O que você é capaz de fazer por amor? E do que você abre mão por amor?

A Esposa é aquele tipo de filme que não é feito para qualquer um. Por exemplo, a maioria das pessoas que esperam ansiosamente pela estreia de Vingadores: Ultimato muito provavelmente não vão chegar nem perto desse filme. Mas outra parcela de cinéfilos que conseguem apreciar as diferentes expressões de arte e uma maior variedade e complexidade de tramas conseguem enxergar no filme protagonizado por Glenn Close um trabalho espetacular, em vários aspectos.

O filme é baseado no livro escrito por Meg Wolitzer de mesmo nome, e conta a história de Joan (Glenn Close), esposa de um escritor que vai receber o Prêmio Nobel de literatura em Estocolmo (Suécia). Durante a viagem, ela faz uma profunda reflexão sobre a sua vida, e conclui que ao longo de 40 anos de casamento, ela sacrificou o seu talento, sonhos e ambições para apoiar o marido em sua carreira literária.

A honraria para o marido não traz a felicidade para Joan. Traz o desgosto, uma vez que ao revisar o passado ela identifica claramente o que ela deixou para trás, incluindo o que abriu mão para que o marido brilhasse. Esse conflito pessoal se acentua quando ela recebe o assédio de um jornalista que quer a todo custo escrever uma biografia não autorizada do seu marido, buscando os detalhes mais conturbados de sua vida.

O filme mostra os conflitos internos de Joan em dar um passo decisivo em sua vida, ou em manter o seu status quo de esposa de um dos nomes mais importantes da literatura em seu tempo.

 

 

Na minha modesta opinião, pelo menos 90% das mulheres/esposas que eu conheço deveriam assistir A Esposa por obrigação. A história retrata em vários aspectos a situação da maioria das mulheres que nós conhecemos, que acabam se anulando por completo para que o marido consiga brilhar e concretizar as suas realizações profissionais. A submissão que Joan passa pelas mãos do marido (e que atinge a família toda, que tem voz vetada e comportamentos moldados apenas para que ele passe a imagem de homem perfeito com família perfeita para toda a sociedade) é cruel e absurda, e tal comportamento se repete frequentemente em casamentos e relacionamentos duradouros ao redor do mundo.

Mas o filme faz isso de forma singular, e apostando em um recurso simples, mas muito eficiente para transmitir as diversas emoções e sentimentos dos personagens. É fácil identificar que as câmeras estrategicamente se posicionam nos rostos dos protagonistas na maior parte do tempo do filme, e nos momentos mais importantes da trama, onde as emoções estão mais evidentes.

E é aqui que a competência mais que comprovada de Glenn Close aparece, de forma brilhante. De forma sutil, quase enigmática, mas clara para qualquer pessoa que tem um olhar mais observador. A forma como Glenn transmite as suas emoções e sentimentos no olhar e nas expressões faciais é algo impressionante, e para poucas atrizes em Hollywood nesse momento. Dá para sentir o peso de seus sentimentos em cada cena, incluindo a suavidade nos momentos de descontração e a tristeza profunda e desespero nos cenários mais conflitantes.

Apesar de uma narrativa mais lenta, A Esposa é um filme que não cansa. É um roteiro envolvente, com diálogos fortes e objetivos. Uma fotografia equilibrada para não deixar você com sono, mas também que mostra vários detalhes de uma produção muito bem feita.

 

 

Mas o grande trunfo de A Esposa é a história em si. São personagens com personalidades muito bem definidas, e cada um deles, do seu jeito, consegue envolver a ponto de prender ainda mais o espectador na narrativa do filme. Mesmo com os seus problemas e desvios de caráter, todos os personagens são carismáticos e facilmente identificáveis nas suas aspirações e objetivos. E não são personagens caricatas. É muito fácil você reconhecer pessoas que você conhece ou situações de vida que você já soube ou testemunhou em todos os personagens envolvidos.

Pode parecer precipitado da minha parte, mas não é exagero dizer que Glenn Close é uma fortíssima candidata ao Oscar de Melhor Atriz. Fatalmente A Esposa será indicado a Melhor Filme, pelo equilíbrio apresentado ao longo de 100 minutos de filme. E principalmente, pelas duras lições que deixa, especialmente para as mulheres que precisam acordar e se libertar das amarras estabelecidas pelo fim da sua auto-estima, algo que normalmente os homens e uma sociedade machista acabam impondo.

A Esposa vai na contra-mão da proposta de ser um exemplo de como deve ser a esposa ideal. Ele mostra como deve ser uma mulher questionadora, com iniciativa em mudar tudo em sua vida, mesmo que em idade avançada. Muitos homens devem terminar o filme constrangidos por se reconhecerem em Joe, marido de Joan. Mas os homens inteligentes ainda terão tempo de fazer uma releitura dessas atitudes, e mudar alguma coisa em suas personalidades. Antes que seja tarde demais.

Já os homens burros, machistas, misóginos e ignorantes vão achar esse filme uma porcaria. O que não é uma surpresa. É preciso ser inteligente para perceber o quão genial é esse filme.