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O filme escolhido para representar o Brasil na tentativa da indicação ao Oscar 2016 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro é ‘Que Horas Ela Volta?’, filme de Anna Mulyaert que conta de forma simples e direta uma realidade que está presente em muitas famílias de qualquer lugar do planeta: os pais ausentes por conta da necessidade de vencer na vida para manter os filhos. E esse aspecto pode ser importante para que o filme alcance o seu objetivo.

‘Que Horas Ela Volta?’ é centrado na vida de Val (Regina Casé), uma pessoa comum, que pode ser encontrada em qualquer lugar do Brasil, ainda mais em São Paulo. Val é uma das inúmeras pessoas que deixam família e filhos nos lugares mais remotos do Brasil para tentar mudar a sua condição de vida em São Paulo. Faz isso na esperança de dar um futuro melhor para a sua filha, Jéssica (Camila Márdila), mesmo que ela sequer a chame de mãe, a ignorando por três anos. 

Val mora no emprego. Não tem nada. Vive por conta da pseudo solidariedade/caridade disfarçada de soberba de uma família no Morumbi, que mais preocupada em manter a pose e reunir posses, está completamente rachada e distante. O resultado disso é que Fabinho (Michel Joelsas), filho do casal, se apega à Val de tal forma, que ele prefere a companhia dela do que a da própria mãe, Bárbara (Karine Teles), que passa a maior parte do tempo longe de casa, e não acompanhou o crescimento do próprio filho. 

Fabinho vê Val como a sua segunda mãe. E Val vê Fabinho como seu filho. Se apega nele para matar as saudades da filha que está no nordeste. Ela deposita nele o esboço de família que ela sempre sonhou em ter.

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Pois bem, depois de dez anos de distância e três anos sem falar com a mãe, Jéssica aparece ‘do nada’, dizendo que quer morar em São Paulo, para prestar o vestibular de arquitetura. Sem ter onde ficar, Val coloca a filha no seu ambiente, mesmo contra a vontade de todos. Porém, Jéssica gosta da boa vida, e decide se aproveitar disso. E é nesse movimento que o cenário emocional de todos começam a se evidenciar.

A presença de um novo membro naquele meio faz com que os contrastes ocultos acabem emergindo, onde os sentimentos de todos em relação às suas respectivas condições são evidenciados. Dentro desse novo cenário, Val precisa tomar uma decisão drástica, não só pela sua vida, mas também pela vida de Jéssica e, indiretamente, pela família dos seus patrões. E aí vemos como os cenários e situações se repetem, independente da classe social.

‘Que Horas Ela Volta?’ é um bom filme, mas não é um filme para todos. A narrativa proposta por Anna Mulyaert é bem interessante, e no aspecto técnico, é um dos pontos fortes do filme. Várias cenas com câmera fixa propõem a perspectiva que o telespectador deve ter sobre aquela situação, mostrando na maior parte do tempo a versão de Val sobre aquele convívio familiar. Nos momentos pontuais, esse foco é transferido para Fabinho, já que ele é o maior prejudicado pela ausência da mãe.

Porém, do meio para o fim do filme, a ênfase em Jéssica se justifica, não só pela revelação do real motivo de sua mudança para São Paulo, mas principalmente para ‘fechar o ciclo’, entregando aquilo que o roteiro do filme propõe o tempo todo: as situações se repetem, os cenários se repetem, e em muitas vezes o ciclo da vida nos dá a chance de mudar tudo, corrigir erros e transformar existências, enquanto ainda há tempo de mudar as coisas.

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Por outro lado, muitos vão achar a narrativa de ‘Que Horas Ela Volta?’ lenta demais. Talvez isso aconteça de forma proposital, já que a proposta do filme é que o telespectador consiga captar os sentimentos e as motivações dos personagens, para que o mesmo se envolva com os eventos da trama. Nesse aspecto, se você procura um filme com um pouco mais de agilidade no roteiro, você pode se decepcionar um pouco.

Mas isso não tira os méritos da produção. Regina Casé é uma grata surpresa no papel de Val, com uma interpretação muito mais humana do que caricata. Sua performance acaba naturalmente se destacando, pelo peso do personagem dentro da trama, mas também pela competência em interpretar uma pessoa comum, sem exageros (e considero isso um grande feito, ainda mais de uma pessoa que apresenta o ‘espetacular’ programa IXXXQUENTA…).

‘Que Horas Ela Volta?’ é um grande trabalho de Anna Mulyaert. Pode não ser um filme com grande visibilidade para o grande público (a prova disso é o fato dele ter estreado nos grandes centros do Brasil, mas não nas cidades do interior, mesmo as de médio porte) e, de fato, é um filme que precisa ser visto com paciência e entrega. Mas é um filme que deixa o seu recado claro para quem o assiste. Usa de uma linguagem simples e direta para tentar alertar sobre a necessidade dos pais acompanharem o crescimento dos seus filhos, cuidarem da manutenção familiar, e deixar de lado a perspectiva de só vencer na vida para assumir uma postura onde toda a família vence. Junta.

Se cada um de nós ao final do filme repensarmos nosso dia a dia, e começarmos a planejar uma rotina menos gananciosa e mais ‘consumidora da convivência humana’, a história de Val já terá cumprido com sua missão.

E boa sorte na tentativa da vaga para o Oscar 2016!