Nosso amigo James Hibberd, do EW.com, fez uma lista relativamente polêmica de algumas séries que são um grande sucesso junto ao público e à crítica especializada, mas que combinam alguns elementos que, se pensarmos bem, não são considerados fórmulas de sucesso, ou tais elementos não poderiam dar certo na maioria dos casos. Mas, para nossa felicidade, o efeito foi o inverso, o sucesso veio, e se tornaram hits da televisão. Tentem não arrancar os cabelos ao ver a sua série favorita citada nessa lista. Não foi ideia nossa. É tudo culpa do Hibberd!

 

Dexter

 

A última temporada da série da Showtime teve a maior audiência de toda a série, alcançando 2.3 milhões de telespectadores na estreia da última temporada. É a série mais vista do canal.

Por que não poderia dar certo:
porque todos nós sabemos que Dexter Morgan é um serial killer, ok? Mas… espere um pouco: estamos torcendo para uma pessoa cuja única alegria na vida é esfaquear outras pessoas até a morte? Em qualquer outro tipo de série televisiva, o vilão é simplesmente detestado. Tudo bem, ele mata bandidos e pessoas muito sujas na sua moral, mas na sua trajetória, Dexter Morgan teve como vítima pessoas inocentes (em alguns casos, de forma indireta), como sua esposa Rita e o seu ex-colega (nem tanto) Doakes. Mesmo assim, torcemos por ele.

Por que a série deu certo: porque Michael C. Hall tem a combinação perfeita entre o charme e o bizarro. Além disso, o seu tom bem humorado no voice-over da narração da trama e o humor negro são apresentados em um tom perfeito. Nos tornamos cúmplices de Dexter Morgan, e com a adição do humor, não levamos sua contagem de mortos muito a sério. Se não tivesse nada disso, seria apenas aquela série do cara que sai por aí matando criminosos em Miami. Alguns de vocês iriam gostar da ideia, mas certamente não seria um sucesso.

 

 

Deadliest Catch

 

O reality entrega ao Discovery Channel a impressionante audiência de 7 milhões de espectadores, sendo um dos maiores sucessos de todos os tempos da história da TV a cabo dos Estados Unidos.

Por que não poderia dar certo:
porque é extremamente repetitivo. Quantas vezes você aguenta assistir caras pescando em um barco? Se você é fã de pescaria, você vai responder “até o resto da minha vida”, mas se você é uma pessoa dita normal…

Por que a série deu certo: porque a pescaria é mais ou menos como funciona a indústria da TV. Você joga o anzol, mas nunca sabe exatamente quais serão os resultados da pesca, mesmo sabendo os tipos de peixes que tem no mar. As variáveis são tão grandes, que os resultados podem ser um peixe maravilhoso no final da batalha, como a morte do pescador, como já aconteceu em Deadliest Catch. Ou pode simplesmente não acontecer nada. É tão popular nos Estados Unidos que comparam a produção com uma típica “corrida do ouro” televisionada.

 

 

Glee

 

É simplesmente uma das maiores e mais influentes séries da atualidade. O grande hit da Fox.

Por que não poderia dar certo:
a última grande série musical produzida nos EUA antes de Glee foi Fame, na década de 1980. E ainda assim, o sucesso foi relativo (deu mais certo nos cinemas). E, em várias tentativas ao longo da história, os musicais nunca tinham emplacado na TV como deram certo no cinema.

Por que a série deu certo:
duas escolhas cruciais. 1) usar músicas populares, que a audiência (ou público alvo) já conhecia e gosta, deixando de lado as canções originais, que sempre é uma aposta de risco. 2) o ambiente do período colegial, tipicamente juvenil. Ryan Murphy olhou bem o caminho que a série de filmes da Disney High School Musical pavimentou, e adicionou uma dosagem pop cultural ainda maior, para produzir um dos maiores sucessos da TV atual.

 


Dancing With the Stars

 

Depois de 15 temporadas, ainda é um dos reality shows mais vistos da TV norte-americana, com uma média de audiência superior a 14 milhões de telespectadores por temporada.

Por que não poderia dar certo: bom, por onde devo começar… primeiro, a série se chama “Dançando Com as Estrelas”… e isso é muito “chique vovó”! Pense quando você ouve algo semelhante no Domingão do Faustão. Parece que esse programa foi diretamente importado da década de 1950. Segundo: é sobre dança de salão! Para os mais velhos, a primeira coisa que vem à mente é o finado “Festa Baile” da TV Cultura (ou RTC). Terceiro, diversos programas tentaram antes reproduzir esse formato, e falharam de forma absurda. Mas…

Por que a série deu certo: porque fala de dança… que é a primeira forma de entretenimento comum do ser humano, lá no tempo das cavernas. O apelo primário não mudou ao longo das eras, e isso está no DNA de todo mundo. Além disso, a audiência gosta de ver celebridades competindo entre si, em um ambiente que eles não dominam. Um exemplo claro disso é que Celebrity Apprentice (NBC) dá hoje mais audiência que uma temporada regular de The Apprentice (NBC).

