É quase redundante afirmar aqui que, ainda que o filme esteja ambientado no passado, Infiltrados na Klan (2018) é um filme oportuno e muito relevante para o momento atual. É mais um lembrete sobre como os Estados Unidos ainda tem um longo caminho para percorrer para alcançar a igualdade racial e a justiça que reclama a comunidade negra, inclusive para assimilar a responsabilidade coletiva dos pecados do passado na sociedade norte-americana.

Agora, a Academia de Hollywood decidiu premiar filmes inclusivos, cheios de cotas e com diretores negros que fazem filmes fora dos parâmetros do cinema de gueto e realidade urbana com as quais os negros se associavam.

É óbvio que Spike Lee, pioneiro no cinema social e aberto ao cinema comercial de êxito como é qualquer um dos seus colegas de direção, nunca havia sido indicado ao Oscar de Melhor Diretor, algo que deveria ter acontecido com o subversivo, revolucionário e maravilhoso Faça a Coisa Certa (1989), considerado por muitos a sua obra prima.

Para compensar esse erro histórico, a Academia o premiou com um Oscar honorário em 2015, mas mais por desencargo de consciência. Agora, ele pode ganhar o Oscar que sempre mereceu, e nesse post, analisamos algumas razões pelas quais, sem qualquer tipo de demérito aos demais indicados, premiar Infiltrados na Klan é mais que cabal. É justo e necessário.

 

 

1. É um resumo do melhor do trabalho de Spike Lee

É o filme mais completo de Spike Lee em uma década, e mostra todos os elementos conceituais que não apenas mostram quem ele é, mas também tudo o que ele fez de bom em Hollywood. Consegue ser tão grande quanto o espetacular Faça a Coisa Certa, e pode ser a forma definitiva de um erro histórico ser corrigido.

 

 

2. É o ‘Argo’ de 2018

É um thriller político que mostra em detalhes uma das operações secretas mais audaciosas e de maior risco na história dos Estados Unidos através de uma perspectiva de comédia que nasceu do absurdo da própria situação. É um plano tão excitante e surrealista como o cenário dos reféns de Teerã se disfarçando de uma equipe de cinema.

 

 

3. Tem uma das grandes cenas de 2018

 

 

Todo o filme tem momentos ótimos, mas a melhor cena de Infiltrados na Klan é uma montagem sublime, que alterna entre momentos que acontecem ao mesmo tempo: por um lado, a Ku Klux Klan vendo ‘O Nascimento de Uma Nação’ (1915) e, por outro lado, o discurso de um velho ativista dos direitos civis, interpretado por Harry Belafonte. Um momento que gela o sangue do espectador, ao mesmo tempo que expõe de forma encantadora a estupidez do grupo organizado.

 

 

4. É comprometido, mas sem ser militante

 

 

Spike Lee deixou de ser alimentado pelo ódio ao alcançar os 61 anos de vida, mostrando maturidade e sutileza ao entender que imagens e palavras alcançam um maior impacto quando se colocam a serviço de um contexto sociopolítico particular. Quando ele mostra o refinamento do líder racista David Duke (Topher Grace) e a inteligência de Ron Stallworth (John David Washington), Lee deixa claro ao mundo a evolução de sua irona para mostrar contrastes em um mesmo cenário.

 

 

5. O cinema dando o recado

 

 

O filme é reflexivo e oferece uma meditação brilhante sobre a representação dos negros no cinema norte-americano. Mais de um filme ou uma cena é citada, como o vencedor do Oscar ‘…e o Vento Levou’ (1959) e os planos com a bandeira confederada como um símbolo de nostalgia faz qualquer um sentir vergonha alheia. E o fato de muitos norte-americanos ainda ostentarem tal símbolo mostra como o racismo está arraigado na cultura daquele país.

 

 

6. O uso de material de arquivo real

 

 

O epílogo do filme mostra os eventos de Charlottesville em um claro esforço para mostrar como as atitudes centrais do racismo não mudaram muito para muita gente. É muito eloquente ver em imagens como a postura dos homens da Klan do filme se normalizaram em nosso tempo. A inclusão das imagens que resultaram em um assassinato de uma mulher negra de 32 anos atropelada por um Dodge Charger conduzido por um racista e a extremamente cautelosa resposta do presidente Donald Trump falam por si. Só não entende isso quem é burro ou quem apoia o racismo.

 

 

7. Não tem medo de bater em Donald Trump

 

 

O filme faz de Trump uma espécie de espectro do futuro com sarcasmos não muito irreais. Isso fica claro na frase “é preciso fazer com que os Estados Unidos volte a ser grande de novo”, um slogan eleitoral do atual presidente. A frase estava em discursos fascistas do passado, e hoje o mantra MAGA (Make America Great Again) é o novo capuz branco. A forma como o Trumpismo se conecta com a história do racismo nos Estados Unidos faz com que certas atitudes recorrentes fiquem ocultas embaixo de um discurso populista.

 

 

8. O melhor ‘buddy movie’ de 2018

 

 

Apesar de todos os discursos duros, ele não deixa de ser um filme de ação baseada na parceria de um jovem ambicioso policial negro e um judeu mais experiente, Flip Zimmerman (Adam Driver). Algo relativamente complexo. O filme é cheio de humor brilhante, escuro e irônico, principalmente na série de chamadas telefônicas baseadas em piadas e situações incríveis em todos os sentidos. E tudo isso funcionou por causa dessa dupla.