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Texto livre de spoilers. Se você não viu “Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força”, pode ler sem medo.

Os fãs de Star Wars tiveram que esperar 32 anos (pelo menos, a partir de 1983) para descobrirem o que aconteceu com aqueles personagens icônicos que eles aprenderam a amar de forma (quase) imediata. Foram 32 longo anos, que só se tornaram mais longos por conta de uma nova trilogia, que ficou muito abaixo daquilo que os fãs esperavam. Por fim, chegamos em “Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força”, o primeiro com a Lucasfilm sob o controle da Disney.

O projeto foi recebido com um certo ceticismo pelos fãs mais exigentes, e não podemos tirar a razão desse grupo. Eu revi os filmes na sequência 1, 2, 3, 4, 5 e 6, e fica evidente sobre como A Ameaça Fantasma e A Batalha dos Clones são filmes absolutamente desnecessários. Aliás, se combinar os dois primeiros, teríamos um filme muito ruim. Mesmo que esses dois filmes tenham a importante missão de apresentar as origens de Darth Vader, poucas vezes vi tanta linguiça enchida e de forma tão mal feita. Pior: quando A Vingança dos Sith é “o melhor filme da trilogia nova” (entenda as aspas em um texto, pelo amor de Deus), você entende como os dois primeiros filmes são problemáticos.

Mas enfim… já passou… vida nova.

Vida nova e com J.J. Abrams no comando. A minha relação de amor e ódio com esse moço está acabando, felizmente. Até porque eu já defini qual é o J.J. Abrams que realmente importa: o do cinema. Sim, amigos… J.J. do cinema >>>>> J.J. da TV. E não falo isso apenas pelo “fator Lost” (que todo mundo sabe o que penso dessa série), mas pelos outros projetos que ele capitaneou na TV. Ele tem mais erros que acertos na telinha, mas tudo isso parece ter servido de aprendizado para que o diretor realizasse filmes excelentes, como “Missão: Impossível III”, “Super 8” e “Star Trek”.

J.J. Abrams pode se considerar agora um homem realizado. Um privilegiado. Um nerd de marca maior, classe A. Afinal de contas, dirigiu dois dos principais ícones dos nerds de todo o planeta. Duas das principais marcas do mundo da ficção científica. Star Trek e Star Wars tiveram a sua chancela, a sua visão. E tem muito de J.J. Abramos nos dois filmes. Para quem acompanhou alguma de suas produções televisivas e cinematográficas anteriores, vai identificar a linguagem estética e de roteiro, a estrutura narrativa e as referências que J.J. sempre deixou em todas as suas obras.

São características que ficam evidentes em “Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força”. E, nesse caso em especial, são muito bem vindos, pois oferecem elementos de conexão imediata do público veterano com a nova obra. Os principais ícones históricos estão todos lá. Os saudosistas poderão ver seus personagens preferidos, matar a saudade deles, e ver como eles claramente “passam o sabre de luz” para uma nova geração, que não necessariamente são guerreiros Jedi, mas que contam com a Força dentro de si.

Até porque, nesse momento, só temos um cavaleiro Jedi. O último cavaleiro Jedi: Luke Skywalker.

Aliás, “Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força” mostra também que a Força não é ter apenas o poder de mover objetos, entrar na mente das pessoas e sufocar inocentes deixando a mão em forma de copo. A Força é também a capacidade de realizar o impossível, mesmo sem ter recurso algum para isso. O heroísmo nasce do desejo de fazer a coisa certa, para proteger aquele que normalmente tem menos recursos, coragem e habilidades. Agora, pense quando essa iniciativa vem de alguém que não tem praticamente poder nenhum? Quantas vezes já vimos isso? Quantas vezes aplaudimos esse heroísmo?

