Calma! Eu não voltei para o passado. E, mesmo que quisesse, jamais poderia voltar para esse ponto. Eu vou me explicar.

Eu finalmente consegui assistir Cinquenta Tons Mais Escuros (2017), mas para explicar toda a “complexidade” desses dois filmes, era preciso corrigir um erro, e escrever sobre essa “preciosidade cinematográfica” chamada Cinquenta Tons de Cinza. Sim, amigos… eu fugi disso em 2015, mas me submeti ao sacrifício para poder falar com propriedade do segundo filme baseado nos livros de E. L. James.

Dito isso…

 

Todo mundo já sabe o que aconteceu. E. L. James mirou no peixe e acertou no gato. Fez um romance (que de romance não tem nada) para o público adolescente/jovem adulto, e acertou em cheio as coroas e vovós. E eu estou falando sério: foi o público feminino acima dos 40 anos (ou mais… bem mais…) que ficou enlouquecida com a narrativa explícita das seções de sadomasoquismo light que Christian Grey submeteu a jovem e inocente Anastasia.

Jovem… inocente… e vazia. Pra não chamar aquela mulher de burra mesmo.

Aliás, Cinquenta Tons de Cinza é tão mal escrito, que Anastasia alterna entre o vazio de escolher ser uma mulher que aceita tudo de Christian (porque ela se apaixonou por ele à primeira vista, e acreditou que ela mudaria o jeito de ser daquele homem), para a mulher que começa a questionar itens bem óbvios do tal contrato entre submissor e submissa.

Aliás, que mulher inteligente Anastasia é para precisar pesquisar na internet o que quer dizer o termo “submissa”… para quem tem notas altíssimas, ela deveria pelo menos ter um vocabulário mais completo.

 

Por outro lado, Christian é um riquinho mimado, que só sabe mandar, não sabe perder nem ouvir não, tem um interior supostamente inquebrável, mas um passado totalmente fracassado, perdendo a mãe biológica aos quatro anos de idade e sendo abusado sexualmente pela melhor amiga da mãe adotiva por seis anos, desde os 15 anos de idade.

Para se vingar de qualquer mulher que cruza o seu caminho, ele tem o tal “quarto de jogos” onde, para o prazer dele, ele faz de tudo para a mulher sofrer. E sofrer muito. Até porque ele não faz amor. Ele f*de com força (palavras dele).

 

cinquenta tons de cinza

 

O que torna Cinquenta Tons de Cinza um filme terrível (pra começar) é o fato dele suavizar ao extremo as principais passagens que envolvem sexo e sadomasoquismo. Nem soft porn isso é. E esse talvez tenha sido o erro fatal do longa: se conseguiu atrair o público adulto, ou as mais velhas que ficaram taradas pelo menino Christian e suas perversões sexuais, ao menos faz um filme que enfia o pé na jaca de uma vez por todas, e entrega ao espectador um pouco do que o livro foi.

Mas… não! Optaram por fazer um filme buscando de novo o público jovem adulto, que não se interessou pelo livro e, consequentemente, não ia se interessar pelo filme baseado no livro. Isso para mim é bem lógico.

 

Outro detalhe que torna esse filme uma droga é que a história em si é fraca, rasa, quase idiota. A menina se apaixona à primeira vista por um cara que não gosta de ninguém a não ser dele mesmo, vai aceitando qualquer bobagem que ele faz com o corpo dela (até aí dá pra engolir essa, pois ela descobriu que gosta de ser submissa), mas quando descobre que o negócio dela não é sentir dor pra valer, ela pula fora???

Olha, não sou um especialista, mas… fiquei sabendo que muitos adeptos ao sadomasoquismo ficaram realmente ofendidos com o que viram nesse filme.

Aliás, Cinquenta Tons de Cinza é uma ofensa às mulheres como um todo. O personagem de Anastasia chega a ofender a inteligência e independência feminina, por ser vazia e fútil. Não tanto pelo fato de aceitar os mandos e desmandos de Christian Grey, mas por simplesmente ser uma passiva nata inclusive na forma de pensar e agir. Falta personalidade própria para ela, e nos seus poucos lampejos (ao discutir as cláusulas do contrato com Grey), nem ela se dá conta que esta é uma estratégia dele para que ele mesmo possa ser mais invasivo e ousado nos seus direitos de submissor.

Isso fica bem claro para quem assiste ao filme. Só ela não percebeu isso.

Logo, fico assustado quando fico sabendo de senhoras que são mães e avós afirmando que ficaram excitadas com um livro com esse enredo. Isso só confirma que as mulheres de antigamente nasceram para ser submissas, e que algumas delas realmente gostam de ser e ficar assim!

Ainda bem que esses tempos estão mudando. Aos poucos, mas estão mudando.

 

 

Cinquenta Tons de Cinza é um filme realmente muito ruim. Consegue ser pior que o livro por não imergir o espectador no verdadeiro chamariz que o livro se vende: uma viagem ao mundo do erotismo e do sadomasoquismo. No final das contas, o filme é um pato: tenta ser tudo isso, mas não consegue ser nada disso direito. Mais: tenta romantizar um cenário que, de romance, não tem absolutamente nada.

De novo: é bizarro ver as mulheres pagando pau para essa história.

Em resumo: Cinquenta Tons de Cinza poderia muito bem ser um episódio de Gossip Girl com duas horas de duração.

 

Pronto. Agora podemos falar de Cinquenta Tons Mais Escuros!