Seguindo aquela máxima de resenhar franquias que antes eu não dava a mínima, lá fui eu assistir De Pernas pro Ar, comédia nacional de 2010, que dá início para a trilogia que fecha em De Pernas pro Ar 3, que pretendo assistir nesse feriado. E o que recebi aqui foi uma grata surpresa. Mesmo.

Eu não dava muita coisa para o filme, pois assim como acontece na imensa maioria das comédias nacionais, o seu roteiro é previsível e aponta de forma inevitável para o final feliz. Mas não é só isso. De Pernas pro Ar propõe uma bem humorada autocrítica da mulher moderna, mostrando o outro lado da moeda da decisão em ter uma carreira profissional de sucesso e não voltar os seus olhos para os demais aspectos da vida, na tentativa de mostrar o que é realmente importante e essencial em nossas vidas.

O fato de Alice (Ingrid Guimarães) perder tudo para perceber que estava jogando tudo o que era mais importante em sua vida pela janela (seu marido, seus filhos, sua família, sua sexualidade) é apenas uma forma de indicar que, em muitos casos, a mudança de perspectiva de vida só acontece quando sentimos o tal golpe de realidade. E focar tanto em trabalho pode deixar a pessoa certa para isso.

E assim como acontece em várias outras histórias de libertação feminina, a redescoberta do “eu” de Alice acontece a partir da sua própria libertação sexual. A sua redescoberta nesse aspecto é a grande viagem cômica desse filme, e deixa o processo que poderia ser mais doloroso e questionador algo mais divertido e direto.

Ao mesmo tempo, é possível identificar várias mulheres que se comportam como Alice todos os dias. E não são mulheres muito distantes de nossa realidade. Aliás, De Pernas pro Ar é competente ao apresentar situações muito próximas da realidade de qualquer pessoa, vividas por personagens carismáticos e também próximos da nossa realidade. É bem fácil encontrar aqueles personagens nas pessoas com as quais convivemos no dia a dia.

 

 

O resultado de tudo isso é um filme que oferece um belo golpe de realidade para qualquer pessoa, e não apenas nas mulheres. É claro que, falando especificamente do contexto sexual feminino, ficam os tópicos específicos, como a descoberta do próprio prazer, a importância de sentir prazer e ter orgasmos (e como muitas mulheres nem sabem o que é isso na vida) e, de novo, todo o ponto de mudança para a protagonista começou com a re-elaboração de sua visão em relação ao sexo.

De Pernas pro Ar é um filme divertido, que cumpre o seu papel de ser engraçado com a história que se propõe a contar. Mas o seu roteiro é previsível, onde é possível antever algumas de suas situações cômicas. Nesse caso, isso não se torna um defeito justamente pelo filme ser competente em fazer rir com a comicidade da situação em si, tirando sarro de si mesmo, mas sempre mostrando a mudança de comportamento que os novos tempos apresentam (como, por exemplo, uma senhorinha alegremente montada em um touro mecânico em forma de instrumento fálico).

Nos aspectos técnicos, De Pernas pro Ar também se mostra igualmente competente, não indo além em nenhum momento ou deixando a desejar em algum aspecto. Mas isso é irrelevante diante da proposta como um todo, e da forma em como o filme alcança o seu objetivo de ser divertido e fazer rir.

E, pensando em De Pernas pro Ar 3, ver o primeiro filme é algo fundamental para criar uma maior empatia com a história e seus personagens.

De Pernas pro Ar me surpreendeu. Insisto que eu realmente não esperava nada desse filme, e recebi uma comédia bem competente, que deixa várias cutucadas para todos nós. Espero que o segundo filme mantenha esse ritmo, pois certamente fará com que a minha experiência no terceiro filme seja plena.

Ainda nessa semana eu falo sobre De Pernas pro Ar 2.