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Sonhe grande. E não desista.

Para quem não sabe, Charles M. Schulz é, na verdade, o Charlie Brown, personagem central de suas tirinhas, que por quase 50 anos rodou o mundo contando histórias de crianças que viviam o seu próprio universo, onde o grande compromisso de suas vidas era viver o momento de descobertas e encontros com novas experiências. Porém, as histórias de Schulz iam além de simplesmente mostrar a alegria infantil. Apesar de ser destinado para crianças, as histórias de Charlie Brown e sua turma sempre tiveram uma pegada muito adulta, discutindo questões filosóficas, explorando problemas emocionais que até podem afetar a pessoa na mais tenra idade (o próprio Schulz era uma criança tímida, solitária e sofria com os colegas, tal como Charlie Brown), mas falava também do amor de uma forma muito bem definida e racional, algo muito raro para as crianças, e que só os adultos poderiam entender (e, mesmo assim, alguns não entendem).

As tirinhas de Charlie Brown e Snoopy fizeram sucesso no mundo todo. Suas animações viraram verdadeiros campeões de audiência. Todos os anos, a ABC reprisa os longas de animação temáticos com esses personagens, e em alguns casos, os desenhos produzidos na década de 1970 conseguem dar mais audiência do que séries como Marvel’s Agents of SHIELD e Fresh Off the Boat. São grandes legados da cultura pop que Charles M. Schulz deixou para a humanidade depois de sua morte, em 2000. Logo, um longa de animação em 3D com esses personagens era algo muito esperado por muitas e muitas gerações. E entendo que essas gerações não ficaram decepcionadas com o resultado final.

“Snoopy e Charlie Brown: Peanuts, O Filme” mostra duas histórias onde o objetivo final é deixar uma mensagem bem clara: não desista. Os dois personagens centrais do filme são, efetivamente, Charlie Brown e Snoopy. Os dois personagens vivem seus universos e realidades que se encontram nos momentos mais importantes dos dois nessa história. Não só a persistência, a perseverança, e o intuito de acreditar em si. Em comum, os dois carregam a feliz coincidência de estarem apaixonados.

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O filme faz a releitura de dois dos argumentos mais interessantes das histórias de Charles M. Schulz. Por um lado, vemos como a mítica Garotinha Ruiva entra na vida de Charlie Brown. Ali, nosso amigo já era considerado por todos um fracasso completo, como ele já tinha poucos amigos de verdade (talvez apenas o Lino seja o ponto de apoio dele), e onde a única pessoa que acha que ele é um caso de sucesso é a sua irmã mais nova, Sally (mas também porque ela sempre foi a fim do melhor amigo de Charlie). De qualquer forma, a chegada da Garotinha Ruiva muda definitivamente a vida de Charlie Brown, que passa a ter um motivo para realizar coisas simplesmente incríveis, apenas para impressionar quem ele ama.

Porém, Charlie se vê inseguro, sem a certeza se será correspondido, ou se ela consegue notar que ele existe. Nesse meio do caminho, nas tentativas para fazer ser notado, ele descobre também que quem nota você o faz de forma silenciosa, sem alardes. E pode te surpreender a o enxergar em você as coisas que os outros não conseguem ver. Isso tudo só acontece quando temos os olhos mais atentos que os ouvidos e a boca. E o filme deixa isso bem claro.

Por outro lado, temos o Snoopy. O velho cão beagle cheio de personalidade é um show a parte. Sempre mostra que não é um cachorro comum quando interage de forma inteligente com as crianças, principalmente quando se mostra mais inteligente que Lucy, a menina que se acha a mais sábia de todas. Snoopy tem o sarcasmo silencioso que muitas pessoas possuem, a malandragem honesta que é sempre bem vinda, mas também tem um bom coração. Que se apaixona.

