Bingo: O Rei das Manhãs

Qual é a credibilidade do palhaço?

De tempos em tempos, nos deparamos com essa pergunta. Seja na política, no cotidiano, na mídia e, principalmente, no mundo do entretenimento. A pergunta vem de tempos remotos, quando as expressões de arte vinham muito mais da espontaneidade, da necessidade de fazer o que vem de dentro ser ouvido por todos ao nosso redor. Historicamente, o palhaço é um personagem que consegue extrair o melhor de dentro das pessoas em forma de risadas. Ao mesmo tempo, é um contador de mentiras sinceras. Aliás, o palhaço mente tão bem, que mente para si mesmo.

Pois ri quando quer chorar em muitas oportunidades.

Bingo: O Rei das Manhãs mostra um dos capítulos mais interessantes da TV brasileira. Mostra a história de um personagem que tenho conexão pessoal com ele. Sim, meus jovens… eu amava o Bozo. Aliás, amo até hoje. É um personagem que me despertou para o lúdico durante a infância. Entregou alegria de moleque com molecagens. Quebrou barreiras, promoveu rupturas e pontos de inflexão na TV. Derrotou a Globo.

Aliás, Arlindo Barreto foi gênio do seu jeito. Transformou um personagem iminentemente norte-americano em um ídolo das crianças brasileiras. Trouxe identidade nacional a um formato completamente engessado e importado dos norte-americanos. A então TVS (depois, SBT) de Silvio Santos teve a sacada genial de comprar os formatos que faziam sucesso nos Estados Unidos e implantar os programas por aqui. Nenhum canal de TV havia tentado isso. Tudo bem, muitos podem dizer que a tática acabava com a criatividade das produções nacionais. Mas fato é que a TVS abrasileirou a forma norte-americana de fazer TV (apesar dos promos do canal serem uma cópia quase literal dos promos da NBC, mas… deixa quieto).

 

 

Mas… voltemos a falar de Bingo. Ou de Bozo, como você preferir.

Obviamente, o nome Bozo não poderia ser utilizado no longa, por conta de problemas com os direitos autorais. Mesmo assim, quem conhece a história (ou parte dela), ou vivenciou tudo aquilo como um telespectador fatalmente vai identificar todos os elementos principais. Vai reconhecer os momentos mais importantes, e entender por que o caminho de Arlindo tomou o rumo que tomou.

Porem, antes de tudo acontecer… ele fez mágica! Mesmo sendo um palhaço.

Revolucionou um formato que já estava pronto. Um formato importado, que ele sabia que não funcionaria. Foi contra tudo e contra todos para mostrar que ele sabia o que as crianças queriam. Porque ele tinha um filho. Porque seu filho tinha colegas. Nesse instante, a credibilidade do palhaço é colocada à prova. Ele é testado para mostrar seu valor. E mostra. Enxerga a molecagem das crianças para fazer molecagem PARA as crianças. Fez o que a Globo jamais teria coragem de fazer: ofereceu um mundo mais “pé no chão” para uma criançada que, hoje, domina o mundo.

Arlindo não mediu esforços para aprender a fazer as crianças sorrirem. Foi na raiz da palhaçada: o circo. Aprendeu com aqueles que faziam rir das bobagens da vida. As coisas simples, que vem do coração. Se inspirou naqueles que entendiam o que era fazer a criança brasileira sorrir apenas com um piada simples. Um tropeção. Uma torta na cara. Uma arte bem aprontada. Sabe, quando vemos isso, vemos uma verdadeira fábrica de sonhos aparecer diante dos nossos olhos. E esse é um grande ponto positivo de Bingo: O Rei das Manhãs.

 

 

Conceitualmente, o filme é ótimo. Uma fotografia imersiva, que reflete os sentimentos e aspirações dos personagens centrais de cada cena, com cenários mais claros ou escuros dependendo das emoções refletidas. Além disso, a recriação de São Paulo por computador dá um toque nostálgico especial ao longa. Até o Mappin foi recriado, e edificações da região do centro da capital paulista foram refeitos, para ambientar melhor o espectador à época dos acontecimentos. Sem falar na estética de pós-produção, que foi da imagem em formato 4:3 nas cenas que pediam isso até o efeito de tracking dos antigos aparelhos de videocassete. Até as legendas para o inglês foram bem cuidadas, com uma aparência semelhante aos filmes da década de 1980.

O trabalho de ambientação fica ainda mais completo com a trilha sonora escolhida para o longa. Ela ajuda a dar ritmo aos acontecimentos, funcionando como um termômetro positivo para o filme. As canções escolhidas coincidem com o período de tempo em que Arlindo atuou como Bozo, e algumas delas se encaixando perfeitamente com os eventos envolvendo o nosso protagonista. Além disso, as propostas de metáforas visuais para descrever o que se passa pela cabeça do protagonista estabelece um vínculo emocional maior com o personagem, e mesmo você testemunhando tudo o que ele faz de errado, você tem o desejo de querer ver ele acertando. Torce para que ele se dê bem no final.

O roteiro do filme é intuitivo, algo que não prejudica nesse caso. Não é um filme que cansa, ou que você tem vontade de ficar olhando para o relógio o tempo todo. É uma história que te conquista de imediato, mostrando as aspirações e dramas dos envolvidos, onde você compra todas essas propostas e anseios, já que todos eles apresentam a sua carisma singular. É claro que ajuda muito ter um elenco competente e de qualidade, onde as interpretações estão equilibradas, em um ótimo trabalho de equipe. E… sim… foi muito bom ver Domingos Montagner de novo em cena. #saudades

 

 

Bingo: O Rei das Manhãs é um dos melhores filmes de 2017. Me surpreendeu e muito, ficando acima das minhas expectativas. Me trouxe o sentimento de nostalgia pelo lado bom. Acho que o filme não chega para acabar com a carreira de Arlindo, ou até mesmo desmistificar o palhaço Bozo diante dos olhos dos adultos que viram o que foi esse carismático personagem dos anos 80. Mostra sim a história de um homem que lutou para ter tudo, até em nome do filho dele, mas se vê na iminência de atender aos prazeres mundanos para aliviar suas dores internas… ou para se silenciar diante de um contrato que o prendia no anonimato.

No final das contas, vemos um processo doloroso de perda de identidade, que o protagonista luta contra até o final. Mas é algo inevitável quando nos vemos perdidos, sem as pessoas que mais amamos ao nosso lado. Nesse instante, fechamos os olhos e ficamos na esperança que algo aconteça. Um milagre que só pode ser produzido por nós mesmos.

Eu poderia ter saído do cinema decepcionado, já que vi um dos meus heróis de infância sendo completamente desconstruído em um filme de quase duas horas. Poderia começar a pensar na possibilidade de não mais revisitar o passado dos meus ídolos. Mas… ainda bem que compreendo que “todo mundo tem um passado, todo mundo erra”. Saí do cinema com o coração cheio de alegria. Por ver um ótimo filme. Por ver uma história muito interessante. Por revisar minhas memórias do passado.

E, de novo, eu pergunto: …qual é a credibilidade do palhaço?