a chegada

 

É difícil você se comunicar direito com o vizinho…. que dirá com um alienígena.

A Chegada se vale de uma visita dos extraterrestres para levantar uma série de características dos humanos que nos limitam em vários aspectos. Não apenas na comunicação, mas principalmente na boa convivência com o próximo. Também mostra como precisamos em algumas vezes de um evento externo ou algo realmente fora de qualquer contexto tradicional para compreender o que realmente se passa conosco. O auto conhecimento às vezes depende de um choque de realidade.

E nem tudo o que acontece no presente será compreendido. Mas é ponto fundamental para que no futuro possamos entender os rumos que nossa vida tomou.

 

Não são os alienígenas. Não é o exército norte-americano, achando mais uma vez que pode salvar o mundo (um clichê dentro da temática). É Louise (Amy Adams). Ela é a personagem central de A Chegada.

A sua existência foi moldada (ou praticamente forjada) pelas chegadas e despedidas que todos nós temos que passar de tempos em tempos. Cada um recebe as perdas e ausências de alguma forma. Louise não só não aceitava muito bem as suas perdas, como também procurava entender por que tudo aconteceu daquela forma, e por que ela não conseguia mais se encontrar dentro do seu universo particular.

Foi quase um abandono de sua alma.

Porém, tudo muda quando um novo elemento aparece: os alienígenas.

Não apenas para que suas habilidades em linguística fossem colocadas à prova, mas principalmente pela conexão dos propósitos que fizeram com que ela fosse a escolhida para essa tarefa. Mesmo porque nada nessa vida é por acaso, e Louise só foi compreendendo isso conforme o desafio de compreender o que os extraterrestres estavam querendo dizer se aprofundava, se tornando mais complexo e, ao mesmo tempo, emocional.

Por outro lado, a chegada dos aliens também revela as diversas facetas humanas que inclusive impedem que o ser humano seja o viajante no espaço. Para começar, o ser humano é egoísta e prepotente o suficiente para ser incapaz de se comunicar direito com outro ser humano.

As diferentes crenças e perspectivas não deveriam ser fatores determinantes para impedir uma plena comunicação entre as duas pessoas. Pelo contrário: deveria ser o que faria com que esse diálogo fosse de alta qualidade. Uma vez que duas pessoas se propõem a crescerem juntas em função das suas diferenças ideológicas e existenciais, todos tem a ganhar com isso.

Mas… não. Não só não falamos a mesma língua, como nos recusamos a dialogar por conta dessas diferenças.

Louise tem papel fundamental no filme, decodificando a linguagem alienígena (que, no final das contas, teve como solução algo que foi além de identificar ideogramas e sons), mas também interferindo nas intenções de povos que pensavam de forma diferente sobre o mesmo tema. Apelou para os traços de humanidade dentro dela para modificar uma propensão que é outra característica limitadora para a evolução da nossa espécie: o desejo de sempre dar o primeiro tiro.

Atacar os alienígenas que simplesmente chegaram na Terra e não fizeram mais nada? Por que? Pelo medo do desconhecido?

O ser humano ataca o desconhecido por conta do próprio medo. O medo de perder o controle.

Quem sabe se começarmos a aceitar o novo como novo, sem a pré disposição de rechaçar o novo, e a humanidade começa a aprender a conviver com o novo de uma forma mais saudável e produtiva.

E, como podem ver, ainda temos muito o que crescer e aprender.

 

 

A Chegada é um filme excelente, sob vários aspectos.

Tem um roteiro muito bem estruturado, uma fotografia espetacular, uma parte de produção que realmente impressiona, e efeitos visuais muito convincentes. A fórmula estabelecida para contar a história da chegada dos extraterrestres foi muito bem acertada pois, como já descrevi vários parágrafos acima, é uma narrativa que abre margem para várias discussões que vão além do aspecto palpável da ficção científica.

Com um elenco bem alinhado (Amy Adams, Jeremy Renner e Forest Whitaker principalmente), você acaba comprando as causas e aspirações de cada um deles. O texto do filme é excelente, e sua estrutura narrativa é inteligente a ponto de deixarem os menos atentos perdidos na segunda metade do filme, especialmente no trecho final, onde a narrativa acaba se alternando em diferentes momentos no tempo e espaço.

Enfim, A Chegada é um merecido indicado à Melhor Filme no Academy Awards 2017. Pode não ser tão impressionante como alguns indicados na mesma temática de anos anteriores, mas é um filme que você vai querer guardar para si por muito tempo. Com certeza alguns dos espectadores chegarão ao final do filme refletindo sobre as suas próprias jornadas individuais, procurando entender o que fizeram para chegar até aqui.

E o mais importante de tudo: com a certeza que nenhuma escolha acontece por acaso, e que nenhuma chegada (ou despedida) em nossa vida é em vão.

Tudo tem uma razão de ser.