A passagem do Barão Vermelho é uma das mais emblemáticas entre os leitores dos quadrinhos. No caso do filme, Snoopy tem como principal missão resgatar Fifi, o grande amor da vida dele, que foi raptada pelo principal inimigo do nosso cão herói. Para esse resgate, ele conta com o seu fiel amigo Woodstock, com a sua casa, e muita imaginação para criar uma história fantástica, onde ele mesmo se impõe os obstáculos e desafios para tornar aquela conquista ainda mais emocionante e edificante.

Os dois personagens mostram como vão superar os seus desafios individuais, envolvendo a todos na proposta do “sonhar grande, persistir sempre, desistir jamais”, mostrando para crianças e adultos que aqueles que muito desejam alguma coisa e trabalharem duro para o que desejam, podem sim alcançar os seus sonhos. Ou, nesse caso, o coração da pessoa amada.

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“Snoopy e Charlie Brown: Peanuts, O Filme” comemora o 65º aniversário de lançamento da primeira tira produzida por Charles M. Schulz com esses personagens. E é tudo o que se espera de um filme sobre Charlie Brown e sua turma. É um filme simples, direto e objetivo. Tem o ritmo dos desenhos animados produzidos pelo criador das tirinhas, e o trabalho de animação em 3D (combinando com pequenos elementos em 2D) foi bem executado, apresentando um visual final bem agradável.

Com produção da Blu Sky Studios (A Era do Gelo) e distribuição da 20th Century Fox, o filme de Steve Martino foi escrito por Craig Schulz, Bryan Schulz e Cornelius Uliano. Logo, o resultado final de roteiro foi muito próximo ao que Charles M. Schulz faria se estivesse vivo, e o mais interessante de tudo é que em nenhum momento vemos uma aproximação de um argumento mais próximo da realidade que vivemos hoje. E acho isso o máximo: afinal de contas, são crianças que brincam, se divertem, valorizam o estudo de forma enfática. Esses são valores que eram mais fortes no passado, quando os quadrinhos foram concebidos. Aliás, até mesmo o estilo de elementos simples como carteiras e ônibus escolares seguem a estética da década de 1960. Ou seja, todo o universo do desenho original foi preservado.

Ah, sim… a infância retratada em “Snoopy e Charlie Brown: Peanuts, O Filme” não faz qualquer tipo de menção à internet. E eu adorei essa decisão. Reforça a ideia da infância ser vivida através da imaginação, das experiências do mundo real, do convívio com outras crianças próximas. Do desejo de sair de casa para ver o sol, ou para jogar hóquei no lago congelado no inverno. Aproveitar das experiências, relações e conexões com outras pessoas, enquanto isso é possível. Ser uma criança saudável e feliz porque vivenciou desses momentos alegres enquanto pode. De forma intensa, livre e completa.

Para resumir, “Snoopy e Charlie Brown: Peanuts, O Filme” é um filme pensado “nas crianças de todas as idades”. As crianças de hoje vão se divertir com esses personagens carismáticos e acessíveis, e vão aprender valiosas lições. Não só o “sonhe grande e não desista”, mas o valor de uma verdadeira amizade, o quão importante é aproveitar da infância de forma plena, e como você pode fazer o que você quiser da sua vida. Basta você ter muita força de vontade e persistir nisso.

Para as crianças do passado (aka os adultos do presente), não fica apenas o sentimento de nostalgia por ver no cinema os personagens que fizeram parte da nossa infância. Fica também a certeza que temos que nos relembrar da importância dessas lições. De como temos que reaprender, de tempos em tempos, que precisamos sonhar grande nessa vida. Que não podemos desistir dos nossos sonhos. Que por amor vale a pena enfrentar qualquer coisa. Que amigos de verdade não nos abandonam. E que, quando alguém gosta da gente de verdade, vai ver em nós algo especial. Algo que as outras pessoas não conseguem ver.

“Snoopy e Charlie Brown: Peanuts, O Filme” é uma graça de filme. Altamente recomendado para pais e filhos, avós e netos, amigos. Veja esse filme com alguém que você ama do lado, sem medo de ser feliz. E saia do cinema feliz. É uma justa homenagem ao trabalho de Charles M. Schulz, que já é eterno no coração de todos.