Quando me convidaram para assistir ao filme A Bela da Tarde (1967), eu confesso que me senti atraído por um único nome: Catherine Deneuve. Ela é um ícone do cinema, era um padrão de referência e beleza da época, e estava em um filme com uma temática ousada.

E quem me conhece sabe que eu não sou um homem que foge de polêmicas (pelo contrário; estou mais propenso a me envolver em mais polêmicas com o passar do tempo).

Eu fui assistir A Bela da Tarde com boas expectativas. Afinal de contas, o que poderia dar errado em um filme que conta a história de uma mulher casada, cheia de traumas e repressões do passado, que vai buscar na prostituição e na submissão a liberdade sexual que ela tanto procurava

Era um ótimo plot a ser explorado, ainda mais na década de 1960, quando a revolução sexual feminina estava no auge, e o Woodstock mostraria ao mundo o conceito de amor livre (de forma bem torta, pois bem sabemos como isso não funcionou).

Bom, por onde devo começar?

 

 

Eu espero que você, amigo leitor, entenda que até eu procuro entender que é um filme de 1967, ou seja, para a perspectiva do seu tempo, era o máximo de ousadia que poderíamos encontrar. E o filme possui um argumento muito forte ao seu favor: explorar o proibido, ou a camada ética mais sensível de qualquer ser humano.

Não basta a mulher ser uma submissa. Ela tem que se encontrar sexualmente como uma prostituta. E só se sentir completa quando é humilhada ou forçada a fazer sexo com os seus clientes. Ela sente prazer ao se sentir obrigada e humilhada ao ato em si.

E o filme até se mostra conhecedor do terreno onde quer pisar quando naturalmente desperta o instigar na protagonista e no espectador ao questionar claramente como seria uma mulher comum, casada e respeitosa se colocar na posição de fazer sexo com outros homens que ela nem conhece (e com chances enormes de não sentir prazer com isso).

Algo que não iria acontecer com a nossa protagonista, que busca justamente no desconhecido a fonte do êxtase pleno.

Porém, mesmo sendo uma ideia ousada e atraente, e mesmo compreendendo que é um filme que tem mais de 50 anos de existência, é impossível não ignorar para os problemas apresentados por A Bela da Tarde.

E o primeiro problema do filme é justamente o motivo pelo qual eu me interessei por ele: Catherine Deneuve.

 

 

Eu ainda amo essa mulher. Ainda a reconheço como um símbolo sexual, um padrão de beleza e elegância, e sempre terei o maior respeito por ela. Mas nesse filme, me desculpem, mas ela está bem abaixo da crítica. Mesmo. Inexpressiva o filme todo (fazendo a mesma cara em diferentes situações) e em algumas cenas claramente lendo o texto, ela ficou devendo e muito para um papel que exigia muito mais de sua capacidade de interpretação para convencer o espectador que ela realmente vivia uma situação emocional muito conflitante.

A Bela da Tarde também apresenta problemas no seu roteiro. O primeiro terço do filme, que é quando conhecemos a personagem principal, suas aspirações e o início de sua vida como prostituta, até que se desenvolve bem, apesar das tentativas de deixar o espectador meio confuso alternando cenas da realidade com a fantasia da protagonista de forma quase ininterrupta.

Porém, o segundo e o terceiro atos são confusos. O principal argumento do filme, que é o envolvimento da mulher casada com o bandido bad boy com dentes de metal poderia ter começado logo no primeiro ato, e ir se desenvolvendo até o terceiro ato. Dessa forma, poderíamos nos envolver mais com o drama da protagonista, ou ao menos teria uma narrativa bem elaborada e desenvolvida, com maior carga emocional.

Mas… não.

O roteiro decide consolidar a protagonista como a prostituta irresistível durante o segundo ato, e entregar um terceiro ato para os principais conflitos, que tiveram pouco tempo para serem desenvolvidos, e não criam o envolvimento necessário para se empolgar com esse conflito gerado.

Conflito esse que, para os olhos mais atentos, se torna previsível. E em uma sequência final que chega a ser engraçada por causa da obviedade e falta de verossimilidade da situação e das atuações.

 

 

Mas não entendam mal. A Bela da Tarde tem a sua validade. Trata de um tema ousado sim, ainda mais em um tempo onde a mulher tinha um papel submisso na sociedade. Para os olhos mais atentos à proposta primária do filme, ele se torna bem interessante e faz você pensar em como a sociedade se comportava há mais de 50 anos, em como nos comportamos hoje e o quanto evoluímos ou não nessas questões.

Também mostra como naquela época o sexo (e suas várias formas de conduzir ao prazer) ainda era considerado algo tabu na sociedade. Para as mulheres que hoje vivem em situação semelhante, é um filme que pode mexer internamente e até estimular uma profunda reflexão sobre o que estão fazendo com as próprias vidas.

Vá assistir A Bela da Tarde focando mais na ideia geral da trama, que está sim na frente do seu tempo. É uma pena que alguns aspectos de sua execução não funcionaram tão bem. Mas com certeza inspirou a outros a contarem histórias com premissa básica semelhante.