Essa primeira lição fica muito clara no novo Star Wars. Um herói não é apenas aquele que traz o poder no seu DNA, mas também aquele que deseja fazer a coisa certa. Aliás, foi com esse princípio em mente que Luke Skywalker se tornou o guerreiro Jedi que nós conhecemos. Mais do que isso: desafiou a sua própria natureza de ir para o lado negro da Força (foi seduzido pelo seu pai, e ele sabe muito bem que a Força dentro de si tem dois lados), para se tornar uma lenda pelo Universo, já que foi ele e seus amigos que derrotaram Vader e seu Império por duas vezes, destruindo DUAS versões da Estrela da Morte.

É incrível como tudo acontece rapidamente em 30 anos no universo de Star Wars. Aliás, muita coisa aconteceu. Mesmo. A vida de todo mundo seguiu, por rumos que deixam brechas para que a Disney invente séries de TV e outras coisas mostrando essa janela de 30 anos. Alguns podem torcer o nariz para o rumo tomado sobre certas coisas. Mas… quer saber? Não me importei com nada disso. Pelo contrário: o sentimento saudosista bateu mais alto, e ver o que aconteceu com aqueles personagens, com aquela atmosfera, aquela “vibe Star Wars” foi o que realmente importou.

“Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força” é um Star Wars da Disney. É, talvez, o mais acessível de todos os filmes. Não tem uma trama complexa, conta com personagens carismáticos, um bom humor que não é visto nos outros filmes. Isso pode causar uma certa estranheza e irritação nos fãs mais veteranos, que gostariam de tramas mais complexas e grandiosas. Por outro lado, o novo filme também tem como missão apresentar essa história para uma nova geração. Essa proposta fica bem clara com a introdução de dois personagens absolutamente novos, que serão aqueles que seguirão com o legado dos guerreiros Jedi, onde pelo menos um deles será o aprendiz de Luke.

Ou  melhor, a aprendiz.

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Por falar nisso, quero ver o que os mais chatos vão dizer ao se darem conta que temos um Star Wars onde os protagonistas são uma mulher e um negro. Aliás, não é gente chata que faz isso. É gente ignorante. Essa é uma solução que agrada e muito. Não só por destacar uma minoria, mas por destacar a força feminina. A mulher no comando. Por que uma mulher não pode ser uma guerreira Jedi? Afinal de contas, mulheres suportam muito mais a dor do que os homens. Não podem dominar um sabre de luz?

A trilogia clássica apontava para esse caminho. A princesa Leia era uma mulher forte, corajosa e inteligente. Mesmo sendo princesa, era excelente com armas. Sabia inclusive fazer pequenos reparos na Miellinnium Falcon. Ou seja, ver uma guerreira Jedi no novo filme não deve causar espanto para ninguém. Ou não deveria. Mas como existe gente imbecil em tudo quanto é lugar (entre os nerds, inclusive)…

Por falar em princesa Leia… muito amor por Carrie Fisher nesse filme. Mesmo. Suas cenas estão excelentes.

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“Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força” não só faz a conexão do passado, presente e futuro dessa história, mas também rende um justo tributo aos personagens icônicos. Leia acaba assumindo importância decisiva na trama desse novo filme, assim como o homem que ela amou por toda a vida: Han Solo. Bom, o “casal” Solo e Chewbacca está lá, mas este é o filme que enfatiza a importância do contrabandista nos acontecimentos da trilogia clássica, e é efetivamente Leia e Solo que são os responsáveis por “passar o sabre de luz” para a nova geração.

O filme também oferece aquelas clássicas lições que podem ser compreendidas nas entrelinhas por qualquer pessoa mais suscetível a esses ensinamentos. Algumas delas eu já destaquei nesse texto: a importância do herói, que a Força é algo que está dentro de cada um. Mas tem outras… várias…

O sentimento de urgência, o valor da família, o amor fraterno. Reforça que carregamos conosco a luz e a sombra. Mostra que amizades são eternas, e que desistir não é uma opção. Historicamente, Star Wars sempre teve um lado que abordava essas e outras questões de forma muito consistente e inteligente. Principalmente na trilogia clássica, que mostrava um tirano que queria dominar de forma impiedosa o Universo, em uma clara referência à Hitler e outros déspotas históricos.

