Quem nós somos? E onde queremos estar?

Sabe quando um filme surpreende por ser muito melhor do que você imagina? Então… agora, pegue um filme que surpreende e é absurdamente bem feito, com uma história cativante, profunda e empolgante. Pois bem, Ilha de Cachorros entregou muito mais do que eu esperava. É o tipo de filme que é edificante de tão bom, apresentando uma proposta de narrativa conceitual e, ao mesmo tempo, atraente.

Wes Anderson mandou muito bem em um filme cuja linguagem lembra uma clássica história japonesa. Algo proposital, especialmente quando em vários momentos nós não temos a tradução simultânea das falas dos personagens humanos, algo que passa a impressão prática que aqueles humanos são outro seres, mais insensíveis e despreparados em conceitos gerais.

Mais uma vez, temos um filme onde tudo é visto pela ótica infantil e infanto-juvenil. Aliás, esse é o grande público alvo de Ilha de Cachorros. Os discursos das diferentes tramas que a narrativa apresenta são claramente voltados para uma faixa etária que ainda está elaborando tais questões em suas mentes, mas que são almas cujo caráter e conceitos morais está em formação.

 

 

A forma em como Ilha de Cachorros consegue tratar temas fortes e relevantes (extermínio de animais, maus tratos de animais, preconceito, extermínio de animais, comportamento inadequado, etc) é algo simplesmente genial. Algumas falas são diretas, o que deixa o filme mais descomplicado nesse aspecto, uma vez que o recurso de flashbacks ajudam os protagonistas do filme a explicar ações e aspirações dos personagens.

Ilha de Cachorros é de uma sensibilidade ímpar. É muito fácil aceitar a premissa geral do filme e se importar com os personagens. E eu nem falo isso pensando no fato de serem cachorros. A estrutura narrativa desse filme é simplesmente excelente, e nesse fator, os resultados foram alcançados.

Estamos diante de um filme mais voltado para os adultos do que para as crianças. É uma história sensível, com matizes de profundidade, que emociona sem fazer força. As suas diversas tramas entregam lições que deixam você pensando depois do filme, o que é um sinal claro em sobre como essa proposta foi bem elaborada, e as mentes que conseguem perceber toda a sua estrutura de narrativa poderão desfrutar de um excelente filme.

 

 

Outro ponto muito positivo desse filme é a sua estética. Em uma proposta de animação mais “crua” (é um 3D que simula o stop motion ou elementos do mundo real), ela consegue ser imersiva e envolvente, ajudando nessa proposta de cativar o espectador. É um filme visualmente muito bonito e atraente.

Mas o melhor de Ilha de Cachorros está no fato de deixar para o público o recado claro sobre o quão é importante você não apenas preservar o cachorro, mas também em respeitar as diferenças, não julgar pelas aparências e ficar de olhos bem abertos com governantes pseudo democráticas que acabam impondo a sua ditadura de medo e opressão naquele que é diferente (ou que pensa diferente).

Ilha de Cachorros é um baita filme. Se Homem-Aranha no Aranhaverso tem alguma chance de perder o Oscar 2019 em Melhor Longa de Animação (na minha modesta opinião, a Marvel já venceu nessa categoria), esse é o filme que representa essas chances. É filme para você assistir com atenção e refletir sobre o resultado final, que é emocionante.