João, O Maestro

João Carlos Martins. Músico. Exímio pianista. Maestro.

Um homem que viveu a música intensamente. Tinha na música um mundo só seu. Um mundo onde ele se encontrava. Um mundo onde ele tinha tudo e, ao mesmo tempo, perdia tudo. Vivia as vitórias e derrotas pessoais com toda a intensidade possível. A mesma intensidade que qualquer pessoa deveria ter para viver as suas vidas ditas “normais”, mas que não tem coragem. Já João encontrava na música toda a coragem que ele não tinha fora dela.

João, O Maestro é uma justa homenagem a um dos mais bem sucedidos músicos brasileiros, apesar de todas as batalhas que teve que enfrentar, com todas as dificuldades que ele enfrentou. Algumas dificuldades oferecidas pela vida. Já outras, criadas por ele mesmo.

Porém, diferente dos meros mortais, ele enfrentou a vida de frente. E venceu.

Mostrando desde os seus primeiros anos como pianista até a sua consolidação como maestro, o filme mostra os principais tópicos da vida profissional e pessoal de João Carlos Martins, e um ponto muito positivo de sua história é mostrar que nosso protagonista é, essencialmente, um ser humano, cheio de erros e acertos. É muito importante ver um filme que mostra que sua vida teve altos e baixo, e que João não teve uma vida limpa de erros. Até porque foram alguns desses erros o ajudaram a conduzir o maestro a um estágio superior.

Além disso, para aqueles olhares mais perspicazes, vai observar que a personalidade de João Carlos Martins não é tão diferente de outros grandes mestres da música. Quero dizer, uma pessoa introspectiva, com temperamento impulsivo, com dificuldade de se expressar para aqueles que não entendem a sua visão do mundo e, invariavelmente, sexualmente ativo, por assim dizer.

Esse ilustrar da personalidade do maestro é importante por dois motivos.

O primeiro é mostrar para o grande público que não conheceu os detalhes mais íntimos de sua história todos os conflitos internos que um artista à frente do seu tempo (como ele realmente é) acaba enfrentando. Tudo isso fez parte do seu processo de crescimento, muito mais no lado pessoal do que no lado técnico ou profissional.

O segundo motivo importante é mostrar os tais traços de humanidade que já citamos. Mostrar a todos que João não era perfeito. Cometia erros como qualquer um de nós pode cometer ou já cometeu um dia. E que ele se punia e se culpava por não atingir a excelência o tempo todo na música, que era a verdadeira vida dele.

Todos os problemas físicos e emocionais de João Carlos Martins interferiram decisivamente na sua carreira, na sua execução das músicas, mas principalmente, no seu interior. Não apenas a idade avançando, mas principalmente suas limitações o fizeram desacelerar na execução musical, e onde antes ele transmitia a emoção através de uma técnica apurada, passou a emocionar pela sensibilidade de linhas melódicas mais calmas e sentimentais. Uma música mais acessível ao coração da maioria das pessoas.

 

 

O filme faz uma justa revisão dessa história, sem ser piegas ou sentimental demais ao retratar todos esses desafios enfrentados por João. Na verdade, o filme quase mostra um protagonista mais frio e sem sentimentos do que ele realmente é. Porém, como o próprio maestro João Carlos Martins aprovou a forma que ele mesmo foi apresentado no filme, não sou eu que vou questionar o resultado final.

Talvez um dos problemas do filme (e dessa impressão fria que tive do protagonista) foi a escolha do elenco para interpretar João Carlos na infância e adolescência. Aqui, claramente entendemos que as escolhas foram em função da capacidade dos atores em tocar piano, e não em função de sua capacidade de interpretação. Mesmo Rodrigo Pandolfo, que interpretou o maestro na fase adulta não conseguiu passar traços de emoção ou sofrimento do protagonista. Já Alexandre Nero, que interpretou João na idade madura (e usou dublê em suas cenas de piano) foi quem mais se aproximou do que o verdadeiro maestro é na maneira de ser e personalidade. E, mesmo assim, perdeu muito da empatia do protagonista.

 

 

Mesmo assim, João, O Maestro é um bom filme para ser visto. Tecnicamente bem feito, com uma mixagem de som competente e relativamente imersiva (todas as obras executadas aproveitam o áudio da execução feita pelo próprio maestro), com o áudio trabalhando com planos diferentes e uma trilha sonora muito bem escolhida.

A parte técnica do filme é igualmente impecável, com uma ambientação crível e imersiva. Cenas de teatros plenos, reproduções gráficas de famosas salas de espetáculo de todo o planeta, e uma ambientação de cenários de cidades que ajudam a dar verossimilidade à narrativa.

O filme, apesar de ter quase duas horas de duração, não cansa. Ele tem uma narrativa eficiente, que prende o espectador para acompanhar os passos do maestro. Apesar da frieza em retratar o protagonista, ele é acessível, pois mostra situações que facilmente demonstram os objetivos dos envolvidos, além da identificação de momentos pitorescos do músico, típicos da época que ele viveu, ou que qualquer um de nós poderia ter vivido.

No final das contas, João, O Maestro é um bom filme para ser visto por plateias de todas as idades. Os mais velhos vão reconhecer a homenagem ao músico que tão bem interpretou obras em um tempo onde ser um músico de música clássica era ter um status de alta relevância na sociedade.

E os mais jovens poderão aprender com João Carlos Martins que todas as dificuldades que eles vão enfrentar em uma carreira musical (ou em qualquer carreira profissional que eles abraçarem) serão muito pouco ou quase nada diante do que esse homem enfrentou. E vão entender com facilidade uma das máximas mais relevantes para aqueles que consideramos vencedores e especiais…

O impossível é nada.