Conheça Carol Danvers, a mais poderosa personalidade do Universo Cinematográfico da Marvel.

A missão da Marvel era bem complicada. Após consolidar personagens de diferentes níveis dentro do seu muito bem sucedido MCU, chegou a hora de mostrar como será o futuro dessa franquia. E o primeiro passo seria dado com Capitã Marvel, considerada por Kevin Feige a personagem mais poderosa desse universo. Porém, era uma ilustre desconhecida do grande público.

Era. Não é mais.

A Marvel segue apostando na diversidade para expandir o seu universo cinematográfico. Primeiro foi com Pantera Negra, que entregou de forma digna um universo que celebrou e enalteceu a cultura africana como nunca antes visto na história do cinema. Agora, Capitã Marvel apresentou ao mundo Carol Danvers, uma personagem forte nos seus poderes e na sua personalidade.

Algumas pessoas com a mente um pouco mais fraca vão torcer o nariz para a Carol Danvers interpretada por Brie Larson. Eu entendo que tal rejeição tem uma certa dose de conservadorismo barato. Algumas pessoas simplesmente não estão acostumadas a encarar uma mulher com personalidade forte. Ou apenas rejeitam isso, por puro machismo. Ou ficam com medo dessas mulheres, e acabam fugindo.

De qualquer forma, ao longo de toda a sua vida, Carol Danvers sempre se mostrou uma mulher obstinada, forte e muito segura de si. E ela não tinha outra escolha: ela passou uma vida inteira caindo e aprendendo a se levantar, várias e várias vezes. É algo emblemático. E ela fez isso cercada de homens afirmando que ela não iria conseguir realizar os seus sonhos e alcançar os objetivos estabelecidos.

O machismo aparece semi velado em Capitã Marvel, mas escancarado para qualquer pessoa minimamente inteligente perceber como tal barreira psicológica precisava ser superada pela própria Carol. E como essa dominância masculina se fez presente até ela se tornar consciente que poderia controlar os seus poderes por si, deixando de lado as imposições dos homens que a cercavam.

A maior prova disso é que o lendário e durão Nick Fury (Samuel L. Jackson) vira um enorme alívio cômico ao longo do filme. Carol Danvers faz bullying com Fury em diversas oportunidades. Ela simplesmente se impõe diante do agente da SHIELD, pois sabe que é ela quem comanda toda a situação.

E, mesmo assim, Carol Danvers mostra claramente traços de humanidade (sim, ela é humana, é claro) quando demonstra suas indecisões sobre o que fazer (e se está fazendo a coisa certa), e é pontualmente advertida que ela já era forte antes de ter poderes, e que já era poderosa antes de ter reais possibilidades de salvar o universo, acabando com uma guerra que não era dela.

Ela foi envolvida em tudo isso.

 

 

Capitã Marvel é um ótimo filme. Não é o melhor filme da Marvel (a gente tem a tendência de sempre falar isso depois de um filme da MCU, e precisamos começar a corrigir isso desde já), mas é um filme que funciona, principalmente para o grande público, que não conhecia a personagem. Eu confesso que fico com algumas dúvidas se os fãs mais conservadores dos quadrinhos vão gostar das mudanças narrativas sobre vários detalhes da origem dos personagens e do conflito central. Por outro lado, o filme segue uma coerência com algo que já foi contado no MCU em filmes anteriores. Ou seja, tentem não ficar muito descontentes, fãs conservadores.

Porém, uma mudança de narrativa era fundamental para esse filme funcionar com todos os recados que ele queria dar. Carol Danvers precisava mesmo se inspirar em uma MULHER para compreender qual era o seu real significado nesse mundo, incluindo compreender a si e os poderes que ela adquiriu. De novo: homem nesse filme só serve para tentar limitá-la o tempo todo.

Mas o mais importante nesse primeiro momento é dizer que, como filme, Capitã Marvel funciona. Continua a ser entretenimento de alta qualidade técnica e de roteiro. O filme não cansa, tem ótimos diálogos, personagens bem definidos e cenas de ação bem feitas, com uma produção que até lembra Star Wars em alguns momentos (mas não se preocupe; é um filme com identidade própria).

Muito do mérito desse longa está na interpretação de Brie Larson, que convence ao fazer uma mulher que ainda está meio perdida diante do novo cenário que se apresentou diante dos seus olhos. Ela entrega a personalidade que esperamos de uma personagem com esse perfil, mas de forma discreta e sem exageros. Sem falar na empatia que ela desperta por alguém que não conhecemos em essência.

Capitã Marvel é um filme que apresenta uma heroína de forma inteligente, alicerçando esse argumento principal de várias formas. Fazer o Nick Fury de alívio cômico é apenas uma dessas maneiras. Toda a trilha sonora, com exceção de uma música (que aparece pontualmente para mostrar a sacanagem de um homem para cima de Carol Danvers) recebe composições interpretadas por mulheres, o que reforça ainda mais a ideia de que esse é um filme onde a mulher e tudo o que ela é capaz de fazer são os verdadeiros protagonistas.

Eu não sei se Capitã Marvel é exatamente o filme que vai inspirar as meninas das novas gerações a reconhecerem e desenvolverem os poderes que abrigam dentro de si, e transformar esse poder e habilidades em coisas construtivas para o mundo. Eu não sei se teremos novas versões de Carol Danvers no futuro, ou se as meninas de hoje vão realmente se identificar com uma mulher com esse perfil.

Mas uma coisa é certa: uma semente foi plantada. E pode aparecer inclusive em Vingadores: Ultimato (quem está por dentro dos paranauês dos personagens pode imaginar do que eu estou falando; lembrando que essa história se passa em 1995). E isso é ótimo.

 

 

Ah, sim… duas cenas pós créditos (fique na sala de cinema até o final), e uma delas diretamente conectada com Vingadores: Ultimato. Vários spoilers que eu li e ouvi nas últimas semanas foram confirmados. Mas vá assistir sem medo. Se você é fã da Marvel e já chegou até aqui, vai gostar desse filme.

E você vai gostar da singela homenagem que a Marvel Studios fez para Stan Lee. Tem tudo a ver com ele, e em como enxergamos a imagem dele dentro desse universo e em nossas vidas.