema do filme: a sua corrida contra o relógio.

 

 

Duas horas são insuficientes. É curioso como esse filme poderia ter pelo menos 20 minutos a mais, que ele não iria cansar. Ao mesmo tempo, esse tempo adicional resultaria em uma narrativa menos apressada e melhor detalhada. São três novos personagens principais que são apresentados, e com a complicada missão de gerar empatia (quase) instantânea com o público, já que esses personagens receberão filmes próprios no futuro.

O risco aqui foi enorme. Por mais que muita gente conheça o Flash, o Aquaman nem de longe é um dos personagens mais populares da DC, e Cyborg é um completo desconhecido. E todos contam com plots bem interessantes para apresentar suas origens no cinema.

Ok… eu sei que o próximo filme da franquia é Aquaman, mas ele poderia muito bem vir antes de Liga da Justiça, para aumentar a empatia do público com o personagem.

O mesmo se aplica ao retorno de Superman.

Nem questiono a solução adotada para trazer o personagem de volta porque, dentro da proposta geral apresentada, é a mais crível e coerente possível. Também não questiono os eventos seguintes a esse retorno. Mesmo porque esse é um dos melhores momentos do filme, se não for a minha cena preferida.

Mas o pouco tempo não permitiu que se explorasse melhor as motivações de Clark Kent em voltar a viver e defender a Terra. A transição dele do mundo dos mortos para o mundo dos vivos novamente é muito rápida (algo que ate se explica pelo senso de urgência de todos), e esse é um ponto que o filme poderia oferecer elementos que conquistassem o público de vez, preparando para um final de filme empolgante.

Porém, o mais surpreendente de tudo isso é que, apesar de entregar um filme com uma narrativa apressada, temos aqui um filme que se resolve pela força dos personagens, a química dos membros da equipe de heróis, e os diversos traços de humanidade que todos os protagonistas oferecem ao longo da trama.

Mais uma vez, temos histórias que mostram as fraquezas de cada um desses heróis. Medo, revolta, falta de confiança em si, traumas do passado… todos esses são elementos que enfatizam o traço de humanidade que cada um deles traz. E isso torna a conexão pessoal do espectador com o filme algo ainda mais envolvente.

 

 

Por exemplo: Bruce Wayne finalmente admite que Clark Kent, mesmo sendo um alienígena, é mais humano que ele. Esse é um claro sinal de evolução psicológica do personagem, que começa a se entender. Por outro lado, o desejo insistente dele em ter o Superman de volta não está apenas na necessidade urgente de derrotar Steppenwolf, mas também é uma manifestação da culpa que ele sente pela morte do kryptoniano.

O mesmo acontece com Diana/Mulher Maravilha, que sente a culpa por abandonar o grupo das Amazonas, de não conseguir salvar o seu amado Steve, e por não ter voz de liderança. Já The Flash sente a culpa por ter o pai na cadeia. Cyborg, o medo de não saber direito quem ele é, e não conseguir controlar os seus poderes.

Isso tudo torna o filme bem interessante, e afeta diretamente na narrativa da história. Cada um deles tem motivações pessoais para enfrentar a ameaça alienígena, e entendem que a única forma viável de resolver o problema é unindo suas forças e habilidades.

Uma coisa MUITO importante nesse filme: ele GRAÇAS AO BOM DEUS não tenta ser um filme da Marvel, o que acho uma excelente noticia.

Uma das coisas que me preocupa na Warner é o seu desejo em querer que todos os filmes dos heróis da DC acabem soando como algo parecido com Os Vingadores, por exemplo. Tentaram fazer isso em Esquadrão Suicida, e o resultado foi um grande desastre. Logo, os temores em relação à Liga da Justiça eram mais que justificados.

Mas a boa notícia é que o filme entrega a sua proposta, que é indiscutivelmente mais leve e “solar” que Batman vs Superman (e isso, literalmente: é um filme visualmente mais claro e vistoso), com os seus toques de humor que são bem pontuais (apesar de Barry Allen ser um alívio cômico que quase irrita com o passar do tempo), mas mantendo a sua identidade DC.

O senso de urgência desses caras é maior. A seriedade, que sempre foi algo mais presente nas histórias da DC, se faz presente nesse filme. O que não quer dizer que não se pode rir de algumas peculiaridades que acontecem ao longo da trama. Esse bom humor também representa um dos traços de humanidade desses personagens, o que acho algo muito positivo para esse filme. Precisava, de verdade, de um equilíbrio entre a narrativa séria e a bem humorada, e entendo que o filme consegue isso.

 

 

Na parte técnica, Liga da Justiça vai bem, apesar de não gostar muito do CGI utilizado em seus filmes. O elenco funciona bem junto, pois tem liga (sem trocadilhos) e química para vender bem a ideia de que eles são mesmo um time de heróis, com motivações e personalidades completamente diferentes, mas que trabalham bem juntos. O vilão também funciona muito bem, e até mesmo o seu “sumiço” em determinada parte do filme se explica por um detalhe na narrativa bem pequeno, mas que dessa vez explica esse “desaparecimento”.

Liga da Justiça é um filme que funciona. Ele entrega o que me promete ao longo de duas horas de trama. Tem um objetivo bem claro na história que quer contar, e efetivamente conta essa história, sem maiores problemas. É um filme que diverte, não por te fazer rir, mas por ser uma diversão que pede o mínimo de coerência.

É um filme de Zack Snyder que tem história, e que não aposta só nas cenas apocalípticas e de destruição para se garantir. Há referências aos quadrinhos, referências à cultura pop e alguns dos clichês que estamos acostumados a ver em filmes desse gênero.

Mas é um filme que funciona. Isso é o mais importante.

Não é o melhor filme de 2017, nem mesmo é um filme espetacular. Mas é um bom filme, e era o que eu queria e esperava. Ou no mínimo algo melhor que Batman vs Superman, o que, convenhamos, não é uma das missões mais difíceis.

Vai sem medo. É diversão garantida.

E fique no cinema até o final, pois temos duas cenas pós créditos a se apreciar.