“Precisamos ser tocados por quem amamos quase tanto quanto do ar que respiramos.”

Quando você vê o plot principal de A Cinco Passos de Você (Five Feet Apart, 2019), e toma ciência que o filme é baseado em um romance literário para adolescentes, a primeira coisa que passa pela sua cabeça é: “eu já vi essa história antes, e ela se chama A Culpa é das Estrelas”. E é natural sentir um desânimo quando esse tipo de pensamento bate. Porém, um dos benefícios de ir ao cinema sem qualquer tipo de informação sobre a história além do próprio trailer, e a expectativa por uma história pelo menos diferente é baixa, você recebe como recompensa o fator surpresa. E esse é um filme que pode surpreender você, caso você esteja aberto para a experiência como um todo.

Não vou mentir. Não é uma história inovadora no seu plot principal, e isso pode espantar algumas pessoas que estão cansadas de romances adolescentes impossíveis e uma eventual romantização de doenças graves e terminais. Eu então peço que você resista à pré-concepção estabelecida e vá ao cinema para ver o mesmo tema inicial tomar contornos diferentes, em uma narrativa igualmente emocional, mas consciente de suas funções e objetivos junto ao público.

A Cinco Passos de Você aborda o tema da fibrose cística (algo que, convenhamos, a maioria das pessoas não sabe o que é) como um plano de fundo que acaba ganhando o protagonismo, e não apenas como elemento narrativo ou complicador para o amor impossível do casal protagonista. O filme se encarrega em apresentar a doença de forma palpável para a audiência, e isso é fundamental para que você acabe criando empatia pelos personagens.

 

 

Outro ponto muito positivo do filme é entregar personagens com várias camadas emocionais e psicológicas. Apresentar as diferentes motivações e dramas de cada um deles faz com que nem eles, nem a história que eles contam seja algo raso e vazio. As camadas desses personagens vão se revelando, criando o envolvimento desejado. E não estou falando aqui que criamos empatia por eles pelo sentimento de pena ou eventual vitimização por causa da frágil situação de saúde de cada um deles. Mas simplesmente pela coragem de tentarem assumir para si uma vida normal, como adolescentes normais, mas cientes de suas limitações, e lidando tentar com elas, de forma positiva ou negativa.

Apesar de ser uma narrativa relativamente lenta, esse é um filme que não cansa. Pelo natural envolvimento que a trama desperta, você passa pelas quase 2 horas de filme sem maiores dificuldades. De novo, eu não li o livro, logo, eu não sei o quanto da obra passou para o livro. Mas de tudo o que consegui absorver da experiência, o filme é bem sucedido no seu roteiro. Tudo bem alinhado e contado de forma que prenda o espectador. Inclusive por causa de dois plot twists bem interessantes que o filme entrega, ‘enganando’ quem está assistindo ao sair do lugar comum, o que é sempre ótimo para quem gosta de histórias bem estruturadas.

A Cinco Passos de Você pode até parecer clichê e cair no lugar comum quando apresenta um drama com romance tipicamente shakespeariano, algo que já foi apresentado tantas vezes no cinema, e que pode ser o tipo de história batida para muita gente. Porém, conta essa história com inteligência e envolvimento. Tudo o que eu queria era ver um bom filme que mexesse comigo por dentro, e esse filme conseguiu alcançar esse objetivo em mim. Quem tiver a sensibilidade de abraçar essa história como algo para si, se envolver e se importar com as narrativas dos seus personagens, e se identificar com a principal mensagem que o filme quer entregar, com certeza vai receber uma experiência plena e gratificante.

É o filme que deixa a tal lição de moral, ou moral da história, como tantos outros. Lembra que viver é algo que precisa ser feito aqui, agora, no hoje, e abraçando todas as suas possibilidades. E é preciso fazer isso bem rápido, pois não temos muito tempo. Já outras pessoas tem ainda menos tempo que nós, e precisam viver tudo o que precisam com ainda mais intensidade.

Por fim, o conceito de “tocar” como necessidade física é abordado o tempo todo no filme. Uma das primeiras frases do filme fala sobre essa necessidade de tocar e sermos tocados, mas com o avançar da história, fica claro que até mesmo pela força das circunstâncias o tocar passa a ser algo secundário. Quero dizer, diante de tantas perdas e derrotas vividas pelos personagens principais, é óbvio que tudo o que eles mais desejavam era receber um abraço de apoio vindo deles mesmos. Porém, cada um deles compreende que o apoio mútuo, a solidariedade e a perspectiva positiva diante de uma chance mínima de tudo dar certo pode resultar em um tipo diferente de “tocar”: que é quando tocamos a essência daquele ser. Sua alma. Seu coração. Uma forma única de tocar as pessoas. Tão importante quanto um abraço ou segurar uma mão.

 

 

A Cinco Passos de Você fala sobre o quão difícil é conviver com a fibrose cística, mas também lembra para aqueles que não precisam conviver com a doença o quão importante é sentir as pessoas que nós amamos. Que abraçar é tão importante que respirar o próprio ar. Nos faz pensar que, em tempos onde estamos mais individualistas e preocupados com as nossas interações com as redes sociais (e isso porque os protagonistas do filme precisam usar a tecnologia para agilizar as suas comunicações, mas porque são obrigados a fazer isso pelas características da doença), a ausência da proximidade do próximo por causa de uma doença pode ser uma das mais dolorosas prisões que qualquer pessoa pode enfrentar.

Mais uma vez, eu peço: deixe de lado a pré-concepção que você pode trazer dentro de si por acreditar que já viu essa história em A Culpa é das Estrelas e, por isso, já sabe como tudo termina. Você não sabe como termina. E justamente o não saber como essa história termina é o seu prêmio por superar o preconceito.

Filme mais do que recomendado. Um dos melhores de 2019 até agora.