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Los Angeles é a “vila dos malucos”. E um deles quer trazer a sanidade do seu jeito.

A ABC tenta introduzir na sua grade de programação um drama mais denso e pesado com Wicked City, que segue o estilo de séries como True Detective e Aquarius. Uma limited series, com história fechada por temporada, onde vamos acompanhar não só o processo de investigação da polícia, mas acompanhar de perto também o assassino/serial killer/maluco da vez, mostrando todo o seu perfil psicológico e as suas motivações para realizar seus crimes.

O tema já não é dos mais fáceis. Na TV aberta, então, nem se fala. Mesmo assim, os canais abertos norte-americanos começaram a investir nesse segmento, tentando capitalizar um pouco em cima do prestígio de séries consagradas na TV paga. Acontece que não necessariamente estamos falando para um mesmo público. Sem falar que, tradicionalmente, a ABC investe em uma programação mais “familiar”, onde os dramas também não ousam tanto.

Qual será que foi o resultado final de Wicked City?

A série se passa em 1982, com os acontecimentos da temporada envolvendo o “assassino da Sunset Strip”. Jack Roth (Jeremy Sisto) é o detetive do departamento de homicídios da polícia de Los Angeles que lidera essa investigação desse caso, ao lado do seu novo parceiro, Paco Contreras (Gabriel Luna), que não é bem vindo por Jack. Na verdade, ambos escondem os seus podres pessoais, e em algum momento essas “pequenas divergências” entre os dois podem evidenciar os seus segredos. Ou isso, ou eles vão entrar na porrada em algum momento.

Na outra ponta dessa pirâmide, temos Karen McClaren (Taissa Farmiga), jornalista da revista LA Notorious, que acompanha o caso do “assassino da Sunset Strip” de perto. De perto até demais. Ela colhe informações nas cenas dos crimes, e está tão envolvida que chega ao ponto de contribuir diretamente com a investigação, já que em alguns casos ela acaba envolvida com algumas das vítimas.

E com o assassino, Kent Grainer (Ed Westwick).

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Como todo serial killer, Kent é metódico. Ele tem uma rotina para matar. Encontra uma moça na Sunset Strip. Não importa muito a sua origem, desde que ela esteja lá. Faz uma abordagem verbal com a vítima, envolve ela no seu jogo de sedução, e liga para uma rádio local para dedicar uma música para ela. Convida a mesma para ir até um dos pontos mais famosos dos namorados de Los Angeles (um desfiladeiro onde é possível ver toda a cidade iluminada a noite), espera a rádio tocar a música solicitada, e enquanto a vítima está fazendo sexo oral em Kent, ele realiza o assassinato. De forma fria e cruel.

Porém, o jogo começa a virar para Kent quando ele conhece Betty Beaumontaine (Erika Christensen), uma enfermeira e mãe solteira, que ele não consegue matar. Primeiro porque ela não cai na armadilha de Kent (por pura obra do destino). Segundo, porque ele vê que ela tem as mesmas tendências sádicas que ele possui. Betty acaba se descobrindo tão serial killer quanto ele, e os dois iniciam um romance regado à violência, tortura e outras bizzarices nada convencionais. Onde só os fortes sobrevivem.

O objetivo da temporada é mostrar como eles serão pegos (se é que serão pegos), mostrar a psiquê dos dois, e como os investigadores, apesar de todas as diferenças pessoais e podres que eles escondem, terão que investigar essas e outras mortes que virão.

Wicked City não é uma série fácil. Não é uma das séries mais violentas que você já viu na vida. Mas pensando no publico típico da ABC é, talvez, a série mais pesada que o canal já exibiu em toda a sua história. Não só pela violência, mas também pela linguagem e situações adultas (cenas de sexo, consumo de drogas, violência explícita, etc). Lida com temas delicados com uma apresentação pesada, e de difícil assimilação para a maioria das pessoas.

Por outro lado, a série é muito bem produzida. A ambientação da década de 1980 é muito bem feita, com uma qualidade acima da média. A trilha sonora é excelente, muito bem escolhida, e ajudando na ambientação da série. Aliás, como já destacamos nesse post, a trilha sonora tem papel importante na narrativa da série, já que é através da música que Kent determina o momento certo de executar suas vítimas.

A narrativa de Wicked City também é envolvente. Os diálogos são muito bons, e a forma como os personagens se expressam diante de cada situação deixa bem claro a aspiração e a personalidade de cada um deles. Também é importante destacar que a série não tem os “bonzinhos”. Não há “vitimas” no elenco principal. Todos levam culpa no cartório, ou contam com uma personalidade com desvios de caráter, com maior ou menor nível. Ou seja, é uma realidade onde ninguém pode julgar ou condenar ninguém por suas atitudes. Todo mundo é meio podre lá no fundo.

Tal como a vida real.

Também vale destacar o elenco, e a boa interpretação de Ed Westwick. E não estou zoando: todo mundo sabe o que eu penso da CW e de Gossip Girl, mas o Chuck Bass definitivamente não existe mais. Kent tem alma própria, personalidade própria e uma carga dramática que não o deixa caricata. Os demais personagens também apresentam certa dose de profundidade, o que é muito importante para uma série com esse tema, e com a estrutura narrativa que ela está propondo.

Mas… temos uma má notícia: não se apeguem, pois Wicked City será cancelada.

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Não me entendam mal. A série é realmente muito boa. Tem potencial para uma ótima temporada. Mas os números são frios, e contra eles não há argumentos. Wicked City estreou nos EUA com uma demo pior que o recorde negativo de audiência qualificada da já cancelada Forever (exibida pelo canal no mesmo dia e horário na temporada anterior). Além disso, em comparação com a mesma época do ano (semana com finais do baseball na Fox), a demo 18-49 anos do drama do serial killer foi quatro décimos pior que o drama do cara que morria e ressuscitava pelado no lago.

No final das contas, é uma “escolha de Sofia”. Acho que a ABC vai exibir toda a temporada de Wicked City, pois são apenas dez episódios encomendados. Mas não acredito que com tão baixa audiência a série terá uma segunda temporada. Só um milagre salva. Um milagre do tipo “série mais elogiada pelos críticos” ou “série mais indicada ao Emmy Awards”.

Acho que vale a pena dar uma chance para o piloto sim, que é um dos melhores pilotos desse começo de temporada. Vale pelo esforço da ABC em subir a barra de exigência. Em oferecer uma proposta mais ousada, adulta e pesada para a TV aberta. Mas acho uma tentativa válida. Acho que é fundamental para elevar a qualidade das séries da TV aberta, saindo da mesmice e do senso comum. Saindo da zona de conforto.

Chocar para fazer pensar.