The Long Night é um dos episódios de Game of Thrones que gerou muitos falatórios, e pelos motivos errados. A batalha foi espetacular sim, mas muita gente se sentiu enganada. E não porque tudo estava muito escuro. Muitos criticaram abertamente sobre o suposto uso de deus ex machinas para solucionar uma trama considerada impossível de resolver satisfatoriamente. E dizem que não é a primeira vez que a série faz isso.

Para falar sobre o tema, é preciso ter um pouco de spoilers sobre o episódio S08E03 de Gmae of Thrones. Mas antes de tudo isso… vamos falar de uma das coisas mais importantes que existem no pacto entre espectador e roteirista: a suspensão da incredulidade.

 

 

Eu acredito em tudo o que você me contar

 

 

Quando você assiste um filme ou uma série, ou lê um livro, a primeira coisa que você precisa decidir é se você compra aquela proposta ou não. Aqui, fica estabelecida a suspensão da incredulidade. Mesmo que você seja o Grissom (analisando evidências e provas em poucos minutos), a história precisa ser verosímil o suficiente para você continuar nela. Ah, sim, verossímil dentro de suas necessidades de características.

Pois todo mundo sabe que dragões não existem.

Toda ficção cria o seu próprio universo, com as suas próprias regras e funcionamento, onde o impossível não importa, mesmo que a narrativa conta com zero por cento de coerência. Até aí, tudo bem: nós acreditamos em Jack Bauer, Capitão Nascimento e na Carla Perez como Cinderela Baianha. O problema vem com quando a história se vale de um truque mair e mais nefasto: o deus ex machina.

O recurso é chamado assim porque se inspira no mecanismo de trapaça utilizado na tragédia grega. De repente, do nada, aparece algum deus que intervém na trama e resolve tudo. Acaba com tudo. Uma solução que vem “do nada” e sem qualquer justificativa prévia. Algo coincidente demais e que ataca frontalmente a tal suspensão da incredulidade.

 

 

Game of Thrones: ato de fé ou deus ex machina?

 

 

Agora sim, vamos começar a falar de The Long Night.

Todo mundo estava preparado para mortes de personagens importantes, e no final das contas, a lista daqueles que pereceram foi decepcionante e, ao mesmo tempo, improvável.

Muito se discute de Arya matar o Rei da Noite foi um deus ex machina. Tal morte destruiu todo o exército do Rei, e os personagens principais que estavam asfixiados em combate sobreviveram.

Do ponto de vista objetivo, por mais que você não concorde com isso, ainda não temos um deus ex machina aqui. Tudo bem, você pode até alegar que Benioff e Weiss usou nesse episódio vários argumentos narrativos que obrigam o espectador a acreditar em um (ou vários) “atos de fé” para acreditar que Arya conseguisse avançar até um Rei da Noite rodeado de seus soldados letais, passando por todos eles de forma (quase) desapercebida e, ainda assim, sobreviver. Mas isso não quer dizer que está acontecendo um deus ex machina.

Vários acontecimentos prévios apontam para um cenário real e possível para aquele personagem conseguir alcançar o seu objetivo, e é preciso uma análise aprofundada dos eventos para estabelecer esse ponto crível na trama.

O problema é que Game of Thrones abusa do fator surpresa. As grandes batalhas tiveram apenas um grande plot twist que promove o desmoronamento de tudo. De repente vem o exército de alguém no momento exato e arrasa com os inimigos, por exemplo.

Isso não vem do nada. Alguma coisa acontece no episódio anterior para resultar naquele grande elemento surpresa. Não é um deus ex machina na essência, mas é uma trapaça do roteiro para elevar a dramaticidade e oferecer a resolução no momento em que tudo parecia estar perdido.

Game of Thrones nunca teve compaixão com os seus heróis, mas nas últimas temporadas os roteiristas tiveram muito cuidado em manter um determinado grupo de personagens vivo até o final. E até agora alcançaram esse objetivo. Mesmo que boa parte da audiência não goste disso.

No final das contas, o que pode estar acontecendo é um certo abuso da boa vontade de parte da audiência que se acostumou a ver uma série seguir um determinado plano e, na reta final, entende que esse plano está mudando. De forma perigosa.