 

The Walking Dead

 

O megahit da AMC é hoje o drama mais visto da TV a cabo dos Estados Unidos, com uma demo 18-49 anos de 7.2 (incluindo reprises e gravações em DVR).

Por que não poderia dar certo: antes que você comece a procurar advogados para processar Hibberd e ao SpinOff, leia com atenção! Que The Walking Dead é uma das coisas mais legais da TV, isso é bem óbvio. Mas ninguém se lembra como eram baixas as expectativas (lá fora) com o lançamento da série. Nenhum executivo de TV apostava que a série chegaria a uma terceira temporada. Afinal, falamos de uma série extremamente sangrenta, sombria, com um elenco que simplesmente se desmancha e se recria a cada temporada, e em alguns casos, que nos fizeram sofrer por muito tempo pela ruindade dos personagens (beijo, Lori!), entre outros fatores.

Mas talvez o aspecto mais crítico para a série é que ninguém mais tem qualquer expectativa para um final feliz da trama, e histórias populares sempre precisam passar a perspectiva de que “tem uma luz no fim do túnel, e não é o trem vindo na direção contrária”. Mas sobre esta série, as coisas só pioram. Mais: nós já sabemos que o pior vai chegar para todo mundo, mais cedo ou mais tarde.

Por que a série deu certo: resposta do SpinOff? Porque a série é FODA PRA C%$@#%@@!!!! Ah, a resposta do Hibberd: porque a série é impecavelmente bem feita, oferece o suspense na medida certa para o telespectador, mantendo a audiência grudada. E principalmente: por não se importar em quebrar diversas “regras” (babacas) da TV convencional. É um produto tão único, que pode entrar na lista de divisor de águas da televisão quando chegar ao seu final.

 

 

NCIS

 

É o drama mais visto da TV norte-americana (em audiência total), com uma média de 22.6 milhões de espectadores.

Por que não poderia dar certo:
para muitos, NCIS é uma série tão brega, que é difícil saber o motivo pelo qual tanta gente insiste em comparar a produção com outros dramas procedurais mais sérios e bem elaboradas. Ok, a série é popular junto ao público, mas seu formato é tão piegas que simplesmente não existe um motivo racional para tamanho sucesso.

Por que a série deu certo: para muitos, NCIS é “amável e imprevisível, misturando elementos de um programa policial com um drama de espionagem, com pequenos tons de comédia de escritório”. E isso está certo: a sua fórmula de fazer TV é tão flexível que torna a série diferente de qualquer procedural que temos na TV. Mesmo quando bem sabemos que é mais uma série do tipo “caso do dia”.

 

 

Qualquer reality competition culinário

 

Alguns dos reality competions mais populares da TV são competições de culinária, como Hell’s Kitchen, Masterchef e Top Chef.

Por que não poderiam dar certo: todos esses programas violam a principal regra de um reality competition de sucesso, e isso contando os tempos dos game shows da TV. Exemplo: em programas como American Idol, você pode julgar o cantor pela sua capacidade de cantar, porque você está ouvindo o cantor. Em programas de dança, você pode julgar a sua habilidade no salão, porque você está vendo a pessoa dançar. Em programas como The Bachelor, você pode avaliar a pessoa pela sua capacidade de ser romântica (ou não). Tudo bem, você pode discordar de Simon Cowell em várias oportunidades, mas quando você faz isso, você está formando uma opinião em algo que você está vendo ou ouvindo, usando a mesma informação de Simon.

Mas… e quando falamos de comida? Você não pode experimentar o prato – e é por isso que, nesses programas, apenas os juízes determinam o vencedor, sem nenhum tipo de interação do público na decisão. Realitys culinários não contam com a intervenção de quem mais interessa para os canais – a audiência -, e isso faz com que pessoas como Tom Colicchio e Gordon Ramsay sejam mais poderosas que Simon Cowell. E muitas vezes, tomando decisões piores. E você, que está sentado no sofá, vendo tudo isso, não pode fazer nada.

Por que essas séries deram certo:
porque aqui, basicamente, temos que dar valor aos seres humanos por usarem a imaginação. Com pratos lindamente combinados, com descrições sedutoras, que quase permitem que o telespectador prove o creme de baunilha com limão, hortelã e avelã, fica impossível não sentir vontade de comer alguma coisa quando vemos esses programas (ou até mesmo alguns dos pratos que são apresentados).

Além disso, sexo e a necessidade de alimentação são dois dos instintos corporais mais primitivos do ser humano. Muitos gostam de ver o sexo sendo praticado na TV, mas não são todos os canais que podem mostrar isso no horário nobre. Já a comida é a única necessidade básica do seu corpo que a televisão pode mostrar de forma nua e crua (em alguns casos) às 10h da noite. E, diferente do sexo, realitys culinários não vão provocar constrangimento se você assistir ao lado de sua avó. Pelo contrário: vocês inclusive vão ter algo para conversar durante o programa.