Tudo evolui naturalmente. E essa franquia também evoluiu.

De Pernas pro Ar 3 volta a mostrar como está a vida de Alice (Ingrid Guimarães) como bem sucedida empresária do universo dos produtos eróticos, e aborda vários temas que resultam em grande parte na reflexão do passar do tempo, repete o discurso sobre a importância em como você deve aproveitar melhor o tempo de sua vida, no contraste do velho e do novo e na necessidade de se reinventar. E eu fico feliz que o filme tenha abordado esses temas na narrativa, e colocado em prática na execução da proposta.

Se eu reclamei da repetição do plot da falta de cumplicidade de Alice com o seu marido João (Bruno Garcia) no segundo filme, ao menos a inconstância de entendimento dos dois (algo que sempre esteve presente nessa relação, e que considero uma das coisas mais verossímeis da franquia) é abordada com uma outra mecânica, entregando um maior dinamismo para as duas perspectivas. Traduzindo: mostrando os dois lados da moeda, mais uma vez.

Enquanto Alice mostra alguns sinais de maturidade ao perceber que está perdendo o crescimento de sua filha (e que não quer repetir o erro cometido com o primeiro filho) e, por conta disso, decide se retirar do mercado e deixar os negócios para a mãe Marion (Denise Weinberg), por outro lado João mostra que vai além de ser o pai dedicado e exemplar que cuida dos filhos enquanto a mãe está vencendo na vida profissional, e vai buscar a sua realização ao dar passos maiores em sua carreira. Isso é algo mais próximo da realidade de um casal moderno atual, o que inevitavelmente deixam as coisas mais dinâmicas.

 

 

Mas o filme logo de cara escancara os conflitos internos de Alice, quando a mãe Marion adota um novo modelo de gestão para a Sexy Delícia, mais flexível e igualmente eficiente, mostrando claramente que nem tudo precisa ser metódico e disciplinado para funcionar. Outro contraste resultante do histórico de postura pessoal de Alice é a distância estabelecida entre as mães das coleguinhas de sua filha, mostrando claramente a falta de habilidade da protagonista em lidar com a perigosa engenharia social que existe nesse tipo de convívio.

Sem falar no contraste apresentado pelo longa quando Alice testemunha como uma mulher moderna pode ter uma profissão importante, ser bem sucedida, cuidar de cinco filhos e da casa… e ainda se manter linda. É claro que eu encaro isso muito mais como um argumento narrativo para fazer humor explorando o contraste das duas personalidades (até porque a resposta para o “segredo” da cirurgiã é uma das mais óbvias do mundo). Mesmo assim, é mais um ponto de reflexão que o filme tenta apresentar.

Porém, o grande plot do filme (e a grande reflexão sobre como trabalhar com o passar do tempo, o saber envelhecer e aceitar que o novo sempre vem) acontece quando Leona (Samya Pascotto), jovem empreendedora que apresenta uma nova tecnologia que combina realidade virtual com as fantasias eróticas, aparece e rouba os holofotes de Alice (que, lembrando, decidiu se retirar do mercado). Leona conquista a admiração de Marion e o coração do filho mais velho da nossa protagonista, o que deixa Alice furiosa o suficiente para voltar ao mercado para desbancar a novata.

 

 

O que Alice recebe depois disso são várias lições de vida, inclusive da novata, que lembra a veterana que ela mesma só entrou nesse mercado porque um dia uma mulher teve a coragem de abrir as portas e pavimentar o caminho. Alice também percebe que não apenas precisa se reciclar nos conceitos profissionais, mas também na elaboração pessoal e de suas relações interpessoais.

Até que De Pernas pro Ar 3 faz a conexão direta com o primeiro filme, onde tudo volta a ser como era antes. Alice e João em crise, mas dessa vez indo ao cerne dos seus maiores problemas, ou seja, as diferentes personalidades e perspectivas de vida, as visões contrastantes sobre como aquele relacionamento poderia ser, e principalmente a ausência de conexão sexual entre os dois. E tudo isso acontece com o interessante paralelo do relacionamento do filho do casal com Leona, mostrando em como as visões podem ser diferentes quando os quadros se repetem. Até porque o filho já é maduro o suficiente para não querer uma mulher como a mãe dele, e isso faz Leona repensar as suas escolhas. Até porque ela ainda é nova e pode ter várias novas oportunidades no futuro.

 

 

De Pernas pro Ar 3 é o melhor dos três filmes da franquia. Pode até ser o filme que rende menos risadas, mas é o melhor estruturado em sua narrativa, corrigindo vários erros do filme anterior, e dando continuidade a algumas mudanças apresentadas no primeiro filme. A sociedade entre Alice e Marcela (Maria Paula) foi mesmo desfeita após os eventos do segundo filme, e a empregada Rosa (Cristina Pereira) segue quebrando as próprias travas sobre a sua sexualidade. Por outro lado, Marion, que deixou de lado o seu furor sexual no segundo filme, voltou a ser a divertida coroa que não esconde de ninguém que pensa em sexo (e muito) no terceiro filme.

No final das contas, De Pernas pro Ar 3 é mais do que recomendado para todos. Para a mulher moderna, para a mulher madura e para os homens também. É importante que a audiência desperte para o repensar sobre as prioridades em suas vidas, no lidar com o passar do tempo, com a aceitação do novo e das mudanças constantes. E também abordar o sexo sem tabus e com bom humor.