Depois de tantos filmes da franquia Transformers de gosto bem duvidoso (para dizer o mínimo), eu comecei a me perguntar: “como seria um filme dessa saga sem Michael Bay na direção?”. Para mim, ficou bem claro que o primeiro Transformers era um filme (simplesmente excelente), e depois disso, a chavinha do menino Bay virou de tal forma, que eu só consigo aceitar ele na direção com o pensamento que ele abraçou a galhofa e a cretinice sem medo de ser feliz.

Algumas pessoas desconfiam que ele fez exatamente isso. E funciona, pois a franquia é uma das mais lucrativas do cinema nesse momento.

Mas a minha pergunta seria respondida. Bumblebee é o primeiro filme spin-off da franquia principal, trazendo uma abordagem diferente através da visão de Travis Knight para essa história de fantasia. Eu confesso que não colocava fé no filme (inclusive com um novo diretor) até ver o primeiro trailer.

E o primeiro trailer me empolgou. E muito.

As chances de algo novo se apresentar eram enormes. E, sinceramente, a franquia Transformers precisava disso. Precisava se reinventar de alguma forma. E não estou falando aqui de repaginação estética, mas sim de conceito de narrativa, de uma forma nova de contar uma história. Ou até mesmo voltar ao básico. Ao primeiro filme, que é com sobras o melhor de todos entre os produzidos por Michael Bay.

O que tem de tão especial em Transformers (2007)?

Esse é um filme que trabalha com a fantasia de infância de muita gente com consistência. Entrega a ação que se espera em uma história onde os robôs gigantes vão cair na porrada, mas conta também com o lado mítico da fantasia infanto-juvenil. Quando Sam finalmente compreende que o seu Camaro é um robô gigante, ele reage exatamente da mesma forma que nós poderíamos reagir na mesma situação. E isso estabelece uma identidade profunda entre o filme e o espectador.

Os demais filmes da franquia dirigidos por Michael Bay perderam essa essência, e foram ladeira abaixo na hora de estabelecer a empatia com o público. Em determinado momento, você simplesmente não se importa mais com o festival de robôs gigantes lutando na cidade ou no deserto. Principalmente quando o protagonista humano consegue parar o ataque de um robô gigante com uma espada.

Parei por aí.

Agora, falando de Bumblebee.

 

 

Travis Knight recupera a magia perdida na franquia, contando uma história de origem onde você se importa com tudo o que está vendo. O roteiro é relativamente previsível e até didático em alguns momentos, mas ao menos não é cansativo e insípido. Os dois protagonistas (Charlie, interpretada por Hailee Steinfeld, e o próprio Bumblebee) são tão bem trabalhados dentro da proposta, que você termina o filme querendo ser amigos dos dois. E tudo isso funciona de forma bem simples, sem exageros, mas entregando aquilo que os fãs mais viscerais de Transformers sempre querem ver: robôs gigantes lutando, explosões e cenas incríveis.

Mas com uma história boa para contar entre uma briga e outra.

Bumblebee entrega tudo o que precisa entregar no que se refere à história do personagem. Mostra como ele chegou na Terra, como perdeu a voz, como encontrou Charlie, por que essa amizade é importante, por que os Decepticons vão atrás dele (e o início do conflito que resultou na rebelião dos Autobots) e como tudo isso é resolvido com a ajuda dos humanos que estão do lado dele.

 

 

Mas apesar de todos esses acontecimentos girando ao redor, o plot principal, que é a amizade entre a menina de 18 anos com crises das mais diversas porque perdeu o pai e se sente sozinha no mundo porque a mãe decidiu seguir em frente com outro relacionamento e o robô gigante alienígena que precisa proteger a sua dona e o planeta Terra da ameaça que está atrás dele.

Sua premissa não tem complicações, da mesma forma que a sua execução também não tem. Bumblebee é o filme honesto que você espera assistir, onde conflitos aparecem naturalmente e soluções são apresentadas com lógica até previsível. Insisto que você não vai encontrar um roteiro dos mais elaborados, e a previsibilidade de algumas soluções podem tirar pontos do filme. Porém, é uma história que não tem como objetivo enganar você.

Até mesmo ao mostrar os clichês mais óbvios do mundo, como o exército dos EUA achando que é a instituição mais inteligente do mundo, mas de forma bem óbvia é lindamente enganada pelos Decepticons.

Por outro lado, Bumblebee quebra a estigma de ser um filme adolescente que obrigatoriamente precisa contar com o casal da vez para explorar o contexto sexual do jovem norte-americano. Muita gente acusa Michael Bay de ter sido sexista ao explorar os atributos físicos de Megan Fox. Dessa vez, Travis Knigt inverte os papéis: as mulheres serão premiadas de forma breve com os atributos físicos de Dylan O’Brien.

Bumblebee tem aquela vibe boa dos anos 80, que é sabiamente reforçada com a ótima trilha sonora, com hits da época escolhidos com cuidado. Era fundamental estabelecer um vínculo forte com essa década, e a ambientação foi muito bem feita. Sem falar que o filme faz algumas homenagens aos ícones pop da época, sendo que a principal delas envolve o filme definitivo para o jovem da década de 80: O Clube dos Cinco.

 

 

Estamos diante do melhor filme da franquia Transformers, superando no meu coração o primeiro Transformers, que eu ainda considero o melhor da era Michael Bay na franquia. Bumblebee é melhor porque dá fôlego novo para uma marca que estava bem desgastada e cansada para o grande público, chegando a virar motivo de piada para muita gente. É o Transformers que eu queria ver de novo. É a melhor resposta para a minha pergunta do começo do post.

Por mim, só quero Michael Bay de volta em Transformers se for para ele assumir de uma vez por todas que, para ele, agora só vale a galhofa e o espetaculoso. E quando for para ser um filme sobre Transformers DE VERDADE, podem dispensá-lo e chamar o Travis Knight de novo. Ou qualquer outro diretor que queira tratar essa franquia com a dignidade que ela merece.