O filme “Sessão da Tarde” que você precisa ver.

Homem-Formiga e a Vespa ganhou importância depois dos eventos de Vingadores: Guerra Infinita. É mais que natural que muitas pessoas mais desavisadas sobre como funciona a sequência de filmes da Marvel Cinematic Universe esperavam por respostas sobre o que aconteceria depois do estalo de Thanos. Na prática, não é assim que funciona nesse filme, e isso é mais do que esperado. A Marvel já fez isso antes, e é algo que respeitamos, pois é uma lógica estrutural de narrativa mais que bem vinda e racional. Além de ser uma forma eficiente de segurar o público, atraindo para o próximo filme.

Mas isso não quer dizer que passos adiante não foram dados. Pelo contrário. Um dos elementos que podem efetivamente ser uma das soluções para Vingadores 4 foi destrinchada em detalhes nesse filme, sendo inclusive o verdadeiro protagonista desse longa: a dimensão quântica.

 

 

Homem-Formiga e a Vespa começa após os eventos de Capitão América: Guerra Civil, mostrando como Scott Lang sofreu as consequências de sua decisão infeliz de ajudar o Capitão América na batalha dos heróis na Alemanha. Apenas a cena pós-créditos do filme de Lang está diretamente relacionada com Vingadores: Guerra Infinita, e não entrega qualquer tipo de spoiler sobre uma possível solução para esse conflito. Pelo contrário: complicou ainda mais as coisas.

Vale lembrar que a Marvel fez o mesmo com Homem-Aranha: De Volta Ao Lar, no que se refere à localização da trama no espaço-tempo da MCU.

Mas um dos grandes trunfos de Homem-Formiga e a Vespa é efetivamente posicionar a dimensão quântica como um dos elementos essenciais para os eventos de Vingadores 4. Agora, é algo factível e inevitável. Toda a trama do filme tem como elemento comum esse elemento, e as motivações de todos os personagens giram em torno desse elemento, do começo ao fim. Afinal de contas, Hank Pym quer resgatar a esposa, Scott Lang sonha com Jane, a vilã Fantasma que quer utilizar a tecnologia de Hank para voltar ao normal, e uma grande corporação quer a tecnologia do túnel quântico para fazer dinheiro.

Ou seja, se você não sabia o que era a tal dimensão quântica, agora sabe, e muito. E sabe como ela será importante daqui para frente. Mais: a conexão com viagem no tempo, muito teorizada por muitos para o futuro dessa história, fica mais que evidente, e infalivelmente está no meio do caminho.

É importante lembrar que a Marvel trabalha com múltiplas dimensões desde a fase 1 da MCU, ao ponto de praticamente construir um metrô entre o planeta Terra e Asgard em Thor: O Mundo Sombrio (no melhor estilo viagem entre Rio e Turquia em novela da Rede Globo). Além do Doutor Estranho, que foi para outros mundos e realidades alternativas por diversos momentos em pelo menos dois filmes. Sem falar nos Guardiões da Galáxia, que é um cenário a parte, que só agora se colidiu com o nosso. Ou seja, o mundo quântico nem soa tão absurdo a essa altura do campeonato.

 

 

Tudo é executado de forma crível e coerente, apesar de ser uma história de fantasia. O filme se estrutura pela sequência de causas e consequências lógicas, onde nada fica sem explicação. Mais uma vez, o começo de um filme da Marvel responde as perguntas que ficaram em aberto ao longo desse tempo, e posiciona o espectador sobre a quantas andam na vida dos principais personagens, preparando todo mundo para o que está por vir.

Dito isso, vá ao cinema sem ser muito exigente com Homem-Formiga e a Vespa. É óbvio que ele é um filme bem menos grandioso que Vingadores: Guerra Infinita, e nem poderia ser diferente. Estamos falando de uma história com identidade própria e proposta bem diferente. Tem um tom bem mais leve, com muito mais cara de “Sessão da Tarde”. É a Marvel divertida e engraçadalha que a galera mais nova aprendeu a amar, e precisa ser um filme assim.

O tom mais infantil fica evidente na proposta lúdica de contar as aventuras do cara que encolhe e cresce do nada e da mulher que voa como uma vespa. Mas se reforça com elementos de conexão que remetem à isso, como a interação de Scott com a filha e referências ao universo de Hello Kitty e Hot Wheels. Até mesmo o fato de todo mundo ficar disputando um laboratório que é encolhido a ponto de ficar do tamanho de um prédio de brinquedo dá o tom de diversão que o filme precisa ter. Tom esse que se reforça ainda mais quando vemos Scott Lang se divertindo em sua prisão domiciliar com atividades infanto-juvenis, como se fosse um adolescente crescido.

 

 

Também podemos destacar o melhor aproveitamento do elenco de Homem-Formiga e a Vespa. Ações mais efetivas para os personagens principais, onde Lang, Hank e Hope recebem protagonismos alternados. É claro que temos de novo vilões que saem do nada e chegam a lugar nenhum, atuando apenas como elementos complicadores para que os heróis alcancem os seus objetivos nas missões. Mas isso não afeta de forma decisiva a narrativa da trama. E… sim… em partes é uma comédia romântica de ação, pois a interação entre Paul Rudd e Evangeline Lilly funciona muito bem. Sem falar que tem Michael Douglas e Michelle Pfeiffer, e isso não é pouca coisa.

Mesmo sendo uma produção menor e mais simples que Vingadores: Guerra Infinita e Pantera Negra, Homem-Formiga e a Vespa é um filme que funciona nos aspectos técnicos. Dentro da sua proposta lúdica, é crível nos seus efeitos visuais, e as cenas do universo quântico são bonitas e esteticamente atraentes.

 

 

Por fim, Homem-Formiga e a Vespa é mais um acerto da Marvel. É um filme seguro e consistente, que funciona dentro da proposta apresentada, e que consegue divertir sem fazer muita força. Filme limpinho, filme família (literalmente, já que temos uma família completa formada entre os principais envolvidos). É melhor concebido que o primeiro filme, e consegue a façanha de ter a identidade própria, sem precisar apelar para as consequências de Vingadores: Guerra Infinita.

Sem falar que convida a todos a assistirem ao filme da Capitã Marvel, mas sem fazer qualquer referência à personagem. Uma vitória, ao meu ver. Agora, todos sabem que as resoluções de Vingadores 4 só começam mesmo no filme de apresentação da nova heroína. Ou começou com o pós-créditos do segundo filme do Homem-Formiga.

Tudo é uma questão de perspectiva.