Todo adulto que se preze, precisa aprender, o mais depressa possível, três lições que se leva pelo resto da vida. E estas lições são:

1) Você escolhe as pessoas que vão estar na sua vida.
2) Você é sempre você mesmo, mas jamais será sempre o mesmo.
3) Você pode tudo o que você quiser. Nada pode te derrubar.

Pois bem. A cada episódio, a nova série da Showtime, The Big C, relembra ao telespectador o quão valiosas podem ser estas lições, e o quanto você vai precisar delas para seguir vivendo de uma forma minimamente interessante. Sim, pois há uma grande diferença entre “vou tocando com a barriga” com “eu saboreio a vida, e todos os seus sabores”. Vamos então entender porque The Big C pode se tornar o próximo favor que você faz à  sua formação como ser humano dito racional.

A série de Darlene Hunt conta a história de Cathy Jamison (Laura Linney). Uma mulher razoavelmente normal, que tem uma vida relativamente normal, de mãe e professora do colegial. Tudo bem, está enfrentando a barra do divórcio, e ter que começar uma nova fase da vida com o filho “aborrecente” Adam (Gabriel Basso). Mas tudo isso acaba sendo fichinha perto de sua mais recente descoberta.

Após uma consulta médica, Cathy descobre que ela tem um câncer. Para ser mais exato, um melanoma de estágio 4. Melanoma, caros amigos, é um dos tipos de câncer de pele menos comuns, mas é o que causa a maior porcentagem de mortes na sua categoria (75%) e, em estágios avançados, além das “manchas negras” na pele, começa a se alastrar para os demais órgãos do corpo. E, como o de Cathy já está avançado, mesmo que ela tente um tratamento, ela sabe que vai morrer (pelo menos até os roteiristas da série não acharem outra solução típica do mundo das séries… esperamos que isso não aconteça, para o bem da série).

Amigos, o câncer é uma doença muito triste. Antes, achávamos que os portadores de HIV sofriam bastante, mas como a medicina avançou bastante nos medicamentos, o soro-positivo pode ter uma boa sobrevida, e com uma aparência bem mais saudável do que na década de 80 e 90. Já o câncer, seja lá do que for, é uma doença que desgasta o doente no seu físico e no seu psicológico. Parentes e amigos acabam sofrendo por tabela as transformações que a pessoa sofre por causa da mazela. E, pelo visto, Cathy pensou da mesma forma. Ela, que nunca foi vista como mulher boazinha, que dependesse das pessoas para exercer suas atividades cotidianas, jamais iria aceitar se colocar em uma condição de dependência.

É nessa que começamos a ver que The Big C mostra a primeira lição listada no começo do post: VOCÊ ESCOLHE AS PESSOAS QUE VÃO ESTAR NA SUA VIDA. Cathy decidiu que, mesmo não contando de sua real condição de saúde para as pessoas que são especiais em sua vida, ela as queria por perto, para compartilhar desta sua nova fase.

Decide rever um pouco a relação com o (ainda) marido Paul (Oliver Platt), e tentar entender a sua imaturidade, ser mais presente na vida do filho, mesmo tendo a sua chatice típica de adolescente, se reaproximar do irmão Sean (John Benjamin Hickley), que leva uma vida alternativa (de mendigo hippie mesmo, para ser mais claro), compreender a excentricidade e o temperamento ranzinza de sua velha vizinha (que ela nem conhecia o nome), Marlene (Phyllis Somerville), incentivar uma estudante a se transformar, e ser alguém melhor e mais saudável no futuro, sendo amiga de Andrea (Gabourey Sidibe) e até se interessar pelo seu oncologista, que detectou a sua doença (Dr. Todd Miller, Reid Scott). Para quem tem uma doença séria, ter as pessoas que mais amamos por perto nos deixa mais fortes. E Cathy quer se sentir mais forte, mas sem demonstrar fraqueza.

Esta decisão nos leva à segunda lição de The Big C: VOCÊ É SEMPRE VOCÊ MESMO, MAS JAMAIS SERÁ SEMPRE O MESMO. Cathy decide promover uma mudança radical na sua vida, e na forma de ver o mundo. Decide fazer coisas que normalmente não fazia, tomar decisões que normalmente não tomaria, improvisar nas suas atitudes cotidianas… passa a viver como quer, do jeito que quer, mas sem perder o limite do bom senso.

Aos olhos dos outros, Cathy, que foi sempre tão pragmática e centrada, se torna uma maluca completa. E isso gera muito do humor da série: conversar com o cachorro em um sofá, no quintal de casa, dentro do buraco de sua futura piscina, queimar o tal sofá, depois de derramar vinho tinto em suas almofadas, queimar as roupas do filho porque ele não se importa em cuidar das suas coisas, fingir que está morta na banheira para pregar uma peça no filho, presentear o irmão com as roupas do filho… enfim, faz o que todos nós devemos deixar de fazer para aproveitar as boas coisas da vida: para de se programar. Vive de forma mais intensa e objetiva as possibilidades e oportunidades que a vida oferece.

E é nesse ponto que nos temos a terceira lição de The Big C: VOCÊ PODE TUDO O QUE VOCÊ QUISER! NADA PODE TE DERRUBAR. Cathy poderia fazer o tratamento para ter uma sobrevida? Claro que sim. Mas não optou por isso porque sabia que teria uma vida incompleta. Nós, seres humanos ditos racionais, nos fragilizamos com as diversas dificuldades que a vida nos apresenta. Imagine então quando se constata que estamos com os nossos dias contados. A maioria de nós cai de vez. E são poucos aqueles que tem a plena consciência de que nem isso pode te parar.

A vida segue, e o seu mundo (e o dos outros) não espera você se recuperar. Dificuldades, quedas, pessoas te xingando, doenças, doenças terminais… tudo isso faz parte do jogo da vida, e aí, a única escolha é viver da melhor forma possível. Passa a ser uma missão em prol de você mesmo, e em respeito às pessoas que te amam. E Cathy faz isso com maestria na série.

Por fim, The Big C é uma das melhores séries novas que temos. É mais um grande acerto da Showtime e, sem medo de errar, podemos já chamá-la de espetacular. O equilíbrio entre drama e comédia é perfeito, tornando a série imperdível. O texto da série é ótimo, e as atuações são muito boas. Poucas vezes vi uma série definindo seus personagens de forma tão rápida, pois todo mundo sabe bem o que fazer, e o faz muito bem.

The Big C é uma daquelas séries que te fazem rir e chorar ao mesmo tempo, mexendo de forma íntima com o telespectador. Nos traz o entretenimento e também a reflexão, levantando a questão que é quase que um interrogatório pessoal que todos nós um dia vamos nos fazer: “o que diabos estamos fazendo da nossa vida? Será que realmente estamos usufruindo da presença daqueles que amamos? Será que não está na hora de mudar, de nos transformarmos para ver o mundo de uma forma diferente?”.

The Big C promove a cada semana o levantar destas questões. As respostas? Cada um de nós que busquemos, depois de desligar o controle remoto da TV.