A torre negra

Desde o surgimento de Carrie (1973), Stephen King é considerado um mestre indiscutível do terror novelístico contemporâneo. Considerando sua carreira prolífica, não é de se estranhar que ele esteja na alça de mira de estúdios e produtoras cinematográficas.

Vários livros de King foram adaptados ao cinema, mas a sensação de polarização em uma visualização superficial à sua obra é algo perceptível. E o resultado disso é uma série de filmes que fatalmente serão duramente criticados. Algo absolutamente normal, quando olhamos para a diversidade de títulos.

Infelizmente, A Torre Negra, que talvez seja a adaptação mais ambiciosa de uma obra de King, é péssimo. Um pacote de desastres, mesmo contando com todos os ingredientes necessários para que, na teoria, ele se transformasse em um megahit.

Material original, atores de renome, um realizador com certa reputação e um orçamento de US$ 60 milhões (mais US$ 6 milhões extras de refilmagem) que resultaram em um serviço horroroso, que reforça a teoria que dinheiro não traz qualidade.

 

 

É impossível não esquecer boa parte de um filme sofrível. Os motivos desse ser um dos piores filmes de 2017 não são poucos, mas passam principalmente pela condensação do vasto universo da saga literária em pouco mais de 90 minutos.

Os oito volumes que narram as aventuras de Roland Deschain mostram um complexo mundo onde no filme tudo foi indesejavelmente simplificado ao extremo pelo diretor Nikolaj Arcel e pelo roteirista Akiva Goldsman. Tudo isso se traduziu em um imperial aborrecimento e total falta de interesse diante da ausência de um motivo que nos coloque dentro daquele cenário, e que desperte nossa empatia diante dos personagens e dos seus argumentos.

Um exemplo simples: O Senhor dos Anéis, reconhecida fonte de inspiração para Stephen King, tem três partes fundamentais. Imagine se Peter Jackson decidisse condensar tudo em um único filme com apenas 90 minutos de duração.

Tá, eu sei que os chatos vão dizer que A Torre Negra tem planos de se tornar uma franquia. Mesmo assim…

 

 

Arcel tenta fazer mágica, fazendo com que todos os espectadores engulam à fórceps tudo o que é jogado na cara, sem dar tempo de perguntarmos quem são aquelas pessoas, ou simplesmente o que existe dentro da torre para ela ser um personagem essencial no filme.

Quem não conhece nada da história, fica boiando. Não conhecemos nem as motivações dos eternos rivais, que na verdade são dois clichês andantes que não nos importamos em nada, e só servem para motivar nossas várias olhadas no relógio para ver quanto tempo falta para a tortura acabar.

A Torre Negra é um autêntico desastre estrutural e narrativo, que sofre de cada um dos males endêmicos do (ruim) blockbuster contemporâneo.

Além do roteiro insípido, que cai no lugar comum o tempo todo, sua inspiração genérica mostra que os envolvidos não sabiam direito o que estava fazendo. A montagem é utilizada de forma sem vergonha, apenas para fazer a história fluir de forma minimamente compreensível. O abuso dos flashbacks não é o suficiente para fechar os enormes furos de argumento, e é apena sum pretexto dramático insuficiente para a trama.

O tratamento de imagem se vale de uma paleta de cores genérica e sem inspiração. Os efeitos digitais são eficientes, mas pouco destacáveis, e o design de produção é esquecível, com criaturas, cenários e demais elementos resgatando o espírito Western do material original que só servem como desculpa para agradecermos por ser um filme que dura apenas 90 minutos.

 

 

Podemos encontrar dois tipos de público que queiram assistir A Torre Negra, e é provável que os dois grupos saiam do cinema com um gosto amargo na boca.

O primeiro grupo é formado por quem não conhece as obras de King, e vai sofrer as consequências de se exporem a um produto genérico e dificilmente compreensível, que nos obriga a digerir tudo o que é oferecido sem entregar qualquer tipo de explicação.

O segundo grupo é composto pelos fãs devotos de Stephen King, que vão achar o filme uma profanação de sua saga, onde nada vai deixá-los satisfeitos.

Seja de que lado você estará, vá ao cinema ciente de que A Torre Negra tem enormes chances de te aborrecer. Ou pelo menos espere que a série de TV baseada nessa mesma história seja melhor.