É oficial: eu tenho sérios problemas com Bryan Singer.

Queen. Uma das maiores bandas de todos os tempos. Um dos maiores fenômenos musicais da história. Uma mitologia no mundo da música. Singulares. Únicos. Inesquecíveis.

Logo, não é difícil fazer um filme sobre essa banda, certo? Ou melhor, temos material de sobra para fazer um bom filme sobre essas personalidades, especialmente quando olhamos para a vida e obra de Freddie Mercury, correto?

Mais ou menos.

Bohemian Rhapsody mostra a trajetória do Queen desde o seu início até aquele que foi o último grande ato da banda: o show do Live Aid. Nesse meio do caminho, a narrativa é (obviamente) concentrada em Freddie Mercury, pontuando os seus momentos mais importantes como frontman da banda, ao mesmo tempo em que mostra o desenvolvimento dos principais sucessos, a separação, a revelação de Mercury como portador do vírus da AIDS e a reunião que marca a última vez que esses músicos tocam juntos.

Eu preciso ser justo: eu me diverti com Bohemian Rhapsody. Foi um filme melhor do que os críticos mais ácidos pintaram. Tinha boas sacadas, alguns easter eggs, piadas bem no estilo do humor britânico e um bom nível de produção.

Porém, é um filme que escorrega em pontos considerados críticos. O mais sério desses pontos é não destrinchar os momentos mais polêmicos da vida de Freddie Mercury, algo que explicaria a sua personalidade temperamental, ao mesmo tempo que justificaria a sua genialidade. O filme opta (de forma intencional ou não, e isso eu não consegui definir) por praticamente vilanizar o frontman do Queen, mostrando Freddie apenas como um babaca arrogante e genial.

Por outro lado, os demais integrantes do Queen praticamente desaparecem com o passar do filme. E não falo isso como um simples argumento narrativo: o filme é tão focado na personalidade centralizadora de Freddie Mercury, que os demais integrantes da banda ficam em um segundo plano distante demais.

 

 

Ao mesmo tempo, os demais integrantes do Queen basicamente são vitimizados. Todos se mostram como bonzinhos demais, criando de forma proposital um contraste com a personalidade de Mercury. Sem falar que o discurso indireto que o filme deixa é que Mercury não fez nada sozinho, e que sem eles ele não chegaria a lugar nenhum. Não que isso não seja correto, mas ficou a impressão que tal decisão narrativa foi tomada de forma consciente e por pura conveniência entre os envolvidos (até porque o restante do Queen assina a produção do filme).

Rami Malek foi outra coisa que me incomodou em Bohemian Rhapsody. Por maior que fosse o seu esforço nos trejeitos e maneirismos como Freddie Mercury, por outro lado, o ator pareceu caricata em alguns momentos, sem conseguir exprimir a emoção necessária para determinadas situações. Se bem que isso pode não ser culpa exclusiva dele: o filme todo é bem mediano.

A ausência de conflitos tornam Bohemian Rhapsody um grande filme de fan service. Não há elementos novos sobre Mercury e a banda para aqueles fãs mais viscerais. Não há momentos onde a narrativa decide explorar a personalidade de Mercury, os seus conflitos internos mais inquietantes, as divergências mais enérgicas com os demais membros da banda, o seu comportamento sexual descontrolado, as brigas com seus relacionamentos, a depressão, o consumo de drogas e alcool… tudo isso é mencionado de forma superficial, o que deixa o filme quase sem emoção pela sua narrativa.

E tudo isso tem um culpado: Bryan Singer.

Sim. Agora é oficial. Eu tenho problemas com Bryan Singer.

 

 

Bohemian Rhapsody não é um desastre completo. Ele é um filme que cumpre o seu papel de atender bem aos fãs do Queen. Você fatalmente vai se empolgar com a execução das músicas, pois esse é o grande trunfo do filme. Porém, até aí, não é mérito da narrativa: estamos falando “apenas” de algumas das músicas mais fodas da história da humanidade. Logo, por esse motivo, o filme já ganha grande apelo popular.

Porém, é uma narrativa empobrecida, que não acrescenta nada de novo, que não ousa em nenhum momento, e que caminha no lugar comum e seguro o tempo todo, sem se arriscar. E entendo que, para falar do Queen e de Freddie Mercury, não podemos cair no lugar comum. É preciso explorar a fundo toda essa experiência musical e de vida, e escancarar uma história que, por si, é fascinante. Mas que poderia alcançar uma complexidade maior, entregando uma conexão pessoal ainda maior.

Mas… não.

Bryan Singer se limitou a colocar Freddie Mercury como um babaca que alcançou a divindade. E isso não é certo.