O quanto você é capaz de lutar pelos seus sonhos?

Quando eu li o plot de A Livraria, filme britânico de 2018, rapidamente me interessei pela história da viúva que gostaria de estabelecer em uma pequena cidade do interior do Reino Unido uma livraria. Para a maioria das pessoas, essa poderia ser uma história banal e comum, sem grandes atrativos. Mas para mim, soou bem interessante o fato da cidade inteira considerar a livraria uma ideia desnecessária e transgressora.

Ou seja, naquele momento, estava estabelecido o conflito que daria o tom do filme. As diferentes e conflituosas visões de mundo seriam determinantes para tirar essa história do lugar comum. Aliás, quando eu digo “diferentes visões de mundo”, eu não estou falando apenas da metafórica ideia de pensamentos diferentes. O filme aposta muito nas expressões faciais dos seus personagens, e nos olhares que falam mais do que mil palavras.

 

 

Quando a forasteira decide que vai inaugurar uma livraria naquela pequena cidade porque os livros são a grande paixão de sua vida, ela mal poderia imaginar que enfrentaria a rejeição de sua ideia por parte de toda uma cidade. Apesar da nossa protagonista jamais ver o mundo dividido entre caçadores e caçados (ou predadores e vítimas), a sua iniciativa resultaria em uma verdadeira perseguição contra o seu empreendimento, de forma implacável.

O mais curioso de tudo isso é que até mesmo aquelas pessoas que estavam ao seu lado deixavam muito claro para ela que eram contrários à livraria ou ao hábito de ler livros. A impressão que o filme deixa é que a dona da livraria vivia em um universo completamente paralelo, ou que só ela estava fora da sua realidade.

Na verdade, quase toda a cidade aderia a ideia que uma livraria não era necessária. Mesmo porque quase todo mundo não lia livros naquela cidade. Com exceção de uma única pessoa: um senhor, que nunca saía de casa, justamente por passar os seus dias lendo livros. O grande aliado da nossa protagonista era um apaixonado pela leitura, e se comportava basicamente como se fosse a Coca-Cola no meio do deserto de ignorância que se apresentava através do entorno estabelecido.

A realidade apresentada em A Livraria não é tão diferente de muitas cidades brasileiras. De um modo geral, muitos brasileiros acreditam que o hábito de leitura pode ser algo absolutamente descartável, e que a tia do Zap Zap é mais relevante que Érico Veríssimo. Ou seja, a arte imitou a vida (de novo).

 

 

Mas o mais interessante do filme são as narrativas paralelas e quase subliminares que o mesmo apresenta. Lembra do lance das “diferentes visões” que eu citei no começo desse texto? Isso se torna efetivo pelos diferentes olhares dos envolvidos. Olhares e expressões faciais são detalhes muito evidentes e presentes na narrativa dessa história, onde cada personagem deixa claro o que pensa e sente, mas sem explicitar isso em palavras ou atitudes. Tudo é dito pelo olhar.

Além disso, algumas mensagens que A Livraria deixa são bem claras e válidas para qualquer pessoa. Por exemplo, em como o hábito de leitura pode abrir horizontes e reformular perspectivas de vida. Em como a literatura pode transformar pessoas e modificar para sempre destinos que normalmente estariam limitados pelo entorno. Em o quão transgressora pode ser um livro para alguém ou para uma comunidade, e como isso era visto no final da década de 1950, mostrando contrastes e semelhanças com as visões de mundo do coletivo em 2018.

Mas a lição mais preciosa que A Livraria deixa a espectador é: nunca desista dos seus sonhos, mesmo quando o coletivo tenta roubar esses sonhos de você.

O filme mostra como a nossa protagonista buscou ser resiliente para perseguir e persistir o sonho de prosperar com a livraria que ela tanto amava. Por ser um sonho tão real e tangível, ela se muniu de coragem para não se importar com críticas, perseguições e sacanagens do entorno para continuar, sem esmorecer. Ela mesma não sabia que tinha tanta coragem para enfrentar tudo o que apareceu em sua frente, mas o seu desejo era tão maior e mais forte, que ela o fez, sem se dar conta que era corajosa o suficiente para avançar.

 

 

Tecnicamente, A Livraria é um bom filme. Tem um roteiro bem estruturado, e apesar de sua narrativa lenta, não é uma história cansativa. Os personagens são interessantes e carismáticos, e o texto recebe a famosa ironia britânica na medida certa. Para os olhares mais atentos, o final é previsível. Mesmo assim, o filme consegue se conduzir bem. Uma ótima fotografia, excelente ambientação, cenários belíssimos e uma trilha sonora envolvente completam o pacote positivo do longa.

A Livraria é um filme adulto, maduro, leve, sensível, denso e tocante. Para aqueles que sempre procuram um filme que acrescente algo edificante para as suas vidas, é uma excelente pedida. Assista ao longa de coração aberto. Aberto inclusive para as lições que você pode aprender com a viúva que apenas queria viver o sonho de ter uma livraria e, assim, oferecer a genialidade de outras pessoas para quem estivesse disposto a aprender tais lições.