Agora que eu vi com os meus próprios olhos…

Vou repetir o que disse em um post anterior: não vou defender ou sentenciar quem quer que seja. Eu tenho a minha impressão sobre os relatos e os fatos, e o documentário Leaving Neverland não mudou o que eu penso sobre Michael Jackson. Não altera o fato que eu ainda considero ele o maior artista pop de todos os tempos, nem o fato que eu não tenho dúvidas de que algo muito errado rolou em Neverland.

Mas existem algumas áreas bem cinzentas nessa história.

Leaving Neverland é centrado nos relatos de (hoje) dois homens adultos, Wade Robson e James Safechuck. Na época dos acontecimentos, eles eram crianças. E na época dos acontecimentos, eles negaram todas as supostas acusações de assédio. Ambos defenderam Michael Jackson na Justiça em pelo menos uma oportunidade. Em comum entre os dois, os relatos em detalhes (com descrições gráficas) sobre as atitudes sexuais do cantor com os dois, como isso afetou as suas vidas e relações interpessoais, e traça um paralelo com os principais acontecimentos da época, recuperando as duas acusações formais contra Michael Jackson, a sua morte e o momento em que os dois decidiram abrir o jogo para a família e para o mundo.

 

 

Eu não tenho qualquer tipo de problema em lidar com os fatos e afirmar que Michael Jackson tinha um comportamento que o qualifica como um pedófilo. Talvez eu não tenha elementos para provar isso e, por uma mera formalidade jornalística, eu não afirmo que ele praticava a pedofilia. Talvez esse seja o delicado ponto onde eu devo dizer que cada um deve tirar as suas próprias conclusões. E eu não quero ser leniente em defender ou acusar quem quer que seja. Eu tenho as minhas convicções. Nada mais.

Porém, alguns detalhes que Leaving Neverland apresentam deixam áreas cinzas enormes, que levantam dúvidas sobre o real objetivo do documentário.

Eu quero agora me centrar nos dois protagonistas do projeto.

 

 

James Safechuck é alguém que claramente tem a alma quebrada, com reações mais emocionais e até manifestações físicas que demonstram a sua dificuldade em lidar com o assunto. A sua narrativa é mais dramática, e até as reações de sua familiar mais próxima (sua mãe) são mais espontâneas de todos os fatos apresentados. Mesmo o material em vídeo (com certeza arquivos da própria família) é mais rico e dedutível, reforçando a autenticidade da história e os danos internos que James teve com toda a experiência. O fato de não testemunhar a favor de Jackson na segunda acusação reforça a minha teoria que, para James, os danos foram bem sérios.

O discurso de James e de sua mãe são bem críveis. Especialmente quando a mãe diz que comemorou a morte de Michael Jackson, agradecendo a Deus “por ele não poder machucar mais ninguém” (palavras dela). É claro que esta não é uma fala exatamente cristã, mas é o esperado de uma mãe que toma conhecimento de tudo o que aquele que era considerado o melhor amigo do seu filho estava fazendo com ele.

Ja Wade Robson apresenta um cenário bem diferente. Ele sempre demonstra uma certa raiva incontida pelo fato de não ser mais o favorito de Michael Jackson, e guardou tal sentimento por muito tempo. Eu posso até acreditar que Wade tem uma força mental absurda, já que depois de ser molestado sexualmente pelo astro pop por sete anos e sofrer uma desilusão afetiva (derivada do fato de ser dispensado por Michael), ainda deu a volta por cima e foi o coreógrafo de grandes astros como o ‘NSYNC e Britney Spears. Sem falar que, nesse meio tempo, ainda teve tempo de ser o pivô do fim de relacionamento entre Justin Timberlake e Britney Spears.

A impressão que fica é que Wade não sentiu danos emocionais pela experiência, e que a confissão só agora passa mais a ideia de justificar a destruição da própria família ou outros interesses que não são declarados ou ficam explicitados em um primeiro momento do que necessariamente utilizar a sua experiência como um momento de passagem da sua vida. Ele até se coloca como alguém que está disposto a ajudar aquelas pessoas que passaram por abuso sexual. Algo louvável, por sinal.

 

 

Mesmo assim, o discurso e as intenções de Wade levantam dúvidas. Afinal de contas, ele mentiu em julgamento por duas vezes (só por isso ele não deveria ser preso?), sendo que uma vez quando já era adulto. E dizer a verdade anos depois do acusado estar morto (e sem a chance de se responder ou se defender das acusações) é uma posição bem cômoda.

Ainda mais para alguém que vai ganhar uma grana com os direitos de imagem e participação dos lucros da HBO.

Leaving Neverland não chega a ser surpreendente para quem acompanhou as investigações de 1993 e 2006, como foi o meu caso. Todas as histórias eram conhecidas, e os resultados também. O que talvez chama a atenção é a descrição gráfica das atitudes sexuais que Michael Jackson teria praticado com as vítimas, e por isso o documentário acaba com um teor mais pesado. Mas em nenhum momento eu fiquei em choque com o que eu vi e ouvi. Aliás, o documentário não exibe cenas fortes, apenas a narrativa dos dois que é mais pesada mesmo.

 

 

O documentário é um pacote bem fechado entre os dois envolvidos e suas respectivas famílias. Não foram coletadas outras opiniões ou pontos de vista, e o conteúdo é exclusivo sobre a visão e sentimentos de James e Wade. A decisão de fechar nesse pacote pode restringir a visão a ponto de apenas mostrar o lado mais errado de Michael Jackson, dando pouca margem para que os pais dessas (na época) crianças façam parte da culpa e da problemática da situação. Afinal de contas, por mais que Michael Jackson tem um espírito mais infantil, qual mãe em sã consciência deixa a criança dormir sozinha com um adulto que não é da sua família (e olha que mesmo quando dorme com um familiar ainda dá merda em alguns casos…)?

Leaving Neverland pode ser um documentário impactante para quem não viveu com um olhar mais crítico tudo o que aconteceu na época. Para quem não conhecia os detalhes de todas essas histórias. Para quem observou os fatos na época, as acusações de agora não surpreendem. E, sendo bem pessoal agora… para mim, não muda nada. A parte musical de Michael Jackson é intocável. Ele é um gênio. O melhor de todos. Já como pessoa física, a sua imagem afunda cada vez mais, com um comportamento que realmente é difícil de engolir e aceitar. Acho que cabe a cada um de nós separar as coisas para não cair em um erro de julgamento.

 

 

E o documentário em si é, para mim, apenas OK. Não tem nada de tão bombástico assim, e acho que só existe para destruir a imagem de alguém que já morreu. Nem mesmo para conscientizar sobre a importância das crianças em se abrirem ao diálogo em suas casas, e para reforçar aos adultos sobre a importância que é levar a sério as denúncias das crianças e suas mudanças de comportamento. Se o tom da narrativa fosse outro, o apelo para a importância de levar essa discussão da pedofilia adiante seria abraçado por muita gente.

Da forma como o documentário ficou, só querem bater em cachorro morto e nada mais.