O Festival de Cannes é um dos mais importantes (se não for o mais importante) do mundo do cinema. Todos que estão no meio entendem o que é a importância que é ter o seu filme concorrendo à Palma de Ouro. Porém, ele será mais “Nutella” em 2018.

Algumas decisões tomadas pelo diretor do festival, Thierry Fremaux, mostram claramente como o evento será mais “não me toques”, se afastando da modernidade em nome do requinte e da boa tradição do evento.

Bom, essa é a desculpa oficial. Ao meu ver, Fremaux simplesmente odeia tudo o que é digital nessa vida.

Primeiro, ele proibiu as selfies no tapete vermelho. Algo que até é compreensível, dependendo do ponto de vista observado.

Afinal de contas, as selfies podem mesmo atrapalhar o fluxo de pessoas que passam pelo tapete vermelho, o que prejudica o trabalho da logística do evento e dos jornalistas presentes.

Por outro lado, tirar parte da espontaneidade e diversão apenas e tão somente por causa das convicções pessoais de um diretor de evento até intransigente é algo bem lamentável.

Mas a questão das selfies até passa.

O que é muito mais grave é Thierry Fremaux basicamente definir que “filme” para disputar a Palma de Ouro no Festival de Cannes é apenas aquele que passa nos cinemas.

Fremaux baniu todos os serviços de streaming a concorrer ao Palma de Ouro com suas produções. Argumenta que o modelo de negócio defendido por esses serviços vão contra aquilo que eles entendem como sétima arte.

A decisão foi pensada no único objetivo de atingir a Netflix, mesmo abraçando todas as outras plataformas. É o serviço de streaming mais popular do mercado que se recusa a colocar os seus filmes nas salas de cinema.

Não é bem assim. A Netflix até tentou colocar as suas produções que aspiravam prêmios em Cannes no circuito francês em paralelo ao lançamento nas suas plataformas, mas a legislação francesa não permitiu isso.

A leitura que faço desse veto ao streaming em Cannes é bem simples: Thierry Fremaux comprou a briga de Steven Spielberg e outras vozes dentro do cinema que gritam contra a Netflix por puro medo.

Todo mundo sabe que, nos dias de hoje, é uma luta fazer com que a audiência vá até as salas de cinema para assistir aos filmes lançados. É caro demais ir ao cinema, e tem muito filme por aí que não vale o ingresso.

Com o dinheiro de um ingresso para um filme qualquer, eu pago a mensalidade de um mês de Netflix, e vivo feliz com filmes, séries e produções originais.

Essa combinação ajuda a explicar as salas de cinema cada vez mais vazias, e o veto das produções no streaming. É o puro movimento de retaliação de uma indústria que hoje está desesperada.

Logo, teremos um Festival de Cannes “Nutella”, por conta de decisões de homens intransigentes e apavorados. E vamos ter que lidar com isso.

Ou assistir a algum filme nos serviços de streaming disponíveis.