TheWonderYears

Janeiro de 1988. Logo após mais uma emocionante edição do Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano da NFL, a ABC decidiu estrear uma nova comédia, que se destacaria por ser uma experiência nostálgica e inesquecível. Não só como uma simples manobra para capitalizar em cima da maior audiência do ano, mas principalmente, porque o canal sabia que aquela nova série tinha tudo para dar certo. The Wonder Years estreou. E entrou para a história.

Com a chegada da Summer Season nos Estados Unidos, eu aproveito esse tempo de “férias” das séries para rever algumas das séries da minha vida. Nesse caso, Anos Incríveis vai além disso: ela molda meu caráter. Vi a série pela primeira vez na década de 1990, pela TV Cultura, e criei afinidade com a produção de imediato, principalmente pela conexão com o protagonista, Kevin Arnold, uma vez que também sou filho caçula de minha família. Porém, com o passar do tempo, vi que não era só isso que me unia à produção.

Para contextualizar a importância da série, The Wonder Years estreou exatamente 20 anos depois do período considerado como um dos mais impactantes da história dos Estados Unidos no que se refere à sua cultura, política, e estilo de vida. Entre 1968 e 1973, a vida de Kevin é contada por ele mesmo, hoje um adulto que faz uma reflexão de como ele via o mundo ao seu redor, e como hoje ele compreende e até saboreia os fatos e acontecimentos do passado. Não era um conceito inédito na TV, mas foi feito de forma impecavelmente bem feita.

Depois que estreou, o episódio piloto de Anos Incríveis era tão comentado na mídia quanto o Super Bowl, que aconteceu no mesmo dia. A série foi considerada por críticos na época como algo revolucionário na TV norte-americana, não só pela ambientação e revisão de fatos históricos para os norte-americanos, mas principalmente pela forma como esses fatos são narrados e apresentados ao telespectador. E, de fato, independente do tempo que você nasceu: se você tem o mínimo de sensibilidade, vai se emocionar com a série.

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Pode parecer bobo e trivial ver a história de três crianças que estão entrando na adolescência. Em alguns momentos, o que você chama de bobo, eu chamo de “inocente”. Ou vai me dizer que você era o f*dão desde os 12 anos de idade? Aliás, muito provavelmente, você não é o f*dão de sua vida HOJE, NESSE MOMENTO. Logo, reveja os seus conceitos. Enfim, todo esse período conflitante na vida da maioria das pessoas é retratado de uma forma única e apaixonante.

Você se apega ao pai rabugento, mas presente. Você se importa com uma mãe que vê à frente do seu tempo. Você se diverte com o irmão mais velho pentelho. Você entende a irmã mais velha metida à hippie. Você entende porque o melhor amigo de Kevin é um pamonha asmático (senão, não teria graça). E algumas vezes não entende porque Kevin esnobou Winnie por tantas vezes. E se importa com tudo isso.

Mas isso ainda não é o mais importante de Anos Incríveis.

O grande legado da série é traçar um paralelo sobre tudo o que acontece no dia a dia de uma família qualquer, comum, que pode existir em qualquer canto do planeta, e adicionar a reflexão adulta diante dessa ótica infanto-juvenil (depois juvenil, indo para a idade adulta) para compreender como a vida é, ou porque aqueles acontecimentos aconteceram daquele jeito.

Vai muito além disso. The Wonder Years é uma das séries mais bem escritas de todos os tempos. A série é um dos claros exemplos de algo que é feito com muito amor e entrega de todos os envolvidos. Fred Savage foi indicado ao Emmy de 1988 com apenas 13 anos de idade por dar vida ao inocente, porém, perspicaz Kevin Arnold. A série só precisou de apenas seis episódios na primeira temporada para levar o Emmy Awards 1998 de melhor série de comédia, desbancando aquela que era considerada a melhor comédia da época, The Golden Girls (NBC).

Mas o que realmente faz Anos Incríveis ser uma das séries que formou o meu caráter como ser humano vivente no planeta Terra dito racional é seu texto. Por muitas vezes ao rever a série nesse momento, eu me pego refletindo sobre todas as reflexões do adulto Kevin, me transportando para o meu passado. Vejo como mudamos ao longo do tempo a nossa forma de ver o mundo. Refletimos em tudo aquilo que já passou, e como foi bom viver aquele tempo.

Os 34 anos de idade já me oferecem as tais memórias. Aquelas que cultivamos dos melhores momentos de nossas vidas, que por muitas vezes ignoramos pela pouca maturidade, ou pela inocência. Deixamos passar verdades incomensuráveis sobre nós mesmos, que só nos damos conta que elas existiam quando chegamos à vida adulta. Desperdiçamos grandes oportunidades de vivenciar alegrias, ou de valorizar os ensinamentos daqueles seres mais amados, que hoje não estão por perto.

Anos Incríveis produz esses e outros efeitos em mim. Para mim, uma grande série precisa fazer isso: mexer de forma íntima com os mais profundos sentimentos, e agregar pequenas doses de ensinamentos para a vida. Mesmo após 25 anos de sua estreia, a série segue sendo atual, oferecendo entretenimento para todas as idades. E o mais importante: segue instigando aqueles que conseguem compreender quando uma obra televisiva ultrapassa o simples lugar comum de divertir, alcançando o patamar de contribuir decisivamente para que o telespectador reflita sobre o que foi apresentado.

Hoje, fico feliz por poder rever essa série com minha esposa. Fico feliz por ter a chance de reaprender valiosas lições com uma série de TV. E digo, sem medo de errar: é uma das melhores séries de todos os tempos.