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Quando eu vi TED pela primeira vez, eu fui ver com um certo receio, por conta de ser um filme non-sense. Ok, era o que eu poderia esperar de um filme de Seth MacFarlane, criador de Family Guy, American Dad e tantas outras comédias do gênero. No final, o resultado foi positivo, o que fez com que eu fosse assistir TED 2 com um ânimo mais elevado (mesmo que tardiamente, reconheço). E isso pode ter influenciado positivamente nas minhas impressões sobre o segundo filme sobre o urso que ganhou vida própria.

Eu sei que não é todo mundo que gosta do tipo de comédia de MacFarlane, mas o fato é que funciona. Talvez alguma coisa esteja errada comigo, por achar ele o máximo e não dar a mínima para o Louis C.K., mas essa não é a questão. Entendo que se você tem como objetivo fazer rir pela proposta de piadas pesadas, ao menos enfia o pé na jaca de uma vez, sem medo. Não pode ter medo de chocar as pessoas, pois é o absurdo que vai resultar em risadas para o telespectador.

Dito isso, TED 2 cumpre essa missão, e de forma muito mais eficiente e bem estruturada que no primeiro filme. Aliás, se você já sabia que o primeiro TED contava com várias das assinaturas de Seth MacFarlane, o segundo filme deixa isso ainda mais escancarado. E não falo só de piadas como ‘que absurdo, eu não acho que eu tenho a mesma voz do Peter Griffin’. Falo das referências culturais do criador de Family Guy, do começo ao fim do filme.

MacFarlane é um apaixonado pelo cinema. Usou da televisão para alcançar o seu grande sonho de criança, que era fazer filmes. Logo, a longa cena de abertura, com uma sequência de dança bem elaborada, é uma clara referência à essa paixão dele ao cinema feito nas décadas de 1950 e 1960. Sem falar na trilha sonora, mais uma vez muito bem cuidada, com muito jazz e algumas pitadas oportunas de hip-hop. Quem vê suas séries de TV vai rapidamente sentir e identificar essa ambientação. São assinaturas, marcas registradas rapidamente identificáveis.

Outra característica que TED 2 adota muito bem é a presença da cultura nerd no filme. Mais: rir dessa cultura nerd, e dos excessos que os nerds cometem em nome dessa devoção. Ao mesmo tempo, MacFarlane ri também da ignorância da maioria das pessoas que não entendem muito sobre como funciona esse universo. Piadas com Star Wars, Star Trek, Comic-con e derivados são muito bem pontuadas, garantindo a diversão.

Mas… falando da história de TED 2 em si? Muito melhor que a do primeiro filme, já disse.

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Se o primeiro filme foi focado em John (Mark Whalberg) e suas desaventuras amorosas, o segundo filme é efetivamente focado no urso falante TED (Seth MacFarlane), que tenta arrumar a sua vida de adulto. Casamento vai mal, tudo com a esposa se resume em barraco… e aí dão a ideia deles terem um filho, pois um filho (em teoria) acaba unindo um casal em crise. Como TED não pode ter filhos (por motivos óbvios… ele é um urso de pelúcia, lembra?), eles partem para o ‘plano b’: inseminação artificial. Por conta disso, TED e John passam por muita coisa, indo desde John passar por situações vergonhosas e constrangedoras, até a tentativa frustrada de receber uma ‘pequena contribuição’ do jogador de futebol americano Tom Brady (aka marido de Gisele).

A inseminação se torna inviável quando se constata que a mulher de TED não pode ter filhos, por conta dos excessos da moça no passado. Com isso, vamos para o ‘plano c’: adoção. E é aí que o filme começa a engrenar. Na tentativa de adotar uma criança, o governo barra a iniciativa, uma vez que veio de um urso de pelúcia que fala, e tecnicamente esse urso não é um ser humano, mas sim um objeto.

A partir daí, TED e John entram em uma disputa legal, onde o urso precisa provar que é um ser humano, por ter consciência, sentimentos e raciocínio. E isso desperta nos dois novas e interessantes experiências. E muita maconha consumida.

O roteiro de TED 2 é muito melhor estruturado que aquele visto no primeiro filme. Trata de temas mais delicados, mas sempre de forma bem humorada. As piadas são tão non-sense, que você ri o filme inteiro. E não é aquele riso forçado. Você gargalha naturalmente de algumas situações apresentadas, e as referências culturas já abordadas nesse post ajudam na construção das piadas. E muito.

MacFarlane não teve medo em fazer críticas de coisas que ele não concorda. Por exemplo, o fato de comediantes não poderem fazer piadas com certos temas, apenas porque algumas pessoas ainda ficam chocadas com esses assuntos. Reclamou do politicamente correto, defendeu a causa dos homossexuais… e isso porque eu não falo da liberação da maconha para o uso doméstico, pois isso é explícito ao longo de todo o filme.

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Mas o mais legal de tudo isso é que TED 2 trata de todos esses assuntos sem perder o ritmo. Sem cair no piegas, sem entristecer a trama. É um filme pensado nas pessoas que querem ir ao cinema apenas para dar risadas, para se divertir sem preconceitos. Aliás, eu nem preciso dizer nesse post que as crianças devem passar longe desse filme. Não por ser ruim, mas simplesmente pelo fato de ser 100% direcionado para adultos e, mesmo assim, os adultos que estão abertos a aceitar que tudo o que foi apresentado lá foi uma grande piada da vida, e nada deve ser levado a sério.

Ou seja, a regra das criancinhas longe do filme também vale para as senhoras religiosas fervorosas, líderes religiosos (pastores, padres, etc), os carinhosamente chamados ‘PNCs’, que acham que o único cinema que presta é o sueco, e aquelas pessoas que não gostam das séries de Seth MacFarlane.

No final das contas, TED 2 é uma das melhores comédias do ano. Antes que alguns reclamem: apesar de ser o cinema feito por um sujeito que já admitiu que algumas piadas de suas séries só surgiram sob efeito de drogas pesadas (nunca duvidei disso), é também o cinema inteligente, que não se vale só do humor físico ou do bullying com problemas alheios para se divertir. Se vale da quebra dos paradigmas, do desafio ao politicamente correto, e do desejo de fazer com que o telespectador esqueça as contas para pagar por 115 minutos.

Sair do cinema com a sensação que, apesar dos pesares, você não está tão f*d*d* assim na vida é sempre muito bom.