Predestinado. Único. Lição de vida. Exemplo. Eterno Marty McFly (calma, ele foi muito além disso). Faltam palavras para falar sobre Michael J. Fox. Em um mundo onde todo mundo fica de #mimimi por qualquer frescura, e ficam aí chorando e se debatendo porque o Pe Lanza foi preso (você não viu esse vídeo? Ah, vá….), o ator consegue realizar coisas que pessoas ditas saudáveis não conseguem. Como, por exemplo, ter uma vida normal, mesmo convivendo com uma das maiores mazelas que um ser humano pode ter, o Mal de Parkinson.

Michael J. Fox foi diagnosticado com a doença em 1991, ou seja, no auge da sua carreira. Já era um ator conhecido com a popular série Family Ties (NBC, no Brasil, “Caras e Caretas”), atuando como jovem protagonista Alex Keaton (e ganhando um Emmy por esse papel), mas conheceu o auge com a fantástica trilogia de filmes “De Volta Para o Futuro”, sendo um dos atores mais bem sucedidos de sua geração. Tudo apontava para que ele fosse um dos atores mais bem sucedidos de todos os tempos. Mas aí veio Parkinson, que atrapalhou essa trajetória.

Atrapalhou. Mas, no meu ponto de vista, não impediu.

A única coisa que Michael J. Fox fez foi não desistir. Em 1999, a doença atingiu o seu ponto mais crítico. Michael era protagonista da comédia #1 da ABC na época, Spin City. Decidiu deixar a série na quarta temporada, pois ele mesmo reconheceu que era impossível continuar atuando com qualidade. As dores eram constantes, e sua performance estava bem comprometida, por causa dos movimentos involuntários das mãos. Mesmo assim, ganhou mais um Emmy por tornar a série especial. Uma pena para todos nós, que perdemos um grande ator, com um timing de comédia incrível. Mas não por muito tempo.

Nesse meio tempo (até agora), Michael J. Fox decidiu simplesmente viver de forma intensa, e contribuir ao máximo com aqueles que sofriam da mesma mazela que ele (e até outras; afinal, o cara é um exemplo). Escreveu livros, bancou por conta própria um centro de pesquisa para a cura do Mal de Parkinson, passou a viajar pelo mundo arrecadando fundos para esse centro, que já reverte em resultados positivos, com descobertas até mais relevantes que os centros de pesquisa do governo dos Estados Unidos.

Enquanto isso, não abandonou por completo a sua paixão pela atuação. Deu voz ao ratinho Stuart Little em em três filmes, e fez participações memoráveis em séries como Scrubs, Boston Legal, Rescue Me, The Good Wife e Curb Your Enthusiasm. Na maioria dessas participações, ou foi indicado ao Emmy, ou recebeu o Emmy pela sua atuação. Em toda a sua carreira, o ator levou para casa 4 Globos de Ouro, 5 Emmys, 2 SAG Awards, 1 Grammy e 1 Saturn Awards. E isso tudo, com grande parte dessa carreira sob o diagnóstico de Mal de Parkinson.

Se isso não o credencia como um dos melhores de todos os tempos, eu não sei o que mais seria.

Nessa semana, mais uma vez, ele mostra o seu poder, confirmando a sua volta para a televisão, mas de forma icônica, quase inédita na história da TV norte-americana. Ele ofereceu o seu projeto de comédia para os quatro grandes canais abertos dos Estados Unidos (NBC, Fox, ABC e CBS), que disputaram o seu projeto à tapa, sem sequer ver o piloto do programa. Fox teve o direito de escolher com qual canal queria trabalhar, e como se fosse um recado do tipo “vou de novo desafiar a tudo e todos”, decidiu fechar com o quarto canal em termos de audiência hoje, a NBC, mas com um diferencial muito importante: a sua série já tem uma temporada completa garantida de 22 episódios. Repito: sem sequer o piloto ser visto pelos executivos na NBC.

A aposta da NBC é elevadíssima, e muito justificada. Afinal de contas, estamos falando de um dos maiores nomes da TV e do cinema dos Estados Unidos. É a volta ao canal do pavão, onde ele praticamente foi revelado ao mundo. E não me lembro de alguma coisa que J. Fox tenha feito recentemente que tenha se convertido em fracasso. Seu nome é sinônimo de sucesso na mídia, e acredito que essa aposta pode ser o início da recuperação da NBC na TV aberta norte-americana.

Por fim, fico muito feliz ao saber que Michael J. Fox vai novamente compartilhar o seu talento com os telespectadores. Acho que não foi só a NBC que ganhou dessa vez. Todos nós ganhamos. Esse cara é um exemplo para mim e para várias pessoas que sabem de perto o que é ter alguém na família com o Mal de Parkinson (no meu caso, minha esposa sofre dessa doença), deixando as mais claras e honestas lições para todos nós:

“Podemos nos concentrar em nossas perdas pessoais e passar a existência lamentando-as. A alternativa a isso é empolgar-nos com os novos caminhos que preenchem as lacunas criadas por essas perdas.”

“O que eu aprendi lutando contra o mal de Parkinson e fazendo o meu trabalho e sem contar para ninguém sobre isto é que qualquer coisa que eu percebia que estava fazendo, estava fazendo algo mais. Estou lidando com uma situação física. Isto me ensinou a ter grande disciplina e conhecimento do que eu posso esperar de mim mesmo.”

“Isto me fez mais forte. Um milhão de vezes mais sabio. E mais compassivo, eu percebi que eu sou vulnerável, que não importa quantos prêmios eu ganhe ou quanto dinheiro tenha em minha conta bancária, eu posso estar sujeito a isto. O final da história é que você morre. Todos nós morremos. Então, aceitando isso, a questão torna-se uma das condições da vida.”

Bem vindo de volta!