TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva

 

Ter tudo na vida não te dá a felicidade. Agora, imagine para quem tem TOC.

 

TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva levanta mais uma vez a discussão sobre “qual é o caminho da felicidade”, mas na perspectiva de alguém que sofre do Transtorno Obsessivo Compulsivo. É claro que temos uma visão escrachada e bem humorada, mas ao mesmo tempo temos importantes reflexões que precisamos fazer de tempos em tempos.

 

Kika K (Tatá Werneck) é uma atriz consagrada, com uma carreira consolidada, e está no auge de sua carreira. Mas tem uma vida conturbada: um namorado igualmente famoso, mas que vive no modo “pego qualquer uma e mostro meu amor pra ela brincando de pintocóptero na webcam”, uma empresária gananciosa, que coloca a moça em algumas furadas, e uma família ausente, que pouco se preocupa com o estado emocional da moça.

Então, em um lançamento de seu livro (que ela não escreveu), ela conhece Vladimir (Daniel Furlan), funcionário da FNAC com visão de mundo totalmente diferente daquela que Kika vivia. Ao aceitar encarar o desafio de levar a moça para Osasco para conhecer o rapaz que escreveu o seu livro “1003 dicas para encontrar a felicidade”, uma série de acontecimentos começam a mostrar um mundo novo para Kika.

Um mundo onde ela não precisava ficar presa aos seus padrões. Onde ela claramente percebia que a fama acumulada não a deixava feliz. Que a busca pelas respostas corretas e perfeitas a aprisionava.

Kika percebe que o que realmente importa nessa vida é olhar para frente, seguir em frente com acertos e erros.

E que dizer um “foda-se” de vez em quando faz um bem danado.

 

 

Algumas pessoas vão criticar TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva por conta dos vários palavrões que aparecem no filme. E acho que analisar a obra por esse aspecto é um erro grosseiro.

Afinal de contas, o estilo de comédia feito por essa geração de humoristas se destaca especialmente pela ausência de filtros morais para a construção de um humor prático, transparente e sem travas. Logo, aqueles mais sensíveis ao palavreado ou politicamente corretos demais vão se prender apenas ao fator linguístico, e vão detestar o filme.

Mas acredito que a maioria do seu público-alvo vai curtir a proposta. O filme é engraçado, com várias piadas que funcionam. Tatá Werneck mais uma vez mostra o seu talento e timing de comediante, e destaco também a atuação de Luís Lobianco, que entrega muito bem o que o seu papel propõe.

O roteiro do filme é bem estruturado, com alguns momentos onde a ruptura proposta para que o espectador acompanhe o que se passa na cabeça de Kika. O dinamismo nesse aspecto ajuda, pois dessa forma percebemos como o TOC afeta a pessoa, e como a mente de Kika trabalha diante das diferentes situações apresentadas.

 

 

Também é sábia a decisão de colocar Kika em um sonho de um mundo pós-apocalíptico (que é o projeto da vida dela, uma novela que ela é cotada para ser a protagonista). Nesse momento, todos os medos da moça aparecem, e vemos como ela se sente por dentro: tentando ser a heroína dela mesma, enfrentando seus medos, mesmo sentindo medo de tudo o que aparece na sua frente.

Entendo que o filme cumpre com o seu papel de divertir, e também com o objetivo de propor uma reflexão mais direta sobre o TOC e até mesmo sobre as posturas e atitudes de nossas vidas. O que fazemos em busca de nossa felicidade, o quanto nos prendemos aos padrões impostos por todos, o quanto deixamos de viver o hoje sempre pensando no futuro, o quanto nos preocupamos com a própria imagem, o quanto deixamos de olhar para frente para dar nossos próprios passos.

 

 

No final do filme, você realmente entende que, para realmente ser feliz, não existe um caminho ou 1003 dicas. Existe você. É uma longa jornada de auto-conhecimento, onde cada um precisa passar de sua própria maneira.

Kika encontrou a dela nos altos e baixos. Sem receitas. Vivenciando experiências.

 

TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva vale a pena. Especialmente para aqueles com mente aberta para absorver as suas mensagens sutis e diretas.