Eu definitivamente não compreendo a cabeça dos irmãos Coen.

A Balada de Buster Scruggs, novo filme de Joel e Ethan Coen, ajudou a colocar a Netflix de vez no cenário de Hollywood, contribuindo com três das 15 indicações que o serviço de streaming recebeu no Oscar 2019. O filme não tem a mesma visibilidade de Roma (que, na minha opinião, vai vencer como melhor filme), mas justamente por contar com os irmãos Coen, atraiu holofotes e olhares quase obrigatórios daqueles que gostam de cinema de qualidade.

Bom, e aqui está as minhas impressões do que acabei de assistir.

A Balada de Buster Scruggs é baseado nas obras All Gold Canyon, de Jack London e The Gal Who Got Rattled, de Stewart Edward White. Dessa forma, os irmãos Coen estabeleceram uma antologia dividida em seis episódios de aproximadamente 20 minutos cada (alguns são mais longos, outros mais curtos), representando cada capítulo dessa antologia.

 

 

Em comum, todos os episódios acontecem no Velho Oeste, retratando os costumes, as filosofias e visões de mundo dos personagens, onde em muitos casos (na verdade, todos eles) acabam esbarrando na morte de alguém. Sempre tem um cadáver em cena, e na maioria dos episódios alguém leva um tiro na cabeça. Até porque os conflitos naquela época eram resolvidos na base do tiro mesmo.

De fato, A Balada de Buster Scruggs foi praticamente um nome aleatório, já que é a primeira história que nos é apresentada. Se os irmãos Coen tivesse escolhido como nome “Seis Contos do Velho Oeste”, estava valendo. Seria até mais adequado diante de tudo o que foi apresentado.

Mas… vamos por partes para dizer o que eu penso desse filme, procurando ser justo com o resultado final apresentado.

Eu nunca fui adepto dos filmes de western. Quando eu era pequeno, eu assisti um ou outro com o meu pai, mas sempre detestei o gênero. Logo, as chances de eu gostar de A Balada de Buster Scruggs eram bem pequenas. E, de fato, a lenta narrativa do filme transformou a minha experiência com ele em uma verdadeira tortura.

O filme até me fez lembrar The Walking Dead, com cenas com minutos de silêncio e contemplação (algo que, sinceramente, desperta em mim o quase incontrolável desejo de suicídio).

 

 

Mas eu entendo perfeitamente que essas características são recursos típicos desse tipo de narrativa e enredo. Na prática, os irmãos Cohen querem prestar uma grande homenagem a um gênero cinematográfico que, no passado, foi muito popular e importante para a indústria norte-americana. E entendo que o grande mérito de A Balada de Buster Scruggs é entregar um resultado que tem tudo para agradar aos fãs desse gênero.

As cenas de externas são belíssimas, com cenários espetaculares. O trabalho de produção foi impecável nesse aspecto, e só por isso acho que já vale aos fãs do gênero se permitirem a assistir o filme. Tudo foi muito bem cuidado, com riqueza de detalhes e deixando para o espectador a experiência mais imersiva possível.

Um ponto positivo de A Balada de Buster Scruggs está no fato do roteiro se valer do humor negro de tempos em tempos para dar personalidade aos seus personagens. Especialmente no caso de Buster Scruggs, que trazia a ironia de sempre ter uma fala otimista e até simpática (já que canta boa parte do tempo), mas ser um assassino implacável quando precisa.

Também vale a pena destacar os bons plot twists que o filme apresenta, especialmente no primeiro dos seis episódios. Justamente aquele que dá o nome ao filme é o que mais chamou a atenção, inclusive na forma em apresentar a proposta geral do filme e dos seus personagens. Foi um dos episódios que mais prendeu a minha atenção, e até achei que todo o filme ia seguir com esse ritmo.

 

 

Ledo engano. A Balada de Buster Scruggs peca em alternar de forma significativa o ritmo de suas histórias, a ponto de você querer dormir em algumas delas pela lentidão de suas narrativas. De novo, eu entendo que são recursos que precisam ser aplicados para um melhor desenvolvimento da história, e que no filme existem várias referências para filmes western clássicos que se valem dessa mesma proposta.

Mas para um cara que já não suporta esse tipo de filme, a experiência é simplesmente torturante. Mas eu não tiro os méritos alcançados pelo longa, e consigo identificar bem o que os irmãos Coen queriam fazer. E a conclusão que eu chego é que sou eu que tenho que entender eles.

No final das contas, A Balada de Buster Scruggs é um bom filme para quem gosta do gênero western. Esse tipo de fã de cinema ficará bem servido, como em poucas vezes esteve nos últimos anos. Já para a maioria dos meros mortais, essa pode ser uma experiência do tipo “uma vez para nunca mais”.

Eu mesmo estou na turma do “nunca mais”. Assistir A Balada de Buster Scruggs uma única vez é mais do que suficiente para a minha existência.