Talvez “Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força” seja o filme “menos político” de toda a franquia. Talvez porque os tempos são outros, e um discurso como esse poderia ser maçante para muita gente. Sem falar que devo lembrar mais uma vez que um dos objetivos da Disney com esse novo filme é criar uma nova legião de fãs. E, para isso, era fundamental que novo longa fosse mais acessível, mais “mastigado”, sem tanta filosofia Jedi, em um roteiro mais prático e descomplicado.

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Por conta disso, posso dizer que quem ouviu falar de Star Wars pela primeira vez na vida a partir do filme de J.J. Abrams não ficará completamente perdido na sala do cinema. O próprio filme trata de pontuar de forma breve e sutil a importância dessas pessoas. É claro que os mais velhos vão se empolgar e muito quando aqueles personagens clássicos reaparecerem na tela (aplaudiram o C-3PO na sua primeira cena), pois entendem a importância dos mesmos para aquela história. Mas diferente de outros filmes (Exterminador do Futuro: Gênesis, por exemplo), esse é um filme que pode ser visto por qualquer pessoa. Mesmo aquele que nunca ouviu falar em sabre de luz, Luke Skywalker, Chewbacca e outros.

Mas… deixo um conselho para as novas gerações: assistam os filmes anteriores. Principalmente a trilogia clássica.

É uma experiência completamente diferente quando sabemos como tudo aconteceu. Star Wars é uma das histórias mais fantásticas já criadas pela mente humana. Rever os filmes de 1977, 1980 e 1983 nos faz imaginar o tamanho do impacto que eles causaram na época, pois eram filmes muito a frente do seu tempo. Eram modernos, com estética avançada, com efeitos interessantíssimos. É mais do que recomendado você ver antes como tudo aconteceu. É sua obrigação.

Como recompensa, você vai criar um vínculo pessoal com os personagens que serão apresentados. Chamará a história de “sua”. Não vai ser apenas um filme. Vai ser uma franquia que você vai querer acompanhar até o fim de sua vida.

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“Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força” é um ótimo filme. É um autêntico blockbuster, com a assinatura da Disney e de J.J. Abrams. O filme grita o tempo todo que tem a influência dessas duas marcas. É divertido, envolvente, não te cansa, e é um autêntico filme da franquia Star Wars. Deixando opiniões individuais de lado, é o filme que deve sim agradar a maioria dos gregos e dos troianos. Ou dos membros da aliança rebelde e dos novos membros do Império. É evidente que o filme não vai agradar a todos (já leio algumas críticas na internet sobre questões pontuais, e até concordo com os pontos de vista apresentados), mas de um modo geral, é um excelente produto de entretenimento.

O filme impressiona nos efeitos visuais e especiais. Basicamente não dá para perceber recursos computacionais nas cenas. A linha de edição segue o mesmo esquema inserido por George Lucas na década de 1970, com transições de tela à moda antiga. Mas os planos de câmera, planos sequência e cenas com maior movimento (oferecendo perspectivas que colocam o fã dentro da ação) são assinaturas claríssimas de J.J. Abrams. Sem falar em mais um trabalho brilhante de John Williams na trilha sonora.

Enfim, “Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força” é o filme que muitos esperavam. Saí do cinema feliz em ver uma das maiores franquias da história sendo tratada como merece, em um patamar de filme top, ao mesmo tempo de ser uma diversão para o grande público. Por outro lado, é inevitável o sentimento de tristeza: depois desse, teremos mais dois filmes e, a não ser que a Disney “pire na batatinha” e queira ser uma megalomaníaca doida (no nível da 20th Century Fox)… acabou.

Mas é melhor assim. É melhor encerrar essa história. Encerrar o legado. Para que Star Wars possa ter o seu papel de direito e justiça na eternidade. Ser efetivamente posicionada como uma das franquias mais bem sucedidas da história do cinema.

Os fãs merecem isso.