Um inteligente jogo de poder e sedução.

A Favorita pode não ser aquele filme que empolgue você logo de cara, inclusive depois que você lê o plot principal. Mas depois de acompanhar toda a história com a devida atenção que a mesma merece, você percebe que está diante de um filme que surpreende em apresentar uma trama que poderia se encaixar perfeitamente nos dias de hoje, com diferentes personagens políticos.

Não é a primeira vez que vemos a amante assumir as rédeas do poder. Mas talvez seja esta a primeira vez que vemos isso de forma tão inteligente e instigante. O caso da Rainha Ana da Grã-Bretanha (Olivia Colman) com Sarah Churchill, Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) não é algo inédito. Pode ser inédito para a maioria saber que elas tinham um caso. Mas a influência de uma sobre a outra é algo que se repetiu ao longo da história da humanidade por diversas vezes.

 

 

E isso é mais ou menos inevitável. A Rainha tem uma personalidade fraca e insegura, especialmente nos aspectos afetivos. Sua secretária/amante é muito mais decidida, e é quem efetivamente comanda o reino, influenciando diretamente nas decisões.

O caldo começa a entornar quando chega no reino Abigail Masham, Baroness Masham (Emma Stone), prima de Sarah, que usa de sua inteligência/carisma/engenharia social para conquistar a atenção da Rainha e voltar ao posto de influente dentro de uma monarquia, papel que ela já exerceu, mais que perdeu por conta da decadência de sua família.

O filme mostra o grande jogo de xadrez em nome de interesses entre Sarah e Abigail, onde as duas usam a Rainha de peão de manobra para alcançar os seus respetivos objetivos.

Ah, sim… e os homens são completos coadjuvantes nessa história.

 

 

E essa é a primeira coisa positiva de A Favorita: uma história onde as mulheres controlam todas as ações, assumindo um completo protagonismo. Inclusive na questão da sexualidade, e nem quero focar tanto na influência da questão sexual no duelo de poder entre Abigail e Sarah. Falo também das tentativas dos homens em estabelecer o seu domínio sobre as mulheres nesse aspecto também, e todos eles acabam fracassados na tentativa.

Desde joelhadas nas partes íntimas até uma masturbação sem sequer ter um contato visual, as mulheres acabam se impondo, não sendo submissas aos homens. Principalmente Abigail, apesar dela mesma ter consciência sobre a sua condição naquele reino.

Outro ponto muito positivo do filme foi apresentar os fatos como eles são, mostrando como a sociedade aristocrata da época era. O uso de linguagem adulta é algo que dá autenticidade para a narrativa e, mesmo assim, tudo é tratado no filme de forma relativamente sutil, sem chocar visualmente.

Até porque o principal foco dessa narrativa é o jogo de inteligência entre as duas favoritas da Rainha.

 

 

A Favorita mostra como as mulheres podem ser inteligentes, manipuladoras, astutas e empoderadas, sem precisar fazer muita força. As agressões entre as primas aconteciam com diplomacia, mas com um ar de agressividade perceptível. Não dá para passar indiferente diante do comportamento dessas mulheres perigosas. Da mesma forma que é gritante o sofrimento físico e emocional da Rainha, que luta para se libertar da dependência afetiva das duas.

O resultado é um filme envolvente, mesmo com uma narrativa mais lenta. Aliás, é fundamental que esse filme apresente uma velocidade mais pausada para contar os seus acontecimentos, pois o nível de detalhes que o longa entrega é para ser apreciado, quase degustado lentamente.

É uma produção com um nível de riqueza de detalhes impressionante, onde a imersão é absoluta. Você é transportado para o século XVIII sem maiores dificuldades, ao mesmo tempo que, de forma bem humorada, detectamos referências culturais típicas do nosso tempo. O filme mereceu todas as indicações técnicas para o Oscar 2019, pois esse é um trabalho primoroso.

Por fim, o trio de protagonistas – Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone – matam a pau nesse filme, e receberam indicações ao Oscar 2019 de forma merecida. Um trio muito equilibrado e talentoso, onde cada uma mostrou o seu melhor com as suas respectivas personagens e diferentes personalidades. Você acaba criando empatia com cada uma delas, e por carregarem a história o tempo todo, elas deixam um sinal de identidade muito forte para quem assiste.

 

 

A Favorita não é o meu filme favorito para Melhor Filme no Oscar 2019. Histórias como Green Book, Infiltrado Na Klan e Roma contam com mais chances de vencer nessa categoria, na minha opinião. Porém, não deixa de ser um ótimo filme. É filme que envolve e faz você pensar sobre os paralelos estabelecidos no comportamento do passado e do presente. Nos faz entender que o jogo de manipulação pelo poder sempre existiu. Só mudaram os personagens.